A posse de Jaques Wagner nesta segunda-feira (01/01/2007) como governador da Bahia marca uma mudança política de grande alcance no Estado, ao levar ao comando do Executivo uma coalizão liderada pelo PT após um longo ciclo de domínio de forças associadas ao carlismo. Em discurso na Assembleia Legislativa da Bahia, Wagner afirma que seu governo será orientado pelo tripé educação, saúde e trabalho, defende desenvolvimento econômico com distribuição de renda, promete combater desigualdades sociais e regionais e associa sua vitória eleitoral à tradição histórica de resistência da Bahia. A cerimônia reúne autoridades civis, militares e religiosas, conta com a presença do ministro da Defesa, Waldir Pires, representante do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e é seguida pela transmissão de cargo feita pelo então governador Paulo Souto.
Posse consolida alternância de poder após longo ciclo político na Bahia
Jaques Wagner é empossado governador da Bahia pelo presidente da Assembleia Legislativa, deputado Clóvis Ferraz, em sessão solene realizada no plenário do Legislativo estadual. O ato ocorre sob forte carga simbólica, diante de aproximadamente 500 pessoas que lotam o plenário e acompanham, de pé, a proclamação da posse.
A cerimônia ganha contornos políticos expressivos quando o protocolo é quebrado e o nome de Wagner passa a ser entoado em coro pelos presentes. O governador agradece com o punho fechado erguido, gesto que sintetiza a dimensão partidária e simbólica da chegada da esquerda ao governo estadual.
A posse também representa o encerramento de um ciclo de poder associado às forças conservadoras que dominaram a política baiana por décadas. O próprio texto-base registra que o novo governo democrático de esquerda rompe um período de domínio conservador liderado pelas forças do carlismo.
Educação, saúde e trabalho formam o eixo central do discurso
No discurso de posse, Wagner afirma que o governo será sustentado por três áreas prioritárias: educação, saúde e trabalho. A formulação funciona como síntese programática da administração que se inicia e busca apresentar uma resposta aos problemas sociais acumulados no Estado.
O governador utiliza os indicadores sociais da Bahia para sustentar sua crítica ao modelo anterior. Ele questiona por que um Estado com uma das maiores economias do país e base produtiva diversificada convive com pobreza elevada e grande número de analfabetos.
A frase “Por anos a fio quem dominou a política na Bahia se preocupou muito em concentrar e pouco ou nada em repartir” resume o eixo crítico do pronunciamento. Com ela, Wagner associa o atraso social não à ausência de riqueza, mas à forma como essa riqueza teria sido distribuída historicamente.
Wagner promete crescimento com igualdade social
O governador afirma que trabalhará “cada minuto” para fazer o Estado produzir e crescer, mas condiciona esse crescimento à busca por igualdade. A mensagem articula duas dimensões centrais: dinamismo econômico e justiça social.
Essa formulação é importante porque procura afastar a falsa oposição entre crescimento e distribuição de renda. Ao defender que a Bahia cresça com inclusão, Wagner apresenta uma visão de governo em que a expansão econômica precisa alcançar a população mais pobre e as regiões historicamente menos favorecidas.
O discurso também indica uma tentativa de reorientar o papel do Estado. A prioridade anunciada para educação, saúde e trabalho sugere uma administração voltada à ampliação de serviços públicos, à qualificação da população e à criação de oportunidades econômicas.
Referência ao 2 de Julho reforça dimensão histórica da posse
Um dos momentos mais simbólicos do discurso ocorre quando Wagner compara a vitória eleitoral da esquerda baiana às lutas de resistência travadas na história do Estado. Ele menciona a Batalha de Pirajá, marco da consolidação da Independência do Brasil na Bahia, celebrada em 2 de Julho.
A frase “No coração de todos nós hoje também é 2 de Julho” busca transformar a posse em acontecimento histórico, não apenas administrativo. Ao dizer que “a Bahia é livre, a Bahia não tem dono, a Bahia é de todos nós”, Wagner utiliza a memória da Independência da Bahia para reforçar a ideia de ruptura política.
A escolha do 2 de Julho como referência não é casual. Trata-se de um símbolo de forte enraizamento na identidade baiana, associado à resistência popular, à soberania e à participação coletiva. Ao mobilizá-lo, Wagner procura apresentar a alternância de poder como recuperação de uma tradição política mais ampla.
Cerimônia reúne autoridades e reforça legitimidade institucional
A posse ocorre na presença das principais autoridades civis, militares e eclesiásticas da Bahia. O ministro da Defesa, Waldir Pires, participa como representante do presidente Lula, reforçando o vínculo entre o novo governo estadual e o governo federal.
Wagner chega ao Legislativo acompanhado da esposa, Fátima, e de Edmundo Pereira Santos, que toma posse como vice-governador. Também participam lideranças partidárias, parlamentares, autoridades e militantes da coligação que sustentou a candidatura vitoriosa.
