Protestos estudantis na França: Premiê denuncia violência, enquanto coletes amarelos convocam atos contra o custo de vida

O primeiro-ministro da França, Sébastien Lecornu, afirmou que os protestos de estudantes do ensino médio estão se transformando em um “movimento de violência urbana”, em meio à continuidade de bloqueios escolares, episódios de depredação e confrontos em diferentes regiões do país. A declaração foi feita quinta-feira (15/10/2026), antes de novas manifestações previstas para o sábado (18), contra a alta do custo de vida, convocadas por organizações estudantis e movimentos sociais.

A mobilização, iniciada em 17 de setembro em uma escola nos arredores de Paris, espalhou-se pelo território francês e passou a incorporar reivindicações relacionadas à infraestrutura escolar, à falta de professores, à carga horária e ao sistema de acesso ao ensino superior. Paralelamente, o governo francês enfrenta a possibilidade de aproximação entre os estudantes e os coletes amarelos, movimento que protagonizou protestos contra o custo de vida em 2018 e 2019.

Lecornu declarou que teme novos episódios de violência durante as manifestações e criticou a atuação de grupos que, segundo ele, se infiltram nos atos. O primeiro-ministro citou movimentos da ultraesquerda e, em algumas situações, da ultradireita. Também mencionou disparos de morteiros em escolas e invasões de estabelecimentos de ensino.

Governo francês alerta para escalada da violência nos protestos

Segundo Sébastien Lecornu, a mobilização estudantil tem sido acompanhada por episódios que ultrapassam as reivindicações educacionais. O premiê classificou determinadas ações como manifestações de violência e afirmou que elas prejudicam os estudantes que pretendem expressar insatisfação com as condições de ensino e apresentar demandas ao governo.

O chefe de governo também relacionou a tensão social ao cenário econômico e político francês. Em sua avaliação, a população enfrenta um período de incertezas provocado por conflitos internacionais, preocupações com o poder de compra e inflação. Lecornu acusou setores políticos de tentar aproveitar esse descontentamento para obter benefícios eleitorais, em referência ao partido França Insubmissa, de esquerda radical.

O governo acusa a legenda de instrumentalizar a mobilização estudantil. A avaliação, contudo, faz parte do posicionamento oficial do Executivo francês sobre os protestos e não representa, por si só, uma comprovação de responsabilidade partidária pelos episódios violentos.

Escolas bloqueadas e danos materiais em diferentes regiões

Os protestos continuaram a afetar estabelecimentos de ensino em diversas cidades francesas. Em Lyon e na região metropolitana, 13 escolas e três universidades estavam bloqueadas na quinta-feira. Em Toulouse, as manifestações prosseguiam no colégio Berthelot.

Em Rennes, os bloqueios permaneciam no colégio Zola. Um incêndio em uma lixeira foi apagado no início da manhã na avenida Jean Janvier, diante da instituição. Em Tours, onde um estudante perdeu a visão de um olho no fim de setembro durante as manifestações, as escolas de ensino médio permaneceriam fechadas até o início do recesso escolar.

Em Nancy, uma escola foi fechada depois que ameaças de violência por escrito foram recebidas. O diretor do estabelecimento foi colocado sob proteção, segundo informações da administração regional de educação. Em outras localidades, os bloqueios e os incidentes de segurança mantiveram as autoridades em alerta.

Depredação em escola de Lormont causa prejuízo estimado em € 250 mil

Na manhã de quinta-feira, o ministro da Educação, Édouard Geffray, visitou o colégio Les Iris, em Lormont, próximo a Bordeaux, no sudoeste da França. A instituição havia sido depredada na quinta-feira anterior, e a visita ocorreu sob forte esquema de segurança.

Os prejuízos foram estimados pela região em pelo menos € 250 mil, equivalentes a aproximadamente R$ 1,4 milhão. Durante a visita, Geffray afirmou que o diálogo com os estudantes existe e já produziu resultados, mas classificou como criminosos os responsáveis pelos atos de depredação.

O ministro também agradeceu aos funcionários que, segundo ele, ajudaram a proteger estudantes e adultos durante os acontecimentos. A visita ocorreu em meio à tentativa do governo de distinguir as reivindicações estudantis das ações violentas registradas em determinados estabelecimentos.

Estudantes cobram medidas para infraestrutura, professores e Parcoursup

Geffray também discutiu com representantes das organizações estudantis as reivindicações relacionadas à infraestrutura das escolas, à carga horária e à plataforma Parcoursup, utilizada no processo de acesso ao ensino superior francês. A reunião ocorreu por videoconferência.

Pierre Sourzat, representante da organização Les Lycéens!, afirmou que os estudantes esperam medidas concretas e criticou o que considerou insuficiente nos resultados obtidos até então. Nathanaël Combary, da Renouveau lycéen e filiado ao partido Renaissance, ligado ao presidente Emmanuel Macron, avaliou positivamente alguns avanços após a reunião anterior.

Entre as medidas anunciadas pelo governo está o remanejamento de 3 mil professores efetivos substitutos, além da contratação de profissionais temporários. Segundo Geffray, quase dois terços dos 3 mil docentes já haviam sido designados até a quinta-feira.

Governo prevê reduzir escolas com dificuldades de pessoal

O ministro informou que o número de estabelecimentos com dificuldades específicas relacionadas à disponibilidade de professores havia caído de 114 para 47 em uma semana. A expectativa do governo era solucionar a maioria dos casos, com a possibilidade de eliminar as pendências restantes após o retorno das aulas, previsto para depois das férias escolares, entre 17 de outubro e 2 de novembro.

