A Polícia Federal investiga a relação entre a empresária Roberta Luchsinger, o empresário e lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no âmbito da apuração sobre fraudes bilionárias envolvendo descontos associativos em benefícios de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Em depoimento prestado na quarta-feira (20/05/2026), Roberta afirmou que apresentou Lulinha a Antunes em “contexto social”, negou ter repassado recursos ao filho do presidente e declarou não ter conhecimento, à época, de atividades suspeitas atribuídas ao empresário.
Empresária nega repasse de valores a Lulinha
Segundo informações publicadas por veículos nacionais, Roberta Luchsinger confirmou à Polícia Federal ter mantido relação profissional com Antônio Carlos Camilo Antunes, mas negou que tenha atuado como intermediária de pagamentos destinados a Fábio Luís Lula da Silva. A empresária afirmou que prestou serviços ao investigado antes de a Operação Sem Desconto tornar públicas as suspeitas sobre fraudes em descontos associativos no INSS.
A defesa de Roberta sustenta que os valores recebidos de Antunes corresponderiam a serviços de consultoria. Conforme a versão apresentada, a relação profissional estaria vinculada à sondagem de negócios e à regulamentação de mercados ligados a produtos de base farmacêutica e canabidiol, e não ao esquema investigado pela Polícia Federal.
A empresária também declarou que apresentou Lulinha a Antunes em ambiente social. Após a deflagração da Operação Sem Desconto, Roberta afirmou ter receio de que esse contato pudesse ser explorado politicamente, segundo relato divulgado pelo UOL.
Viagem a Portugal entra no radar da investigação
Um dos pontos apurados pelos investigadores é a proximidade entre Lulinha e Antônio Carlos Camilo Antunes. De acordo com relato atribuído à defesa de Roberta Luchsinger, Fábio Luís Lula da Silva teria viajado com Antunes a Portugal em uma agenda de prospecção e sondagem de negócios, relacionada a produtos à base de cannabis medicinal. A defesa da empresária afirmou que Roberta não participou da viagem e que o deslocamento estaria fora do escopo dos serviços prestados por ela.
A investigação procura esclarecer se a relação entre os envolvidos foi apenas social e empresarial, como alegam as defesas, ou se houve utilização de terceiros e empresas para ocultar pagamentos vinculados ao esquema de descontos irregulares sobre benefícios previdenciários.
Até o momento, as defesas citadas negam irregularidades. O caso permanece em fase de investigação, o que exige distinção clara entre suspeitas em apuração, depoimentos prestados e fatos juridicamente comprovados.
STF autorizou quebra de sigilos de Lulinha
A apuração ganhou novo peso institucional após autorização judicial para a quebra de sigilos de Fábio Luís Lula da Silva. Segundo reportagens nacionais, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou medidas de investigação envolvendo o filho do presidente no contexto das apurações sobre o esquema do INSS. A defesa de Lulinha nega qualquer irregularidade.
A medida permite que investigadores examinem dados bancários, fiscais e telemáticos para verificar se houve pagamentos, movimentações financeiras ou comunicações compatíveis com as suspeitas levantadas no inquérito. Em casos dessa natureza, a quebra de sigilo não representa condenação, mas instrumento judicial de produção de prova.
O ponto central da investigação é saber se houve repasse direto ou indireto de recursos a Lulinha por meio de Roberta Luchsinger ou de outras estruturas empresariais ligadas a Antônio Carlos Camilo Antunes. Essa hipótese é negada pelas defesas.
“Careca do INSS” é apontado como personagem central da Operação Sem Desconto
Antônio Carlos Camilo Antunes está preso preventivamente desde 12/09/2025, segundo o Senado Federal. Em depoimento à CPMI do INSS, realizado em 25/09/2025, ele permaneceu em silêncio diante de perguntas do relator, mas negou participação em fraude. As investigações apontavam, naquele momento, suspeitas de movimentação de R$ 24,5 milhões em cinco meses e possível pagamento de propina a servidores graduados do INSS para facilitar descontos fraudulentos.
