Brasil enfrenta disputa por soberania digital em meio à dependência de big techs, data centers e terras raras

A fragilidade da soberania digital brasileira tornou-se ponto central de preocupação para especialistas em tecnologia, defesa, geopolítica e inovação, diante da dependência do país em relação a plataformas estrangeiras, infraestrutura computacional operada por big techs, serviços de nuvem pagos em dólar e cadeias globais de hardware. O debate envolve desde a tentativa de cobrança de taxas sobre transações realizadas pelo Pix por empresas de tecnologia até contratos bilionários firmados entre companhias americanas, universidades e órgãos públicos brasileiros, além da disputa internacional por terras raras, semicondutores, energia e controle de dados estratégicos.

Dependência tecnológica expõe vulnerabilidade brasileira

A discussão sobre soberania digital deixou de ser um tema restrito a especialistas e passou a integrar o núcleo das preocupações de Estado. O avanço da inteligência artificial, da computação em nuvem, da criptografia, dos data centers e da exploração de minerais estratégicos reposicionou a tecnologia como elemento de segurança nacional, desenvolvimento econômico e autonomia institucional.

Para Kane Fukunaga, empresário à frente de uma deeptech brasileira especializada em inteligência artificial, a dependência tecnológica do Brasil atravessa tanto o hardware quanto o software. Segundo ele, mesmo empresas nacionais com tecnologia proprietária operam sob forte condicionamento das grandes plataformas estrangeiras, especialmente quando precisam escalar serviços, processar dados ou utilizar infraestrutura de nuvem.

O principal gargalo, na avaliação do empresário, está na infraestrutura física que sustenta a internet global. Empresas como Amazon, Meta, Tesla e ByteDance ampliam investimentos em grandes data centers, inclusive no Brasil, enquanto startups nacionais seguem dependentes de provedores como AWS e Azure. Essa dependência obriga empresas brasileiras a contratar capacidade computacional em dólar e limita a construção de uma base tecnológica autônoma.

Data centers, nuvem e poder das plataformas

A concentração de infraestrutura digital nas mãos de grandes corporações internacionais reforça o debate sobre o chamado tecnofeudalismo, conceito usado para descrever a formação de territórios digitais controlados por poucas empresas privadas. Na prática, plataformas, serviços de nuvem, lojas de aplicativos, mecanismos de busca e modelos de inteligência artificial passam a exercer influência direta sobre mercados, governos e usuários.

Fukunaga avalia que o conceito tem fundamento, embora demande nuances. Ele cita como exemplos a presença da Google no ecossistema da Anthropic, responsável pelo modelo Claude, e a centralidade da Amazon Web Services na sustentação de parte relevante da internet global. Uma interrupção de serviços dessa magnitude, segundo a avaliação apresentada, teria impacto sistêmico.

O caso brasileiro revela uma contradição: o país possui profissionais qualificados, mercado consumidor expressivo e capacidade de inovação, mas não consolidou uma política robusta de infraestrutura computacional própria. A ausência de investimentos nacionais de grande escala em data centers, semicondutores e plataformas soberanas mantém empresas, universidades e órgãos públicos vinculados a fornecedores externos.

Planejamento de Estado é apontado como condição para soberania digital

Andriei Gutierrez, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Software (ABES), defende que a soberania digital precisa deixar o campo abstrato e ser tratada como uma estratégia de Estado. Para ele, o Brasil deve definir prioridades, concentrar recursos e estabelecer políticas públicas de longo prazo para reduzir vulnerabilidades tecnológicas.

Gutierrez usa a China como referência de planejamento estratégico. Segundo o presidente da ABES, áreas que há 25 anos eram periféricas ou pouco desenvolvidas foram transformadas em polos tecnológicos por decisão política, investimento contínuo e coordenação estatal. Cidades como Pequim, Xangai e Shenzhen tornaram-se centros de inovação capazes de abrigar multinacionais como Baidu, Huawei e Alibaba.

A comparação evidencia um ponto sensível para o Brasil: a política tecnológica nacional ainda é fragmentada. Ministérios e órgãos públicos conduzem agendas em telecomunicações, ciência, tecnologia, indústria e inovação sem integração suficiente. Para os especialistas ouvidos, a ausência de um eixo estratégico reduz a capacidade de transformar recursos naturais, conhecimento técnico e orçamento público em infraestrutura digital soberana.

Defesa, segurança nacional e criptografia pós-quântica

Na avaliação de Gutierrez, a área de defesa e segurança nacional deveria ser o ponto de partida para uma agenda brasileira de soberania digital. O país possui fronteiras extensas, reservas energéticas relevantes, ativos ambientais estratégicos e recursos minerais cobiçados no cenário internacional, o que amplia a necessidade de sistemas próprios de monitoramento, comunicação e proteção de dados.

