A capital portuguesa ocupa o terceiro lugar mundial e a segunda posição entre as cidades europeias com melhor qualidade de vida em 2026, conforme levantamento atualizado nesta quarta-feira (22/07/2026) pela revista britânica Monocle. Lisboa aparece atrás de Tóquio, líder global, e de Copenhague, primeira colocada da Europa, em uma classificação que considera segurança, mobilidade, governança, espaços verdes, cultura, comércio, gastronomia, conectividade e ambiente urbano.
Lisboa alcança o terceiro lugar mundial
O resultado integra a 19ª edição da pesquisa anual sobre qualidade de vida da Monocle, publicada na edição nº 195 da revista, correspondente a julho de 2026. O levantamento foi criado em 2007 com a proposta de avaliar as cidades para além de indicadores tradicionais, como Produto Interno Bruto, tributação, salários e custo de vida.
Na edição de 2026, a revista enviou um questionário com 30 perguntas a correspondentes distribuídos por 40 cidades. As respostas foram combinadas com dados sobre mercado imobiliário e mobilidade cicloviária, incluindo informações da consultoria Knight Frank e do Copenhagenize Index 2025.
Entre os critérios examinados estão segurança pública, conectividade internacional, governança, disponibilidade de áreas verdes, arquitetura, comércio, hospitalidade, mobilidade e diversidade cultural. A pesquisa também considera aspectos da experiência cotidiana, como a possibilidade de encontrar alimentação e atividades urbanas após as 22 horas.
Em 2026, a publicação acrescentou maior atenção à segurança, à capacidade de transformação urbana, ao dinamismo econômico e cultural e à ambição demonstrada pelas administrações municipais. A classificação final combina dados quantitativos com avaliações dos correspondentes e decisões editoriais da revista.
Tóquio lidera o ranking mundial
A primeira colocação foi atribuída a Tóquio, capital do Japão. A maior metrópole do levantamento foi reconhecida pela combinação entre estabilidade, segurança, organização, transporte coletivo, convivência comunitária e capacidade de administrar uma população metropolitana estimada em aproximadamente 37 milhões de habitantes.
A revista destacou a baixa incidência de crimes graves, o funcionamento ordenado do transporte público e a possibilidade de crianças circularem desacompanhadas em diferentes bairros. Também foram valorizados o respeito às regras de convivência, a diversidade comercial e a integração entre grandes projetos urbanos e áreas residenciais tradicionais.
Segundo os dados apresentados, Tóquio possui cerca de 9,95 milhões de habitantes em sua área administrativa, enquanto 57% dos deslocamentos ao trabalho são realizados por transporte público. A cidade apresenta taxa de homicídios de 0,23 por 100 mil habitantes, 20% de áreas verdes e participação das bicicletas em aproximadamente 13% dos deslocamentos diários.
Apesar da liderança, a capital japonesa enfrenta dificuldades associadas ao aumento do turismo, à elevação do custo de vida e à necessidade de preservar o comércio tradicional dos bairros. O levantamento observa que a expansão da atividade turística passou a alcançar áreas anteriormente afastadas dos principais roteiros internacionais.
Copenhague é a cidade europeia mais bem avaliada
A segunda posição mundial e a primeira europeia pertencem a Copenhague, capital da Dinamarca. A cidade consolidou sua reputação internacional pela prioridade concedida às bicicletas, pela baixa criminalidade, pelo transporte público permanente e pela integração entre desenvolvimento urbano, áreas verdes e qualidade dos espaços públicos.
Copenhague possui aproximadamente 398 quilômetros de infraestrutura cicloviária protegida, e as bicicletas representam 29% dos deslocamentos diários. A cidade registra 30% de áreas verdes, população de cerca de 1,4 milhão de habitantes e região metropolitana estimada em 2,2 milhões.
