Márcio Canella e Flávio Bolsonaro: da Alerj à chapa ao Senado, aliança política entra no foco após nova prisão pela PF

Na sexta-feira (16/10/2026), um dia após a Polícia Federal prender preventivamente o deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil-RJ) na oitava fase da Operação Unha e Carne, a relação política construída ao longo dos últimos anos entre o ex-prefeito de Belford Roxo e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) voltou ao centro do debate nacional. Canella e Flávio foram contemporâneos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, aproximaram-se eleitoralmente depois que o político da Baixada Fluminense aderiu à candidatura de Jair Bolsonaro em 2022 e chegaram, em 2026, a integrar o mesmo projeto eleitoral: Canella foi lançado ao Senado em acordo conduzido por Flávio, com Rogéria Bolsonaro, mãe do presidenciável, anunciada como primeira suplente. A composição foi desmontada após a primeira operação da PF contra Canella, em julho. A nova prisão ocorre agora em plena disputa do segundo turno presidencial entre Flávio Bolsonaro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), marcado para 25/10/2026.

A reconstrução documental mostra que a relação entre Canella e Flávio passou por diferentes estágios: convivência parlamentar, convergência política, aliança entre partidos, composição de chapa e, posteriormente, distanciamento eleitoral. O histórico comprova uma relação política pública e relevante. Não há, porém, nas fontes consultadas, elemento que atribua a Flávio Bolsonaro participação, conhecimento ou responsabilidade pelos fatos criminais investigados pela Polícia Federal em relação a Canella.

Relação entre Canella e Flávio começou antes da eleição de 2026

A aproximação não nasceu na montagem das chapas para as eleições deste ano. Márcio Canella tomou posse na Alerj em 09/03/2016, pelo então PSL, enquanto Flávio Bolsonaro cumpria seu quarto mandato como deputado estadual. Flávio permaneceu na Assembleia até ser eleito senador em 2018. Os dois, portanto, compartilharam o Parlamento fluminense por parte do período entre 2016 e 2018.

A própria declaração de Flávio em apoio a Canella, divulgada em abril de 2026, retomou esse antecedente. Ao defender a pré-candidatura do aliado ao Senado, o parlamentar lembrou publicamente que Canella havia sido deputado ao seu lado.

A coexistência na Assembleia, isoladamente, não comprova que ambos integrassem naquela época um grupo político comum. O que ela estabelece é um antecedente institucional verificável: os dois já se conheciam da política estadual anos antes da formação da chapa eleitoral de 2026.

Eleição de 2022 aproxima Canella do campo bolsonarista

O movimento político mais importante para compreender a aproximação ocorreu durante a eleição presidencial de 2022.

Canella chegava àquele pleito integrado ao grupo do então prefeito de Belford Roxo, Wagner dos Santos Carneiro, o Waguinho. No primeiro turno, o grupo obteve dois dos resultados individuais mais expressivos do Rio: Daniela do Waguinho foi a deputada federal mais votada do estado, enquanto Canella conquistou 181.274 votos para deputado estadual e terminou na primeira colocação entre os candidatos à Alerj.

A unidade política se rompeu no segundo turno presidencial. Waguinho aderiu à candidatura de Lula, enquanto Canella tomou o caminho oposto e passou a apoiar Jair Bolsonaro (PL). Reportagem publicada à época pela Folha registrou que, após a neutralidade adotada anteriormente, o prefeito seguiria com Lula e Canella endossaria Bolsonaro.

O apoio tornou-se público nas ruas da Baixada Fluminense. Em 22/10/2022, uma carreata pró-Bolsonaro em Belford Roxo foi organizada por Canella. Cinco dias depois, em 27/10, o deputado participou de um ato de Jair Bolsonaro na região. A Folha registrou Canella no palanque ao lado do então presidente e do governador Cláudio Castro (PL), entre outras lideranças.