O Executivo também se comprometeu a trabalhar em medidas de acompanhamento dos estudantes durante o processo de orientação escolar e em mudanças na plataforma Parcoursup. O governo, entretanto, descartou o encerramento do sistema atual de acesso ao ensino superior.

Segundo Geffray, as medidas concretas relacionadas às reivindicações estudantis seriam anunciadas até o fim de outubro. O resultado das negociações será um dos fatores para avaliar a capacidade do governo de reduzir a mobilização após o recesso escolar.

Diretores de escolas anunciam operação de portas fechadas

O sindicato que representa diretores de escolas francesas convocou os profissionais a realizar uma operação de portas fechadas na quinta-feira. A iniciativa consiste em limitar o atendimento a situações urgentes, como forma de demonstrar o desgaste provocado pela crise nas instituições de ensino.

O movimento estudantil teve início em 17 de setembro e recebeu apoio de organizações de estudantes e sindicatos. Apesar da expansão nacional, Geffray afirmou na quarta-feira que um terço das 3.700 escolas de ensino médio francesas nunca havia sido afetado pelas mobilizações.

A dimensão dos bloqueios, portanto, varia entre as regiões. Enquanto alguns estabelecimentos permanecem fechados ou enfrentam interrupções nas atividades, outros continuam funcionando normalmente, de acordo com as informações divulgadas pelo governo.

Sindicato policial denuncia ordens contraditórias

A crise também provocou reações entre as forças de segurança. O sindicato policial Alliance anunciou, na noite de quarta-feira, que apresentaria uma queixa contra o Estado por supostamente colocar em risco a vida de terceiros.

A entidade critica as orientações recebidas pelos policiais durante os protestos, que considera contraditórias. Segundo o sindicato, os agentes estariam expostos à violência e sujeitos à condenação pública por sua atuação nos confrontos.

Os dados oficiais indicam que quase 900 policiais ficaram feridos desde o início dos protestos, além de mais de 200 estudantes do ensino médio e aproximadamente 150 funcionários da Educação. A corregedoria da polícia abriu 36 investigações, quatro relacionadas a ferimentos classificados como mutilantes e seis a lesões consideradas significativas.

Os números demonstram a extensão dos episódios de violência registrados durante a mobilização, embora não detalhem, por si só, as circunstâncias individuais de cada ocorrência ou a responsabilidade pelos ferimentos.

Coletes amarelos convocam manifestações contra o custo de vida

A mobilização estudantil pode ganhar uma dimensão social mais ampla com a participação dos coletes amarelos. O movimento, que ganhou força em 2018 e 2019 durante protestos contra o custo de vida e políticas do governo Macron, anunciou a organização de aproximadamente mil ações para um sábado, dia 17 de outubro, com o objetivo de voltar às ruas.

Convocações divulgadas nas redes sociais incentivaram a participação de jovens e de outros segmentos da sociedade. Um grupo denominado “amarelos e jovens” chamou coletes amarelos, integrantes da geração Z, agricultores, bombeiros, trabalhadores industriais, professores, profissionais da saúde, ativistas ambientais, moradores de bairros populares e aposentados a reunir suas reivindicações.

François Boulo, um dos representantes dos coletes amarelos envolvidos na convocação, afirmou que não houve articulação prévia com outras lideranças para organizar a manifestação. Segundo ele, a reação à violência policial contra estudantes motivou a decisão de convocar os atos. Entre os nomes associados à mobilização estão Jérôme Rodrigues, Priscillia Ludosky e Maxime Nicolle.

Inflação e perda do poder de compra ampliam a tensão social

A possibilidade de convergência entre estudantes e coletes amarelos preocupa as autoridades francesas, sobretudo diante da insatisfação com o custo de vida. A inflação atingiu 3,1% nos 12 meses encerrados em setembro, segundo os dados mencionados no relato, o maior nível desde janeiro de 2024.

A alta dos preços e a redução do poder aquisitivo estão entre os fatores que alimentam as reivindicações sociais. A mobilização anunciada para sábado prevê manifestações de rua, bloqueios parciais de vias e concentrações em rotatórias, pontes, postos de combustível, pedágios, estações ferroviárias, refinarias e depósitos de petróleo.

Um mapa de mobilização registrava, na manhã de quinta-feira, mais de mil ações previstas em diferentes pontos da França. A quantidade de iniciativas indica a amplitude geográfica das convocações, mas não permite determinar antecipadamente o número de participantes ou a dimensão efetiva dos bloqueios.

Governo aposta nas férias escolares para reduzir mobilização

O governo francês espera que o início das férias escolares contribua para diminuir a participação dos estudantes nos protestos. O recesso está previsto para ocorrer entre 17 de outubro e 2 de novembro, período durante o qual o Executivo pretende avançar nas medidas relacionadas às reivindicações educacionais.

As autoridades também acompanham a possibilidade de manifestações conjuntas entre jovens, sindicatos e movimentos sociais. A diversidade dos grupos envolvidos dificulta uma avaliação precisa sobre a coordenação dos atos e a duração da mobilização.

O cenário combina demandas por melhorias na educação, insatisfação econômica, questionamentos sobre a atuação policial e disputas políticas em torno dos protestos. A resposta do governo às reivindicações dos estudantes e a participação dos coletes amarelos nas manifestações previstas para outubro serão elementos centrais para avaliar os próximos desdobramentos da crise social francesa.

*Com informações da RFI.


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