A ampliação do metrô, que funciona durante 24 horas, e os projetos de urbanização em Nordhavn, Sydhavn e Refshaleøen foram mencionados como exemplos da continuidade do planejamento urbano. A revista também valorizou a oferta gastronômica, o comércio independente e a confiança existente entre moradores e instituições.
Entretanto, a capital dinamarquesa enfrenta dificuldades relacionadas ao custo e à disponibilidade de moradias. A administração municipal restringiu novos empreendimentos hoteleiros como parte das medidas destinadas a conter a pressão turística e ampliar a atenção sobre o mercado residencial.
Copenhague já havia liderado o levantamento mundial da Monocle em 2021 e 2022. Naquelas edições, a mobilidade por bicicletas, a coesão social, a qualidade do transporte público, a baixa poluição e a recuperação ambiental da região portuária estiveram entre os principais fatores apontados.
Lisboa combina mobilidade, cultura e identidade urbana
Lisboa ocupa o terceiro lugar mundial devido à combinação entre condições naturais, investimentos públicos, comércio independente, oferta cultural e identidade arquitetônica. A revista atribui parte do avanço da capital portuguesa a uma década de políticas urbanas e investimentos em transporte público.
O sistema de mobilidade integra metrô, bondes elétricos, ônibus, trens suburbanos e embarcações que cruzam o Rio Tejo. A administração municipal também anunciou a primeira nova linha de bonde da cidade em quase 70 anos, conforme o levantamento.
O crescimento das bicicletas elétricas ajudou a contornar as limitações impostas pelo relevo acidentado. Entre 2011 e 2021, o número de viagens regulares realizadas de bicicleta teria aumentado aproximadamente 500%, embora esse meio de transporte ainda represente apenas 1,9% dos deslocamentos diários.
O Aeroporto Humberto Delgado foi destacado por sua função estratégica nas conexões entre Europa, América e África. Segundo os dados publicados, o terminal atende 144 destinos internacionais, reforçando a posição de Lisboa como ponto de ligação entre países de língua portuguesa e diferentes mercados internacionais.
Comércio independente e patrimônio cultural favorecem Lisboa
O comércio tradicional foi considerado um dos elementos que diferenciam Lisboa de outras capitais europeias. Mercados de produtores, bancas de jornais, cafés, livrarias, restaurantes familiares e lojas históricas permanecem integrados ao cotidiano dos bairros.
Parte desses estabelecimentos é protegida pelo programa municipal Lojas com História, desenvolvido para preservar atividades comerciais consideradas relevantes para a memória e a identidade urbana.
A oferta cultural também apresentou expansão. A publicação cita instituições como a Fundação Calouste Gulbenkian, o Centro de Arte Moderna e feiras internacionais que atraem artistas, pesquisadores, profissionais criativos e visitantes estrangeiros.
A capital portuguesa possui aproximadamente 550 mil habitantes em sua área municipal e cerca de 3 milhões na região metropolitana. Lisboa registra, em média, 2.806 horas de sol por ano, 25% de áreas verdes e passe mensal de transporte público no valor de aproximadamente € 40,50, conforme os dados utilizados pela revista.
Segurança permanece entre os principais atrativos
A segurança foi um dos fatores que contribuíram para a posição alcançada por Lisboa. A capital portuguesa mantém reputação internacional de cidade segura para moradores, estudantes, turistas e trabalhadores estrangeiros.
A combinação entre segurança, clima, gastronomia, arquitetura, vida ao ar livre e convivência comunitária fortaleceu a capacidade da cidade de atrair residentes e profissionais internacionais. A Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal destacou ainda a qualidade dos espaços públicos, a vitalidade das ruas e a identidade urbana.
O aumento da população estrangeira, entretanto, ampliou a procura por moradias, serviços públicos e infraestrutura. Portugal contabilizava aproximadamente 1,6 milhão de residentes estrangeiros em 2025, equivalentes a cerca de 14% da população nacional, após mais que duplicar esse contingente desde 2021.