A solenidade segue o rito institucional: execução do Hino Nacional pela Banda Maestro Wanderley, da Polícia Militar da Bahia; juramento constitucional; leitura da declaração de bens; proclamação da posse; discurso do governador; e execução do Hino da Bahia pelo flautista Rainer Krupper.
Discurso valoriza democracia, Parlamento e autonomia dos Poderes
Ao discursar, Wagner faz uma defesa da democracia e do papel do Parlamento. A mensagem é relevante porque ocorre em uma cerimônia legislativa, diante do presidente da Assembleia e de lideranças políticas de diferentes campos.
O presidente da Assembleia, Clóvis Ferraz, manifesta o desejo de que a relação entre os Poderes se mantenha com respeito mútuo e autonomia. A declaração indica preocupação com a preservação da institucionalidade em um momento de forte mudança política.
A alternância de poder, nesse contexto, é apresentada não como ruptura das instituições, mas como funcionamento regular da democracia. O rito de posse, a transmissão de cargo e a presença de adversários políticos reforçam a normalidade constitucional do processo.
Tom conciliador marca transmissão de cargo com Paulo Souto
Após a posse na Assembleia Legislativa, Wagner participa da transmissão de cargo na Governadoria ao lado do então governador Paulo Souto. Nesse momento, o discurso assume tom mais conciliador.
O novo governador afirma que “neste governo não haverá revanchismo, não haverá perseguição” e acrescenta que trabalhará pelo povo da Bahia. A declaração busca reduzir tensões políticas e sinalizar que a mudança de comando não será conduzida como revanche contra o grupo derrotado.
Wagner também elogia Paulo Souto pela “altivez” e pela tranquilidade com que conduz o processo de transição desde o resultado das urnas. O gesto tem valor institucional, pois preserva a liturgia republicana em um ambiente de forte disputa política.
Vitória é dedicada ao povo baiano, à família e aos movimentos sociais
Em seu pronunciamento, Wagner dedica a vitória ao povo da Bahia, que, segundo ele, o acolhe há 32 anos. Também faz referências à esposa Fátima, aos pais, aos partidos da coligação A Bahia de Todos Nós e aos movimentos sociais.
A menção aos movimentos sociais ajuda a compreender a base política que sustenta a chegada de Wagner ao governo. A coligação vitoriosa se apresenta como expressão de setores populares, sindicais, partidários e sociais que se organizam em torno de uma agenda de mudança.
O governador também dirige palavras de carinho aos ex-governadores Lomanto Júnior, João Durval e Waldir Pires, presentes no plenário. A referência a antigos governadores contribui para inserir a nova administração em uma linha de continuidade institucional, mesmo diante da promessa de mudança política.
Desenvolvimento regional e distribuição de renda entram na agenda
Wagner registra sua opção por um modelo de desenvolvimento com distribuição de renda e redução das desigualdades regionais. A ideia é apresentada como fundamento de uma administração diferente das anteriores.
O governador menciona o economista Rômulo Almeida, referência do pensamento desenvolvimentista baiano, ao defender uma estratégia de crescimento que articule planejamento, modernização econômica e inclusão social.
Esse ponto amplia o alcance do discurso. A posse não se limita a promessas setoriais em educação, saúde e trabalho; ela também sugere uma visão de reorganização econômica do Estado, com atenção às desigualdades territoriais e à necessidade de interiorização do desenvolvimento.
Ato popular amplia dimensão política da posse
Depois da cerimônia formal, Wagner passou em revista a tropa da Polícia Militar, desfila em carro aberto e participa de uma celebração no Centro Administrativo da Bahia. O evento inclui cerimônia inter-religiosa e shows de bandas baianas.
A festa popular tem função política clara. Ela aproxima a posse do público que acompanhou a campanha e reforça a narrativa de participação social na vitória eleitoral. Ao confraternizar com a militância, Wagner transforma o ato institucional em celebração pública de sua base política.
Na sequência, o governador viaja a Brasília para participar da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O gesto reforça a conexão entre o projeto político estadual e o ciclo nacional liderado pelo PT naquele momento.
Principais pontos da posse
Entre os elementos centrais da posse de Jaques Wagner, destacam-se:
- Ruptura política com o ciclo de hegemonia carlista na Bahia;
- Defesa do tripé educação, saúde e trabalho como base do governo;
- Crítica à concentração de riqueza e poder no Estado;
- Promessa de crescimento econômico com igualdade social;
- Valorização do 2 de Julho como símbolo de liberdade política;
- Compromisso público de que não haverá revanchismo nem perseguição;
- Defesa da democracia, do Parlamento e da autonomia entre os Poderes;
- Ênfase em desenvolvimento regional e distribuição de renda;
- Participação de autoridades, militantes e representantes do governo federal.