A divergência presidencial foi seguida pelo rompimento entre os grupos de Canella e Waguinho. Reportagem posterior da revista piauí descreveu Canella como apoiador de Bolsonaro e relacionou o afastamento do antigo aliado justamente à escolha de lados opostos no segundo turno.

Esse período marca uma transição política relevante: Canella deixou de atuar apenas como liderança municipal associada ao grupo que governava Belford Roxo e passou a se identificar publicamente com o campo bolsonarista no Rio.

PL integra a coligação que elege Canella prefeito em 2024

A aproximação ganhou dimensão partidária nas eleições municipais de 2024.

Canella disputou a Prefeitura de Belford Roxo contra Matheus do Waguinho (Republicanos), sobrinho de seu antigo aliado. A candidatura do União Brasil foi sustentada pela coligação Belford Roxo de Todos Nós, que incluía, entre outras legendas, o Partido Liberal (PL).

Canella venceu no primeiro turno, realizado em 06/10/2024, com 155.229 votos, equivalentes a 62,88% dos votos válidos. Matheus do Waguinho recebeu 86.887 votos, ou 35,20%. Os números divulgados a partir da totalização oficial do Tribunal Superior Eleitoral confirmam o amplo resultado obtido pelo candidato do União Brasil.

A eleição consolidou a reconfiguração iniciada em 2022. De um lado estava o grupo de Waguinho, que havia construído relação com Lula; do outro, Canella concorria em uma coligação que incorporava o PL e outras forças da centro-direita e da direita fluminense.

Com a vitória, Canella passou a administrar uma das principais cidades da Baixada Fluminense, ao mesmo tempo em que ampliava sua projeção estadual.

Flávio Bolsonaro transforma proximidade em aliança eleitoral em 2026

O ponto mais claro da relação direta entre Flávio Bolsonaro e Márcio Canella ocorreu em 24/02/2026.

Naquele dia, uma reunião definiu o arranjo eleitoral entre PL, União Brasil e Progressistas no Rio de Janeiro. Canella foi lançado como candidato a uma das duas vagas do estado no Senado. O então governador Cláudio Castro ocuparia a outra candidatura, enquanto Douglas Ruas seria o nome para o Governo do Rio.

A reunião que estruturou o acordo foi conduzida pelo próprio Flávio Bolsonaro, então pré-candidato à Presidência.

O episódio é decisivo para dimensionar a natureza da relação. Canella não apareceu apenas como um político que apoiaria Flávio nacionalmente; tornou-se integrante da chapa estadual montada para sustentar o projeto presidencial do senador em seu principal reduto político.

A construção também envolvia um cálculo territorial. Canella havia sido o deputado estadual mais votado do Rio em 2022, vencido a Prefeitura de Belford Roxo em 2024 e reunia forte eleitorado na Baixada Fluminense. Incorporá-lo à chapa significava agregar ao palanque uma liderança com estrutura política própria em uma região eleitoral estratégica.

Rogéria Bolsonaro foi anunciada como primeira suplente

A integração entre os grupos foi além do apoio partidário.

No mesmo 24/02/2026, Rogéria Bolsonaro, ex-vereadora do Rio, ex-mulher de Jair Bolsonaro e mãe de Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro, foi anunciada como primeira suplente de Márcio Canella na disputa pelo Senado.

No sistema eleitoral brasileiro, cada candidatura ao Senado é registrada com dois suplentes. Em caso de afastamento definitivo, renúncia ou outra hipótese legal de vacância, eles podem assumir o mandato. A escolha de Rogéria criava, portanto, um vínculo eleitoral formal entre a candidatura de Canella e um integrante direto da família Bolsonaro.

A composição também possuía valor simbólico e político. Canella disputaria uma cadeira nacional dentro da estrutura eleitoral comandada pelo filho de Jair Bolsonaro, enquanto a mãe de Flávio ocuparia a primeira posição na linha de substituição do eventual senador.

A chapa anunciada em fevereiro, entretanto, não chegou às urnas nesse formato.