A imigração também exerce papel relevante no mercado de trabalho português. Trabalhadores estrangeiros representam parcela expressiva da construção civil, setor diretamente relacionado à necessidade de ampliar a oferta habitacional no país.
Crise habitacional limita os efeitos da qualidade de vida
A habitação constitui o principal contraste em relação à posição alcançada por Lisboa. Embora a cidade apresente bons indicadores de segurança, mobilidade, cultura e serviços, a compra ou locação de imóveis tornou-se incompatível com a renda de uma parcela crescente da população.
Dados da plataforma Numbeo, compilados pela Euronews, indicam que uma residência em Lisboa custa cerca de 18,7 vezes a renda anual de uma família típica. O índice coloca a capital portuguesa, ao lado da cidade croata de Split, entre os mercados imobiliários menos acessíveis da Europa.
O indicador compara o preço de uma residência considerada típica com a renda média familiar. Uma relação superior a dez anos já é considerada problemática para o financiamento de imóveis, segundo parâmetros citados no levantamento. Lisboa se encontra, portanto, próxima do dobro desse limite.
Na região central, o valor médio informado alcança aproximadamente € 6.763 por metro quadrado. Um apartamento de 50 metros quadrados teria preço estimado em € 338 mil, enquanto o salário líquido médio considerado na comparação corresponde a aproximadamente € 1.416 mensais.
Em dez anos, os preços dos imóveis em Portugal teriam aumentado quase 240%, enquanto a remuneração média cresceu cerca de 59%. Os números foram compilados a partir de diferentes bases privadas e devem ser interpretados como indicadores aproximados do mercado, e não como uma estatística oficial única.
Oferta de moradias avança abaixo da demanda
Portugal conclui entre 25 mil e 30 mil moradias por ano, enquanto estimativas setoriais apontam uma necessidade anual de 45 mil a 50 mil unidades. A habitação social corresponde a aproximadamente 2% do estoque residencial do país, uma das menores proporções da Europa.
A insuficiência da oferta resulta de fatores como demora nos processos de licenciamento, custos de construção, escassez de terrenos disponíveis, concentração econômica nas áreas metropolitanas, crescimento do turismo e aumento da procura internacional.
A situação cria uma contradição urbana: o conjunto de características que torna Lisboa atrativa também eleva a demanda imobiliária e pressiona os moradores que dependem dos salários praticados localmente.
A própria Monocle reconhece o risco de a capital portuguesa se transformar em duas cidades: uma acessível a moradores com maior renda e estrangeiros com recursos internacionais, e outra marcada pelo afastamento progressivo de trabalhadores, jovens e famílias das áreas centrais.
Europa concentra 13 cidades entre as 20 primeiras
As cidades europeias ocupam 13 das 20 posições da classificação de 2026. Além de Copenhague, Lisboa e Viena, aparecem entre as mais bem avaliadas Zurique, Madri, Paris, Munique, Oslo, Estocolmo, Milão, Barcelona, Amsterdã e Helsinque.
A presença europeia está associada à combinação entre infraestrutura consolidada, transporte público, segurança, patrimônio arquitetônico, serviços públicos e políticas de proteção de espaços urbanos.
Viena aparece na quarta posição mundial e na terceira europeia. A capital austríaca foi reconhecida pelo transporte público, pelas piscinas municipais, pela agenda cultural e, principalmente, por seu programa habitacional, que reúne aproximadamente 220 mil unidades de moradia social.
A quinta colocada, Sydney, foi destacada pelos investimentos em metrô, trens leves, requalificação da região portuária e recuperação do centro. Zurique ocupa o sexto lugar, seguida por Madri, Paris, Munique e Oslo.
Urbanização aumenta importância dos indicadores de habitabilidade
A expansão urbana amplia a relevância de levantamentos sobre mobilidade, segurança, moradia, infraestrutura, espaços verdes e serviços. A Monocle afirma que aproximadamente quatro quintos da população mundial vivem em áreas urbanizadas, adotando uma definição ampla que inclui cidades e outros assentamentos urbanos.
