O ensaio “A Polipoética de Vladimir Queiroz: seis poemas imprescindíveis”, assinado pelo jurista, escritor e crítico literário Taurino Araújo, amplia a leitura crítica sobre a obra do poeta feirense Vladimir Queiroz ao propor a categoria estética da polipoética como chave interpretativa para compreender uma produção marcada pela convergência entre sertão, mito, oralidade, memória, espiritualidade, musicalidade e referências culturais universais.
O estudo examina seis poemas considerados estruturantes na trajetória literária de Vladimir Queiroz: “Covoá”, “Lótus”, “Faúlhas”, “Hakuna Matata”, “Porto” e “Trajeto”. A escolha desses textos permite a Taurino Araújo demonstrar como a poesia do autor baiano se organiza em torno de imagens recorrentes de travessia, metamorfose, ancestralidade, resistência e reinvenção simbólica.
No ensaio, a noção de polipoética é definida como uma organização estética fundada na coexistência dinâmica de múltiplos sistemas simbólicos. Esses sistemas envolvem matrizes culturais, míticas, sonoras, imagéticas, espirituais e históricas, que permanecem reconhecíveis ao mesmo tempo em que interagem e se transformam dentro da estrutura do poema.
A formulação proposta por Taurino Araújo não se limita a identificar variedade temática na obra de Vladimir Queiroz. O ponto central da análise é mais específico: a poesia do autor não apenas reúne referências diversas, mas as articula em uma estrutura de linguagem na qual o local e o universal, o corpo e a transcendência, o sertão e o cosmo permanecem em permanente circulação.
Polipoética não é simples mistura de referências
Um dos méritos do ensaio de Taurino Araújo está na tentativa de diferenciar a polipoética de categorias próximas, como sincretismo, hibridismo cultural, intertextualidade e dialogismo. Embora dialogue com essas noções, a categoria proposta busca nomear um fenômeno mais preciso: a coexistência organizada de diferentes sistemas simbólicos dentro do poema.
Na leitura apresentada, a polipoética não corresponde a uma colagem de temas ou a uma acumulação de referências eruditas. Trata-se de um modo de composição em que elementos de diferentes tradições — sertanejas, afro-brasileiras, indígenas, orientais, cristãs, clássicas e populares — convivem sem que um anule o outro.
Essa distinção é relevante porque impede uma leitura superficial da obra de Vladimir Queiroz. Em vez de reduzir sua poesia ao exotismo cultural ou à ornamentação simbólica, o ensaio sustenta que a multiplicidade é o próprio princípio de organização do texto poético.
Sertão, mito e mundo na obra de Vladimir Queiroz
Na interpretação de Taurino Araújo, o sertão ocupa posição central na obra de Vladimir Queiroz. Ele não aparece apenas como paisagem regional, mas como núcleo irradiador de sentidos. Mesmo quando o poema convoca imagens de Buda, Zeus, Tupã, Zumbi dos Palmares, Persépolis, Pasárgada, Iemanjá ou Poseidon, permanece ancorado em uma experiência telúrica brasileira.
Essa permanência do sertão impede que a obra se dissolva em universalismo abstrato. O mundo entra no poema, mas o ponto de partida continua sendo uma territorialidade marcada por memória, oralidade, terra, caminho, corpo, pó, água, barro, fogo e ancestralidade.
A poesia de Queiroz, nessa perspectiva, transforma o sertão em espaço de encontro entre diferentes civilizações simbólicas. O local não é tratado como limite, mas como plataforma de expansão imaginária. Essa é uma das razões pelas quais o ensaio situa sua obra em diálogo com grandes tradições da literatura brasileira e universal.
Os seis poemas analisados
“Covoá”: escavação da memória sertaneja
Em “Covoá”, Taurino Araújo identifica uma operação poética de escavação da memória. O gesto de cavar a terra, mastigar o pó e reencontrar caminhos herdados dos aboios e dos cascos em tropel projeta o sertão como território físico, simbólico e ancestral.
O poema não se limita à evocação regionalista. A terra sertaneja aparece como matéria da linguagem e da identidade. O passado não é preservado como monumento imóvel; é reativado para reinventar o presente.
A imagem final do cavaleiro que parte em movimento reforça uma das ideias centrais do ensaio: em Vladimir Queiroz, o poema raramente se fecha em conclusão. Ele permanece como processo, deslocamento e abertura.
“Lótus”: cartografia espiritual e cultural
Em “Lótus”, a polipoética se manifesta por meio de uma cartografia espiritual marcada por referências orientais, indígenas, afro-brasileiras, cristãs e clássicas. Buda, Tupã, Zumbi dos Palmares, Zeus, Persépolis e Manuel Bandeira coexistem no mesmo espaço poético.
O lótus, símbolo associado à elevação espiritual, torna-se metáfora da própria poesia de Queiroz: uma criação que nasce da lama, atravessa contradições culturais e existenciais e busca uma forma de transcendência plural.
A força do poema está na capacidade de reunir imagens aparentemente distantes sem reduzi-las a ornamento. Cada referência amplia a anterior e cria um campo de tensão simbólica em que a espiritualidade é apresentada como constelação de experiências humanas.
“Faúlhas”: arte, fogo e transformação
Dedicado a Francisco Brennand, “Faúlhas” aproxima poesia, cerâmica, fogo, barro, pão, moinho e memória. O poema se organiza em torno da transformação da matéria, estabelecendo correspondência entre o trabalho manual do artífice e o trabalho verbal do poeta.
A repetição da expressão “No moinho” produz cadência ritual e reforça a circularidade da criação. O moinho tritura, transforma e reorganiza. O grão vira farinha; o barro vira forma; a palavra vira imagem.