Antunes é investigado na Operação Sem Desconto, deflagrada para apurar descontos indevidos de mensalidades associativas diretamente nos benefícios de aposentados e pensionistas. Em abril de 2026, a Justiça do Distrito Federal rejeitou recurso apresentado por sua defesa para impedir o uso jornalístico do apelido “Careca do INSS”, entendendo que a expressão já era amplamente utilizada pela imprensa e não configurava, por si só, finalidade ofensiva.
Fraude expôs fragilidade dos descontos associativos no INSS
O pano de fundo da investigação é a cobrança de mensalidades associativas diretamente na folha de pagamento de aposentados e pensionistas. Esse tipo de desconto era viabilizado por meio de Acordos de Cooperação Técnica (ACTs), instrumento pelo qual o INSS autorizava entidades associativas a receber valores descontados dos benefícios, desde que houvesse autorização dos segurados.
Relatório da Controladoria-Geral da União (CGU) divulgado em 23/04/2025 apontou um quadro de graves inconsistências. A auditoria entrevistou 1.273 beneficiários em todos os estados e no Distrito Federal, entre 17/04/2024 e 04/07/2024. Desse total, 1.242 pessoas, equivalentes a 97,6%, disseram não ter autorizado os descontos; outras 1.221, ou 95,9%, afirmaram não participar das associações responsáveis pelas cobranças.
A CGU também registrou aumento dos descontos associativos e das reclamações de aposentados a partir de 2019, com ampliação do número de entidades envolvidas em 2022. Esses dados reforçam a dimensão estrutural do problema: a fraude não se limita a um episódio isolado, mas sugere falhas prolongadas de controle, fiscalização e validação de autorizações no sistema previdenciário.
INSS já havia identificado irregularidades antes da operação
A Agência Brasil informou que a Auditoria-Geral do INSS havia identificado, em setembro de 2024, inconsistências e irregularidades em parte dos acordos firmados com organizações da sociedade civil, cerca de oito meses antes da operação conjunta da PF e da CGU. O relatório apontou que os procedimentos de formalização e operacionalização dos ACTs não atendiam integralmente aos requisitos exigidos.
Esse dado amplia a responsabilidade institucional do caso. A investigação não trata apenas de eventual conduta de empresários ou intermediários, mas também de como o Estado permitiu que descontos sensíveis, incidentes sobre a renda de aposentados e pensionistas, fossem realizados em larga escala sem validação efetiva da vontade dos beneficiários.
Caso tem impacto político e institucional
A presença de Lulinha no inquérito confere dimensão política ao caso, mas a apuração precisa ser tratada com cautela jurídica. O fato de o filho do presidente ter sigilos quebrados e vínculos investigados não equivale a responsabilização criminal. Ao mesmo tempo, a gravidade do esquema exige investigação transparente, especialmente porque envolve recursos subtraídos de uma população vulnerável: aposentados, pensionistas e beneficiários da Previdência Social.
A linha divisória entre exploração política e interesse público deve ser observada com rigor. É legítimo investigar vínculos financeiros, empresariais e pessoais quando há suspeita de lavagem de dinheiro, intermediação indevida ou ocultação de patrimônio. Também é indispensável garantir o contraditório, a presunção de inocência e o direito de defesa dos investigados.
Cronologia do caso
2019 — A CGU identifica crescimento dos descontos associativos e das reclamações de beneficiários por cobranças indevidas.
2022 — Há ampliação do número de entidades envolvidas nos descontos e dos valores repassados a associações.
17/04/2024 a 04/07/2024 — Auditores da CGU realizam entrevistas com aposentados e pensionistas em todos os estados e no Distrito Federal.
Setembro de 2024 — Auditoria-Geral do INSS identifica inconsistências em acordos que permitiam descontos associativos.
23/04/2025 — CGU divulga relatório apontando que 97,6% dos beneficiários entrevistados não autorizaram os descontos.
12/09/2025 — Antônio Carlos Camilo Antunes é preso preventivamente, segundo registro do Senado.
25/09/2025 — Antunes depõe à CPMI do INSS, não responde perguntas do relator e nega participação em fraude.
16/04/2026 — Justiça do Distrito Federal rejeita recurso para impedir uso jornalístico do apelido “Careca do INSS”.
20/05/2026 — Roberta Luchsinger presta depoimento à Polícia Federal, nega repasse de valores a Lulinha e confirma que apresentou o filho do presidente a Antunes em contexto social.








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