A revisão de 2025 do relatório World Urbanization Prospects, das Nações Unidas, utiliza uma classificação harmonizada e mais restrita. Segundo o documento, 45% dos 8,2 bilhões de habitantes do planeta vivem em cidades, enquanto o restante está distribuído entre vilas, centros urbanos menores e áreas rurais. Dois terços do crescimento populacional projetado até 2050 deverão ocorrer nas cidades.
A diferença entre os percentuais decorre das metodologias adotadas para definir cidade, vila, aglomeração e área urbana. A comparação entre estudos exige, portanto, atenção às categorias territoriais utilizadas.
Linha do tempo do ranking de qualidade de vida da Monocle
- 2007 — A Monocle cria sua pesquisa anual de qualidade de vida urbana, incorporando indicadores econômicos, culturais, ambientais e cotidianos.
- 2020 — O levantamento anual é interrompido durante a fase inicial da pandemia de Covid-19.
- 2021 — Copenhague assume a liderança mundial, destacando-se pela coesão social, mobilidade e segurança.
- 2022 — Copenhague permanece na primeira posição pelo segundo ano consecutivo.
- 2023 — Viena lidera a classificação, apoiada no transporte público, na habitação social e na oferta cultural.
- 2024 — Munique ocupa o primeiro lugar, com destaque para economia, infraestrutura, educação e acesso à natureza.
- 2025 — Paris lidera após investimentos em mobilidade, recuperação urbana e ampliação de áreas verdes.
- 22/06/2026 — A revista publica uma retrospectiva dos vencedores da década e antecipa o lançamento da nova pesquisa.
- 30/06/2026 — A Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal divulga o terceiro lugar mundial de Lisboa.
- Julho de 2026 — A edição nº 195 da Monocle apresenta Tóquio em primeiro lugar, Copenhague em segundo e Lisboa em terceiro.
Ranking das dez cidades com melhor qualidade de vida em 2026
A classificação mundial da Monocle apresenta as seguintes cidades nas dez primeiras posições:
- Tóquio, Japão
- Copenhague, Dinamarca
- Lisboa, Portugal
- Viena, Áustria
- Sydney, Austrália
- Zurique, Suíça
- Madri, Espanha
- Paris, França
- Munique, Alemanha
- Oslo, Noruega
A posição de Lisboa demonstra que qualidade de vida urbana não depende exclusivamente de renda, produtividade ou baixo custo. Segurança, patrimônio, transporte público, comércio de bairro, cultura, espaços de convivência e identidade coletiva influenciam diretamente a experiência dos moradores. Entretanto, a metodologia da Monocle combina dados com avaliações editoriais e não deve ser interpretada como uma medição universal ou definitiva.
A diferença em relação a outros levantamentos confirma essa limitação. No Índice Global de Habitabilidade de 2026 da Economist Intelligence Unit, que avalia 173 cidades por meio de indicadores ponderados de estabilidade, saúde, cultura, educação e infraestrutura, Copenhague aparece em primeiro lugar, Viena em segundo e Melbourne em terceiro. Lisboa não integra as dez primeiras posições desse levantamento, o que evidencia como alterações metodológicas produzem resultados distintos.
O reconhecimento internacional fortalece a imagem de Lisboa e pode ampliar o turismo, os investimentos e a atração de profissionais. O principal desafio será impedir que essa valorização aprofunde a exclusão habitacional. A Câmara Municipal de Lisboa, o governo português, as autoridades metropolitanas, os operadores de transporte e o setor imobiliário terão papel central na ampliação da oferta de moradias, na proteção do comércio tradicional e na preservação da capacidade de a cidade permanecer acessível aos trabalhadores que sustentam seu funcionamento cotidiano.








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