Flávio declarou “apoio integral, 100%” a Canella

A aliança foi reafirmada publicamente em abril de 2026.

Em um vídeo divulgado nas redes sociais, Flávio Bolsonaro apresentou Canella como amigo e declarou seu apoio à candidatura ao Senado:

“Nosso apoio integral, 100%, ao meu amigo Márcio Canella como pré-candidato ao Senado no Rio de Janeiro.”

Na mesma manifestação, Flávio recordou a passagem conjunta pela Alerj, classificou Canella como uma pessoa competente e afirmou que o aliado participaria de seu projeto político nacional.

O registro é relevante porque elimina qualquer dúvida sobre a existência de um endosso político pessoal naquele momento. Não se tratava apenas de uma composição burocrática entre legendas. O candidato presidencial associava publicamente sua imagem à pré-candidatura de Canella e reivindicava a parceria.

Também em abril, Canella deixou a Prefeitura de Belford Roxo para se dedicar à corrida ao Senado. A vice-prefeita Mariana Malta assumiu o Executivo municipal.

Operação Unha e Carne altera o cenário político em julho

A estrutura começou a mudar em 07/07/2026, quando a Polícia Federal deflagrou a sexta fase da Operação Unha e Carne.

Canella era alvo de mandado de busca e apreensão. Durante a ação, os agentes localizaram um fuzil calibre 5,56 no veículo em que ele estava e realizaram sua prisão em flagrante.

O episódio provocou repercussão imediata porque Canella ainda ocupava posição central na chapa ao Senado apoiada por Flávio Bolsonaro, e Rogéria permanecia indicada como primeira suplente.

A investigação maior dizia respeito a uma organização suspeita de lavagem de dinheiro por meio de uma rede de postos de combustíveis e a possíveis relações entre agentes públicos e grupos criminosos no Rio. A apuração integra medidas relacionadas à ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas.

STF posteriormente afastou cautelares ligadas ao episódio da arma

A situação jurídica relacionada especificamente ao fuzil exige uma distinção importante.

Em 10/07, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, concedeu liberdade provisória a Canella mediante medidas cautelares. Posteriormente, em 24/07, o STF informou que os elementos reunidos até aquele momento não permitiam concluir pela prática do crime de porte ilegal de arma, porque os armamentos apreendidos aparentavam estar regularmente registrados e acautelados a policiais militares identificados pela própria Polícia Militar do Rio.

Moraes revogou as cautelares e determinou que possíveis irregularidades administrativas relativas ao uso, cessão ou acautelamento das armas fossem apuradas pelos órgãos competentes.

Essa decisão não encerrou a investigação mais ampla da Operação Unha e Carne. Ela tratou especificamente das circunstâncias relacionadas às armas e à manutenção das cautelares.

Família Bolsonaro deixa a chapa antes da retirada de Canella

Embora a situação relacionada ao fuzil tenha recebido posteriormente uma decisão favorável à retirada das cautelares, os efeitos políticos da operação já estavam produzidos.

Em 29/07/2026, Flávio Bolsonaro decidiu retirar sua mãe da condição de primeira suplente de Canella. Rogéria passou a disputar uma vaga de deputada federal pelo Rio de Janeiro. Segundo reportagem do SBT News, dirigentes do PL atribuíram o deslocamento à tentativa de evitar desgaste político.

A mudança constituía o primeiro afastamento concreto entre a candidatura presidencial de Flávio e a chapa originalmente montada com Canella.

Ainda assim, naquele momento, o ex-prefeito permanecia formalmente no projeto de disputar o Senado.

A ruptura seguinte seria mais ampla.

Canella abandona disputa ao Senado e União Brasil deixa palanque

Em 03/08/2026, Canella anunciou que não concorreria mais ao Senado e informou que voltaria à disputa por uma cadeira na Assembleia Legislativa.

No dia seguinte, 04/08, tornou-se público que o União Brasil fluminense também deixaria o palanque estadual estruturado por Flávio Bolsonaro.

