
Parado diante de mim, enchendo-me de elogios – naturalmente decorrentes de sua gentileza nata-, estava aquela figura, singela, fina, charmosa e educada, demonstrando que tinha, em abundância, o que eu já estou perdendo há tempo: a memória. De estatura mediana, rosto moreno e enérgico, externava uma sincera alegria em me ver. Estávamos no aeroporto, prestes a embarcar. Eu, para o exterior; ele, para Brasília, a negócio.
Acompanhado de sua linda esposa, Mônica, lembrou-me algumas aventuras, do tempo de nossa juventude, quando ambos sonhávamos obter um mandato popular. Eu, de deputado federal; ele, de estadual. Ele conseguiu. Eu sequer cheguei perto.
Ao pronunciar o seu nome, puxando-o para o embarque (já anunciado pelo alto-falante), Mônica fez-me lembrar de quem se tratava. Aquela figura enérgica, exuberante, com sua animação ligada ao acelerado pulsar da vida nas grandes cidades, parecia não ter esquecido o tempero baiano na convivência, onde a tradição é mais importante do que o progresso e os costumes constituem 99% da lei.
Era Marcelo Sacramento, o Comodoro do Yacht Clube da Bahia. Minha alegria explodiu, com maior efusividade, diante de sua figura disciplinada, organizada e elegante. Era o deputado estadual da legislatura de 90/94, que havia sido eleito com grande votação. Era também o amigo que eu não via há anos. Aquela exuberante personalidade parecia exigir de mim as boas maneiras que, graças a Deus, jamais perdi. E foi justamente o que fiz. Dei-lhe o abraço de quem sempre o admirou, que aprendeu muito com ele, como a água que reflete o rosto de quem a olha.
Formado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, Marcelo, hoje, é empresário, atuando em diversas áreas: educação, comércio e comunicação. É vice-presidente executivo da Tribuna da Bahia, o primeiro jornal, no Brasil, a ser impresso no sistema offset, nos idos de 1969, quando ainda não havia sido formada sua equipe de redação. Nessa função aplica a experiência adquirida durante 25 anos de atuação na área política e sindical.
Marcelo sente orgulho de fazer parte de um time que sucedeu a gente famosa como Joaci Góes, Cid Teixeira, Sérgio Gomes, João Ubaldo Ribeiro, Grant Mariano, Raimundo Lima, João Santana, Bob Fernandes, Carlo Borges, Antônio Risério, Marcelo Cordeiro, Tasso franco e Carlos Libório, sem esquecer Joaquim Quintino de Carvalho, o primeiro jornalista a utilizar uma linguagem redacional moderna, aliada a um padrão gráfico inovador.
A Tribuna, como é carinhosamente chamada pelos seus leitores, nasceu sob a égide da independência em veicular notícias e analisar, com isenção, os fatos políticos mais importantes ocorridos no Brasil e no exterior, mesmo quando defrontada com os que queriam calar a sua voz, na luta pela redemocratização do país.
Marcelo trabalha lado a lado com Walter Pinheiro, diretor-presidente da TB e presidente da Associação Baiana de Imprensa (ABI), cuja característica pessoal, além da competência, é o seu inato cavalheirismo, educação, cultura e delicadeza no trato.
A isso se agregue ser escolhido, por unanimidade, Comodoro do Yacht Clube da Bahia, posto que se iguala, na linguagem militar, ao de general. Além disso, é esportista e praticante de Karatê, sendo faixa preta segundo DAN, que, nas artes marciais, significa um nível de graduação superior.
O Yacht Clube da Bahia, que foi criado para fazer barcos, é, hoje, um clube voltado para os sócios. Sempre foi e continuará sendo o centro mais glamoroso da Bahia, entre todas gerações. Seu mandato vai até 2017. Até lá, o Yacht permanecerá como o centro social que ensina as diferentes formas de conduta a serem observadas pelos membros de uma sociedade culta, interativa e civilizada.
Marcelo me saudou com a cortesia simples de homem harmonizado consigo próprio. Parecia dizer-me que a nossa alegria é jamais se tornar alheio à ordem natural do universo. E esta está ligada à amizade, ao amor e àquele sentimento calmo e maravilhoso, somente encontrado nas grandes almas.
Tive vontade de me penitenciar diante do garbo Marcelo, dizendo-lhe que o tempo certamente nos transforma, mas a amizade continua, mesmo quando os amigos passam anos sem se ver. As boas lembranças são sempre marcantes, e o que é marcante nunca se esquece. Uma grande amizade, apesar da passagem do tempo, deve ser cultivada; jamais esquecida.
E foi assim que Marcelo me fez recordar nossos dias vividos e jamais esquecidos. Tive vontade de dizer-lhe que os sonhos da nossa juventude ainda não morreram, e que poderíamos, talvez, fazer, de novo, nossa revolução. Quem sabe se, dessa vez, prestem atenção.
*Luiz Holanda é advogado e professor universitário.