A homenagem a Brennand ultrapassa o registro circunstancial. O poema converte a arte em metáfora da permanência. Das faúlhas, dos fragmentos e dos restos do processo criador surge a possibilidade de continuidade estética e espiritual.
“Hakuna Matata”: resistência como procedimento formal
Em “Hakuna Matata”, a repetição de “Mesmo que” estrutura o poema como ladainha de resistência. Cada ameaça — perda dos pés, da voz, do ar, da luz ou do palco — recebe uma resposta de reconstrução simbólica.
A expressão popularizada globalmente como lema de despreocupação adquire, no poema, sentido mais denso. Ela se converte em inscrição de sobrevivência e afirmação vital diante da adversidade.
Taurino Araújo observa que, nesse texto, a resistência não é apenas tema. Ela se torna procedimento formal. O poema resiste porque sua própria sintaxe insiste, retorna, recompõe e reafirma.
“Porto”: travessia, diáspora e metamorfose
Em “Porto”, o espaço portuário funciona como lugar de partida, perda, memória coletiva e epifania. O refrão “Fui ao porto” conduz o leitor por camadas sucessivas de sentido: despedida, ritual, ancestralidade, dor histórica, metamorfose e potência mítica.
A presença de Iemanjá, do agogô, do ijexá e de Poseidon revela uma das marcas da polipoética: a convivência entre matrizes afro-brasileiras e mitológicas universais dentro de uma mesma arquitetura simbólica.
O porto não é apenas geografia. É condição humana. Representa deslocamento, ferida, retorno e transformação. Por isso, o poema articula experiência individual e memória coletiva em um mesmo cais simbólico.
“Trajeto”: caminhar como iniciação
Em “Trajeto”, a repetição de “Só os que” constrói uma lógica iniciática. O poema distingue aqueles que atravessam névoas, águas, lama, desertos, encruzilhadas e sinais invisíveis daqueles que permanecem presos à superfície do caminho.
A caminhada não é apresentada como percurso linear. O trajeto envolve incerteza, resistência, beleza, provação e abertura ao desconhecido. A chegada importa menos do que o ato de atravessar.
Nesse sentido, o poema funciona como síntese da leitura proposta por Taurino Araújo. A obra de Vladimir Queiroz é compreendida como movimento contínuo, no qual o sentido se constrói no deslocamento entre tempos, culturas, vozes e símbolos.
Musicalidade e oralidade como matrizes da polipoética
Outro ponto relevante do ensaio é a análise da musicalidade interna e externa da poesia de Vladimir Queiroz. Internamente, os poemas são organizados por repetições, paralelismos, aliterações, assonâncias, refrães implícitos e variações rítmicas.
Externamente, a obra incorpora tradições sonoras inteiras. Aboios sertanejos, ijexás, ladainhas, cantigas de roda, tambores afro-brasileiros, rezas populares, mantras orientais e cantos ancestrais atravessam a linguagem poética.
A palavra, nesse contexto, não se limita à página. Ela se aproxima da performance, do rito e da voz coletiva. A poesia de Queiroz se apresenta como partitura verbal, mas também como espaço de memória sonora e cultural.
Taurino Araújo amplia atuação como crítico literário
A análise sobre Vladimir Queiroz se insere em uma trajetória intelectual mais ampla de Taurino Araújo. Conhecido pela obra “Hermenêutica da Desigualdade: uma introdução às ciências jurídicas e também sociais”, o autor tem desenvolvido trabalhos que aproximam Direito, Hermenêutica, Semiótica, Literatura e crítica cultural.
Além da produção jurídica e filosófica, Taurino Araújo vem ampliando sua presença no campo da crítica literária, com estudos sobre autores e intelectuais baianos, como Nelson Cerqueira e Lícia Soares de Souza. Também organizou a coletânea “Signos em Transe”, obra dedicada à trajetória da semióloga Lícia Soares de Souza e reunindo pesquisadores de diferentes países.
No ensaio sobre Vladimir Queiroz, essa formação interdisciplinar aparece de forma evidente. A polipoética é apresentada como categoria literária, mas dialoga com a hermenêutica, a semiótica, a crítica comparatista e a compreensão da cultura como campo de múltiplos sistemas de significação.
Vladimir Queiroz e a trajetória de uma poesia de convergência
Natural de Feira de Santana, Vladimir Queiroz nasceu em 9 de dezembro de 1962. Além da atuação literária, possui formação em Engenharia Química pela Universidade Federal da Bahia e especialização em Engenharia de Petróleo. Sua trajetória reúne produção poética, participação em instituições culturais e circulação em ambientes literários nacionais e internacionais.
Ao longo de três décadas de atividade literária, Queiroz construiu uma bibliografia extensa, com títulos como “Seres & Dizeres”, “Terracota”, “Infantilis”, “Apokálupsis do Sertão”, “Luminescência”, “Instinto”, “Alcatruz”, “Nuances”, “Muxarabis”, “Brasileirança”, “Kairós”, “Kara wã”, “Tropo”, “Sagittarius” e “Abayomi”.
A produção do poeta também ganhou projeção fora do Brasil. Obras como “Nuances”, “Luminescência”, “Muxarabis” e “Kairós” tiveram circulação em países como Portugal, Romênia, Colômbia, Itália, Albânia e Chile. Esse percurso reforça a leitura de que sua poesia nasce de uma matriz brasileira, especialmente sertaneja e baiana, mas alcança interlocução com tradições literárias e culturais mais amplas.









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