A saída desmontou o desenho elaborado em fevereiro. A candidatura de Canella ao Senado desapareceu, Rogéria já não estava na suplência e a aliança estadual entre as legendas sofreu reconfiguração.

Segundo reportagem publicada pela CNN após a nova prisão de outubro, aliados de Flávio sustentam atualmente que o senador se afastou de Canella depois da operação de julho e que já não o apoiava quando ocorreu a prisão preventiva de 15/10. Trata-se da versão apresentada pelo campo político do candidato presidencial sobre a evolução posterior da relação.

Canella retorna à Alerj com 197.178 votos

Mesmo depois da mudança de planos, Canella conservou uma base eleitoral expressiva.

No primeiro turno das eleições gerais, em 04/10/2026, recebeu 197.178 votos, equivalentes a 2,24% dos votos válidos para deputado estadual, e conquistou uma cadeira na Alerj. Foi a segunda maior votação individual entre os 70 eleitos para o Legislativo fluminense.

Belford Roxo permaneceu como núcleo de sua votação: foram 133.956 votos no município, segundo dados eleitorais compilados a partir do TSE.

O resultado demonstrou que a perda da candidatura majoritária e as controvérsias do período pré-eleitoral não eliminaram sua capacidade de mobilização na Baixada Fluminense.

Onze dias depois da votação, a Polícia Federal voltou a prendê-lo.

Nova prisão ocorre na oitava fase da Operação Unha e Carne

Na manhã de 15/10/2026, a Polícia Federal deflagrou a oitava fase da Operação Unha e Carne.

Segundo comunicado oficial, a ação busca desarticular uma organização criminosa armada suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis da Região Metropolitana do Rio como plataforma para lavagem de dinheiro. A PF afirma que o grupo investigado contaria com participação de agentes públicos e articulação político-institucional.

Foram expedidos seis mandados de prisão preventiva e 16 mandados de busca e apreensão, cumpridos no Rio de Janeiro, Niterói, Angra dos Reis, Petrópolis, Armação dos Búzios, Nova Iguaçu e São Gonçalo. Todos os seis alvos das ordens de prisão foram detidos.

A Justiça também determinou o sequestro de bens e valores e a suspensão das atividades de 112 empresas, das quais 96 são postos de combustíveis, segundo a PF. Um Relatório de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) aponta movimentações superiores a R$ 7,6 bilhões em seis anos.

Canella estava entre os presos, assim como o ex-secretário estadual de Polícia Civil Marcus Vinicius Amim Fernandes e quatro inspetores.

PF atribui a Canella papel político; defesa aguarda acesso aos autos

Documentos da investigação reproduzidos pela imprensa atribuem a Canella a condição de “patrono político e articulador de alto escalão” do grupo investigado. A Polícia Federal também apura supostas relações entre integrantes da estrutura investigada, grupos criminosos, agentes públicos e empresários.

Essas formulações integram a hipótese investigativa da Polícia Federal e a fundamentação das medidas cautelares. Não correspondem a uma condenação judicial definitiva.

A assessoria do deputado eleito informou após a prisão que ainda não havia obtido acesso integral à decisão e aos autos, enquanto a defesa declarou confiar na Justiça.

Os investigados poderão responder, de acordo com a Polícia Federal e conforme as responsabilidades individualmente apuradas, por crimes como organização criminosa armada, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel.

Prisão entra na disputa presidencial entre Flávio Bolsonaro e Lula

A nova operação ocorreu em momento politicamente sensível.

Flávio Bolsonaro disputa contra Lula o segundo turno da eleição presidencial de 25/10/2026. No primeiro turno, segundo o TSE, Flávio recebeu 56.104.268 votos, ou 47,03% dos válidos, enquanto Lula obteve 53.876.617 votos, equivalentes a 45,16%.

Horas após a prisão de Canella, a relação anterior com o candidato presidencial passou a ser explorada politicamente.

