O que ficou do que passou | Por Luiz Holanda  

No livro “A nuvem- O que ficou do que passou”, Sebastião Nery narra as suas memórias. Baiano de Jaguaquara, tinha a intenção de ser padre, só não o sendo porque aprendeu a amar a literatura e as mulheres. Desde cedo frequentou o Seminário Menor de Amargosa, onde permaneceu por quatro anos. Em seguida estudou no Seminário Menor de Salvador e foi cursar filosofia no Seminário Central, sempre em escolas religiosas. Três de suas irmãs foram para o convento. A família nasceu para a santidade.

Hoje, aos 88 anos, continua seguindo a nuvem que lhe apareceu enquanto observava o céu, debaixo de uma jaqueira, em sua cidade natal. Com ela percorreu o mundo, vendo e vivendo para contar as histórias de sua vida, uma parte de nossa História. Como personagem e observador, tornou-se um cronista político por excelência. Foi deputado estadual pela Bahia e federal pelo Rio de Janeiro, no PDT de Brizola.

No governo Collor foi adido cultural do Brasil em Paris, a cidade que mais amou. Ficou famoso por uma série de livros sobre o folclore político brasileiro. Processado e preso, teve seus direitos políticos cassados e foi perseguido pela polícia política da ditadura e por “patrulheiros ideológicos”. Tudo o que escreveu, viveu. Ninguém lhe contou nada; simplesmente viu.

Com sua habilidade para observar e narrar, escreveu textos, biografias e fez revelações envolvendo grandes nomes da política brasileira. Sua paixão pelo jornalismo o fez participar da vida coletiva, não como um fim, mas como um meio de atingir o divino. Também o redimiu da perda da fé na religião e no Partido Comunista.

Passou a vida viajando ou dentro de jornais, como O Diário, Jornal da Bahia, A Tarde, Jornal da Semana, Tribuna da Imprensa, Politika, Última Hora, Folha de S. Paulo e outros. Traz em seu coração a poeira dos jornais.

É doutor em latim e literatura clássica. A militância comunista o impulsionou a fazer as primeiras viagens internacionais. “Devo minha vida profissional à Igreja, ao PCB e a Santos Dumont”, costuma brincar.  A “Nuvem” é o seu testamento cultural.

A riqueza de experiências adquiridas em meio século durante o qual atuou de várias maneiras e em distintos lugares, o credenciou como um testemunho da História. Nery é um cosmopolita. Em a “Nuvem” mergulha no passado, narrando não só as lições aprendidas ao longo do caminho como também as emoções dos amores inesquecíveis, vividos enquanto a seguia.

O livro é intenso e cativante. É a narrativa inesquecível de uma vida destacada e meritória, em que o total dos serviços prestados o credencia a merecer a reverência da História. Nery é único, especial, escritor e embaixador.  Sua vida política se confunde com a do jornalista, assim como a do seminarista com a do conquistador. É um desses homens cuja presença desperta profundas emoções. Ator inato, é um recipiente cheio de histórias. Como escritor jamais lhe faltou o bom-humor de quem via mais malícia do que loucura na comédia humana. Questionado sobre o que ficou do que passou seguindo sua nuvem, simplesmente respondeu: “O amor”.

*Luiz Holanda, advogado e professor universitário.


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