Daniel Vorcaro perguntou ao ministro do STF Alexandre de Moraes se deveria deixar o Brasil antes da prisão e mensagens ampliam apuração sobre vazamento da Operação Compliance Zero

Nesta terça-feira (01/09/2026), a divulgação de novos trechos de mensagens recuperadas pela Polícia Federal (PF) do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, ampliou a controvérsia sobre sua relação com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Dois dias antes de ser preso, em novembro de 2025, Vorcaro perguntou ao interlocutor identificado pelos investigadores como Moraes se deveria estar fora do país na segunda-feira seguinte e buscou informações sobre uma eventual operação policial. O conjunto de revelações inclui ainda pedidos para tentar adiar diligências, referências ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, além de questionamentos sobre a possibilidade de sua prisão.

Mensagem foi enviada dois dias antes da prisão

Segundo reportagens baseadas no relatório policial, em 15/11/2025, um sábado, Vorcaro escreveu: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Na mesma sequência, mencionou o juiz federal responsável pela ordem de prisão, questionou se o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, estava informado e perguntou se havia algo que pudesse ser feito.

No domingo (16/11/2025), um dia antes da prisão, o banqueiro voltou ao assunto e perguntou se existia possibilidade de alguma medida ocorrer na manhã seguinte. Os registros passaram a integrar uma análise mais ampla da PF sobre comunicações feitas por meio de capturas de tela de textos previamente escritos no bloco de notas do celular e enviadas pelo WhatsApp, em alguns casos como imagens de visualização única.

Esse método é importante para a avaliação probatória porque parte das respostas dos interlocutores não permaneceu armazenada. Dessa forma, embora os investigadores tenham recuperado textos redigidos por Vorcaro e associado determinadas mensagens a Moraes, a existência de pedidos feitos pelo banqueiro não demonstra, isoladamente, que o ministro tenha atendido às solicitações ou praticado atos para beneficiá-lo. Essa distinção será central para qualquer conclusão jurídica posterior.

Vorcaro perguntou se interlocutor havia conseguido “bloquear”

No próprio 17/11/2025, data da prisão, registros já conhecidos desde março de 2026 mostraram Vorcaro perguntando se havia alguma novidade e se o interlocutor havia conseguido “ter notícia ou bloquear”. Moraes negou, quando esses primeiros diálogos vieram a público, ter recebido as mensagens então atribuídas a ele e classificou as informações como uma tentativa de atingir o STF. Nas novas revelações de setembro, até os horários consultados pelas reportagens, o ministro não havia apresentado resposta pública específica para todos os novos trechos divulgados.

A PF passou a analisar também mensagens nas quais Vorcaro pedia tentativa de intervenção junto a autoridades. Em uma delas, escreveu que seria importante reforçar com “Andrei e Paulo” para impedir que pessoas de escalões inferiores fizessem algo prejudicial ao banco. Em outra, pediu que Andrei fosse sensibilizado a atrasar uma ação policial para a semana posterior. Segundo a investigação, os nomes fariam referência a Andrei Rodrigues e Paulo Gonet.

Não há, no material público examinado até agora, demonstração conclusiva de que Rodrigues ou Gonet tenham atendido a qualquer pedido, nem de que Moraes tenha efetivamente feito as intervenções solicitadas. O conteúdo comprova a existência das solicitações atribuídas a Vorcaro e constitui elemento investigativo; a eventual responsabilização de terceiros depende da comprovação de respostas, atos, vínculos causais e conhecimento do propósito das solicitações.

Conversa de março de 2025 amplia contexto dos contatos

Outra mensagem divulgada nesta terça-feira acrescentou um antecedente relevante. Em 19/03/2025, Vorcaro informou ao então diretor de Fiscalização do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza que estava reunido com Moraes e escreveu que o ministro iria chamar “Paulo para dar um aperto”. Naquele período, o Banco Master tentava viabilizar a venda de 58% de seu capital ao BRB, enquanto órgãos de controle apresentavam questionamentos à operação.