A CNN informou na noite de 15/10 que a campanha de Lula pretende recuperar vídeos, manifestações de apoio e registros da antiga chapa para questionar Flávio sobre suas alianças políticas no Rio. Do outro lado, aliados do candidato do PL sustentam que ele rompeu a proximidade política depois da operação de julho, destacando a retirada de Rogéria da suplência e a posterior desistência de Canella da disputa ao Senado.

Essas posições devem ser tratadas como estratégias e versões de campanha, e não como prova sobre o mérito das investigações.

Até a atualização desta reportagem, as fontes consultadas registravam manifestações de aliados de Flávio sobre o afastamento político, mas não uma declaração direta do senador atribuindo a si conhecimento ou responsabilidade pelos fatos investigados contra Canella.

O que está comprovado sobre a relação — e quais são os limites da apuração

A documentação permite estabelecer com segurança cinco pontos.

Primeiro, Canella e Flávio Bolsonaro foram contemporâneos na Alerj e já possuíam contato político muito antes da eleição de 2026.

Segundo, Canella aderiu publicamente ao bolsonarismo no segundo turno de 2022, quando apoiou Jair Bolsonaro, participou de atos de campanha e rompeu politicamente com Waguinho, que havia escolhido Lula.

Terceiro, o vínculo tornou-se partidariamente estruturado em 2024, quando o PL integrou a coligação que elegeu Canella prefeito de Belford Roxo.

Quarto, em 2026, a relação passou à condição de aliança eleitoral direta: Flávio conduziu a reunião que lançou Canella ao Senado, Rogéria Bolsonaro foi indicada para a primeira suplência e o senador declarou publicamente “apoio integral, 100%” à candidatura.

Quinto, a aliança foi progressivamente desmontada depois da primeira operação da PF: Rogéria deixou a chapa em julho; Canella desistiu do Senado em agosto; e o União Brasil fluminense deixou o arranjo estadual originalmente patrocinado por Flávio.

Esses fatos comprovam uma relação política e eleitoral relevante. Não comprovam participação de Flávio nos atos atribuídos pela Polícia Federal a Canella. Até o momento, nenhuma das fontes utilizadas nesta reportagem apresenta evidência de que o senador tenha integrado os negócios, operações financeiras ou supostas articulações criminosas sob investigação.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 09/03/2016 — Alerj: Márcio Canella toma posse como deputado estadual pelo PSL. Flávio Bolsonaro já exercia mandato na Assembleia, criando o primeiro período documentado de convivência parlamentar entre os dois.
  • 02/10/2022 — Eleições estaduais: Canella é reeleito deputado estadual com 181.274 votos, a maior votação para a Alerj naquele pleito.
  • Outubro de 2022 — Eleição presidencial: Waguinho apoia Lula no segundo turno, enquanto Canella adere a Jair Bolsonaro, movimento que contribui para o rompimento do antigo grupo político de Belford Roxo.
  • 22/10/2022 — Belford Roxo: Canella organiza carreata em apoio à reeleição de Jair Bolsonaro.
  • 27/10/2022 — Baixada Fluminense: Canella participa de ato eleitoral ao lado de Jair Bolsonaro e de outras lideranças fluminenses.
  • 06/10/2024 — Eleição municipal: Canella é eleito prefeito de Belford Roxo no primeiro turno com 155.229 votos, ou 62,88% dos válidos. O PL integra a coligação de sua candidatura.
  • 24/02/2026 — Formação da chapa estadual: reunião conduzida por Flávio Bolsonaro lança Canella como candidato ao Senado no acordo entre PL, União Brasil e PP. Rogéria Bolsonaro é anunciada como primeira suplente.
  • Início de abril de 2026 — Belford Roxo: Canella deixa a Prefeitura para disputar o Senado; Mariana Malta assume o governo municipal.
  • Abril de 2026 — Apoio público: Flávio publica vídeo reafirmando “apoio integral, 100%” a Canella e o chama de amigo.
  • 07/07/2026 — Operação Unha e Carne: PF cumpre busca contra Canella; um fuzil 5,56 é encontrado em veículo e ele é preso em flagrante.
  • 10/07/2026 — STF: Alexandre de Moraes concede liberdade provisória mediante cautelares.
  • 24/07/2026 — STF: cautelares são revogadas; decisão afirma que os elementos então existentes não permitiam concluir pela prática de porte ilegal de arma e remete possíveis irregularidades administrativas aos órgãos competentes.
  • 29/07/2026 — Mudança de chapa: por decisão de Flávio, Rogéria Bolsonaro deixa a condição de suplente de Canella e passa a concorrer a deputada federal.
  • 03/08/2026 — Senado: Canella anuncia desistência da disputa e decide concorrer novamente à Alerj.
  • 04/08/2026 — Aliança estadual: União Brasil fluminense deixa o palanque estadual estruturado em torno do projeto presidencial de Flávio Bolsonaro.
  • 04/10/2026 — Eleições: Canella recebe 197.178 votos, ou 2,24%, e é eleito deputado estadual com a segunda maior votação individual para a Alerj.
  • 15/10/2026 — Nova prisão: PF prende preventivamente Canella na oitava fase da Operação Unha e Carne. A investigação informa movimentação superior a R$ 7,6 bilhões, seis prisões, 16 buscas e suspensão das atividades de 112 empresas, entre elas 96 postos.
  • 15 e 16/10/2026 — Disputa presidencial: a prisão passa a integrar o confronto político do segundo turno. A campanha de Lula pretende explorar os registros da antiga aliança, enquanto aliados de Flávio argumentam que houve afastamento desde julho.