Entre as prioridades mencionadas estão investimentos em drones, tecnologias de vigilância, telecomunicações seguras, criptografia e criptografia pós-quântica. Esse último campo busca preparar sistemas de segurança para um futuro em que computadores quânticos possam tornar obsoletos padrões criptográficos atualmente usados por governos, bancos, empresas e instituições militares.

A soberania digital, portanto, não se limita à proteção de dados pessoais ou à regulação de redes sociais. Ela envolve capacidade de defesa, proteção de infraestruturas críticas, preservação de comunicações sensíveis e autonomia tecnológica diante de crises internacionais.

Terras raras colocam o Brasil no centro da disputa global

A pesquisadora Isabela Silveira Rocha, presidente do Fórum para Tecnologia Estratégica dos BRICS+, afirma que a soberania digital também depende do controle sobre recursos físicos estratégicos. O Brasil é apontado como detentor de reservas relevantes de terras raras, insumos essenciais para semicondutores, baterias, equipamentos de defesa, tecnologias de energia limpa e sistemas avançados de computação.

Segundo Rocha, grandes potências observam a América Latina, especialmente o Brasil, como área estratégica para abastecimento de cadeias industriais ligadas à transição energética e à indústria de semicondutores. A disputa por esses recursos amplia a dimensão geopolítica da soberania digital e aproxima tecnologia, mineração, energia, defesa e política externa.

A pesquisadora também menciona o urânio como ativo estratégico, sobretudo diante da possibilidade de expansão da energia nuclear em aplicações industriais e no abastecimento de data centers. Para ela, a integração entre energia, computação e infraestrutura digital será decisiva para países que pretendem preservar autonomia tecnológica nas próximas décadas.

Brasil teria recursos, mas faltaria coordenação política

Rocha coordena, no âmbito do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), um índice de soberania digital que avalia cerca de 100 países a partir de critérios como capacidade industrial de hardware, soluções de computação em nuvem, software, governança digital e infraestrutura legislativa.

De acordo com a avaliação apresentada, o Brasil dispõe de insumos, profissionais qualificados e recursos financeiros, mas enfrenta deficiência de coordenação política. Pesquisa citada por seu grupo aponta que gastos do governo brasileiro com big techs estrangeiras somaram R$ 23 bilhões em dez anos, montante que, segundo a estimativa mencionada, poderia viabilizar dezenas de data centers de padrão Tier 3.

A crítica central recai sobre a falta de conversão do gasto público em capacidade própria. Em vez de fortalecer infraestrutura nacional, parte relevante dos recursos destinados à digitalização do Estado teria sido canalizada para contratos com fornecedores estrangeiros, mantendo a dependência tecnológica.

Regulação, Cloud Act e jurisdição sobre dados

Outro ponto sensível é a regulação. Rocha defende a necessidade de um vis-à-vis regulatório, isto é, a capacidade de o Brasil fazer valer sua legislação em pé de igualdade com normas estrangeiras. O exemplo citado é o Cloud Act, legislação americana que pode submeter dados processados em infraestrutura de empresas dos Estados Unidos à jurisdição daquele país.

A questão ganha relevância quando órgãos públicos, universidades, empresas estratégicas e governos utilizam nuvens operadas por companhias estrangeiras. Mesmo quando a contratação recebe a denominação de “nuvem soberana”, a infraestrutura pode continuar submetida a marcos legais externos, o que fragiliza a autonomia decisória nacional.

Essa tensão revela que soberania digital exige mais do que armazenamento local de dados. Exige domínio sobre infraestrutura, código, satélites, criptografia, cadeia de suprimentos, governança tecnológica e instrumentos jurídicos capazes de proteger informações sensíveis.

Soberania digital não significa isolamento econômico

Apesar das críticas à dependência tecnológica, Gutierrez ressalta que o Brasil não precisa fechar suas portas ao investimento estrangeiro. A defesa de soberania digital, nesse sentido, não equivale a isolamento econômico, mas à construção de capacidade própria em setores considerados estratégicos.

O desafio está em equilibrar abertura, competitividade e autonomia. O país pode receber data centers, empresas internacionais e investimentos externos, desde que também desenvolva políticas para formar talentos, atrair programadores, financiar inovação local, proteger dados críticos e construir infraestrutura nacional.

A ausência de uma política ativa para atrair os melhores profissionais de tecnologia da América Latina é apontada como uma falha. Em um cenário de disputa global por talentos, semicondutores, energia e inteligência artificial, países que não planejam tendem a ocupar posições subordinadas nas cadeias digitais.


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