A frase registra o que Vorcaro afirmou ao dirigente do Banco Central, mas não prova, por si só, que Moraes tenha efetivamente procurado Paulo Gonet ou exercido pressão sobre o procurador-geral. A investigação deverá estabelecer se o comentário reproduzia uma ação real, uma promessa, uma expectativa de Vorcaro ou apenas uma forma de demonstrar influência perante terceiros.

Mensagens analisadas pela PF também indicam que Vorcaro e Moraes teriam se encontrado pelo menos seis vezes entre 2024 e 2025, algumas reuniões inicialmente intermediadas pelo ex-ministro Fábio Faria. A existência e a frequência desses contatos são relevantes para contextualizar os diálogos, mas também não constituem prova autônoma de favorecimento ilícito.

Prisão antecedeu liquidação do Banco Master

Vorcaro foi detido pela PF na noite de 17/11/2025, no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, quando se preparava para embarcar em aeronave particular. Reportagens apontam escala prevista em Malta e destino final em Dubai. O banqueiro sustentou posteriormente que viajaria para concluir negócios relacionados ao banco, que o Banco Central tinha conhecimento do deslocamento e que não pretendia fugir.

No dia 18/11/2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras instituições do conglomerado. A autoridade monetária citou grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.

As mensagens anteriores à prisão passaram, portanto, a ser examinadas dentro de uma investigação que precisa esclarecer de onde Vorcaro obtinha informações sobre medidas sigilosas, quem tinha conhecimento das diligências e se ocorreu ou não atuação de agentes públicos destinada a retardar, impedir ou antecipar ações policiais.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 19/03/2025: Vorcaro afirma a Paulo Sérgio Neves de Souza que estava com Moraes e que o ministro iria chamar “Paulo para dar um aperto”; o contexto era a tentativa de venda de participação do Master ao BRB.
  • 15/11/2025: Vorcaro pergunta se deveria estar fora do país na segunda-feira e menciona juiz, Galípolo e possibilidade de atuação sobre o caso.
  • 16/11/2025: o banqueiro pergunta sobre a possibilidade de medidas ocorrerem na manhã seguinte.
  • 17/11/2025: Vorcaro volta a pedir informações e é preso à noite no Aeroporto de Guarulhos.
  • 18/11/2025: Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master.
  • 01/09/2026: novos trechos do material da PF são divulgados e André Mendonça retira o sigilo dos autos relacionados às mensagens.

O principal elemento novo é a combinação entre antecipação temporal das diligências, pedidos de intervenção e a identificação, pela PF, de Moraes como destinatário de parte das comunicações. Isso torna legítima e necessária uma apuração institucional aprofundada, especialmente porque informações sobre prisões e buscas submetidas a sigilo não deveriam circular entre investigados.

Ao mesmo tempo, rigor jornalístico e jurídico exige distinguir três níveis distintos: Vorcaro possuir informações privilegiadas; Vorcaro pedir ajuda a uma autoridade; e a autoridade efetivamente fornecer informação ou interferir em investigação. O material tornado público oferece elementos relevantes sobre os dois primeiros pontos, mas a responsabilização criminal ou funcional de Moraes depende de prova sobre o terceiro.

A investigação também precisa identificar a origem primária dos dados aos quais o banqueiro aparentemente tinha acesso. A própria PF informou, em julho, que a Operação Compliance Zero passou a apurar obtenção indevida de informações sigilosas e medidas destinadas a interferir em investigações criminais, demonstrando que o problema ultrapassa a relação pessoal entre dois personagens.

A relevância pública do episódio decorre justamente da posição institucional dos envolvidos. Caberá à PGR, à Polícia Federal, ao relator André Mendonça, ao próprio STF e, nos limites de suas competências, aos órgãos de controle esclarecer se houve apenas tentativa de influência por parte de Vorcaro ou se pedidos produziram atos concretos de agentes públicos.


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