A trajetória documentada indica que a relação de Márcio Canella com Flávio Bolsonaro foi resultado de um processo gradual. A convivência na Alerj criou um antecedente institucional; a eleição presidencial de 2022 aproximou Canella do campo político da família Bolsonaro; o pleito municipal de 2024 institucionalizou a aproximação com a entrada do PL na coligação; e a eleição de 2026 levou esse vínculo ao nível máximo, com candidatura ao Senado, presença de Rogéria Bolsonaro na suplência e endosso explícito do presidenciável.

A sequência posterior também é objetiva: a operação de julho alterou o cálculo político, provocou a retirada de Rogéria e antecedeu a desistência de Canella do Senado. Por isso, duas afirmações aparentemente opostas podem coexistir: houve uma aliança eleitoral relevante e publicamente assumida no primeiro semestre de 2026, mas o arranjo foi efetivamente desmontado antes da eleição de outubro. Determinar o momento e a extensão exata do distanciamento pessoal entre os dois dependeria de comunicações internas, agendas, mensagens ou outros registros que não estão disponíveis nas fontes examinadas.

A prisão preventiva de 15/10 amplia o interesse público sobre os critérios adotados por partidos e lideranças na formação de alianças, especialmente porque a Polícia Federal atribui a Canella papel político relevante na estrutura que investiga. Esse escrutínio sobre escolhas partidárias é distinto de responsabilidade criminal: apoio eleitoral, convivência política ou participação em uma mesma chapa não permitem transferir automaticamente a um aliado os ilícitos eventualmente praticados por outro. A responsabilização penal é individual e depende de prova, contraditório e decisão judicial.

O caso deverá continuar sob acompanhamento da Polícia Federal, Supremo Tribunal Federal, Ministério Público, Justiça Eleitoral, União Brasil e PL. No plano judicial, será necessário verificar quais acusações resistirão ao contraditório e à análise das provas. No plano político, a antiga aliança Canella-Flávio já passou a integrar o debate da eleição presidencial de 25/10/2026. O núcleo factual permanece definido: houve uma aproximação pública construída durante anos, convertida em projeto eleitoral comum em 2026 e posteriormente desfeita; até agora, porém, os elementos divulgados sobre a Operação Unha e Carne dizem respeito às condutas atribuídas aos investigados e não demonstram participação de Flávio Bolsonaro nos fatos criminais imputados a Canella.


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