Portas e muralhas da cidadela de Salvador | Por Juarez Duarte Bomfim

É comum dizer-se que o Brasil nasce como empresa e nele o Estado surgiu antes que a sociedade – e a cidade chegou antes que o campo.

O certo é que quando Tomé de Souza, primeiro governador geral do Brasil, aqui desembarcou em 1549 para fundar a cidade de Salvador, capital do Governo Geral do Brasil, não trouxe de Portugal somente o objetivo de criar uma cidade, mas também seu plano e estatuto.

Ordenou o rei mandar nas “ditas terras fazer uma fortaleza e povoação grande e forte” em um lugar conveniente.

Portugal busca a solução tipo Acrópole para a sua capital colonial, seguindo a norma antiga de localização das cidades nas margens do mar e dos rios, em pontos elevados com um porto. Daí que rapidamente se elegeu o lugar mais adequado para o povoado grande e forte: o cume de uma colina, que caía em forte declive até a extremidade das margens de uma baía abrigada, sobre um dos lados que separam a baía de Todos os Santos e o Oceano Atlântico.

O ponto mais apropriado para este tipo de assentamento urbano foi o trecho do promontório compreendido entre as posteriormente denominadas gargantas da Barroquinha e do Taboão, por apresentar as condições favoráveis para o que se pretendia: situado no cimo de uma escarpa, com altura média da ordem de 64 metros sobre o mar, de fácil defesa para as táticas de guerra então vigentes, segundo os quatro pontos cardeais.

A oeste está a escarpa, a rocha, o paredão natural de altura considerável que, bem defendida, era praticamente inexpugnável. Ao nível da baía, uma estreita faixa de praia; a leste, o vale do rio das Tripas, que se achava numa cota mais baixa em relação à cumeada, e por isso mesmo numa posição dominante e defensável, caso ocorresse um ataque por estas bandas; ao norte e ao sul, as duas gargantas (Taboão e Barroquinha) acidentes topográficos clássicos e eficazes para a localização de obras defensivas. De fato, nesses pontos foram colocadas as portas da cidade que, juntamente com o sistema de baluartes ao longo da paliçada defensiva na parte alta e embaixo na praia, dariam condições de relativa segurança para os primeiros habitantes da capital da América portuguesa.

A colina serviu a Tomé de Souza para construir, em 12 meses, sua cidadela de casas de adobe, cobertas de palha, que ele cercou de muralhas também de adobe, e que tinha apenas duas portas: Santa Luzia e Santa Catarina. No exterior das muralhas foram construídos os conventos, aproveitando-se das vastas concessões que o governo lhes havia feito. Ao norte se localizou o convento das Carmelitas (1585); ao sul, dos Beneditinos (1584); ao leste, dos Franciscanos (1587). Por essa época, com seus muros espessos, eram verdadeiras fortificações que rodeavam a cidade, porque ao oeste está a escarpa e a baía.

Dessa maneira, Salvador é fundada como cidadela (cidade fortaleza) e Tomé de Souza é o primeiro “Governador das terras do Brasil e Capitão da fortaleza e terras”.

O constante alargamento da cidade ao norte e ao sul obrigava o Governo a redefinir de quando em quando os limites amuralhados da cidade, e isso vai perdurar até o final do século XVIII, quando da derrubada definitiva das Portas da cidade.

Do ponto de vista urbano, as principais transformações ocorridas em Salvador visaram desobstruir a Cidade Alta, devido a perda de importância do seu sistema defensivo.

A ampliação da cidade, tanto ao norte quanto ao sul, trasladam as suas portas e isso vai configurando o traçado urbano do Centro Histórico que chega até os nossos dias.

Entre 1549 a 1560, no lado sul, a Porta da Ajuda ou Santa Luzia era localizada (aproximadamente) em frente à Igreja da Ajuda ou no alto da Rua Chile; no lado norte, a 1ª Porta de Santa Catarina estava em frente ao Terreiro de Jesus.

Entre 1591 e 1635 (aproximadamente), a Porta de Santa Luzia (lado sul) estava localizada no meio da atual Praça Castro Alves; ao norte, a 2ª Porta de Santa Catarina se encontrava no atual Largo do Pelourinho.

Entre 1635 a 1796, a Porta de São Bento (lado sul) se localizava ainda no meio da atual Praça Castro Alves; a Porta do Carmo (lado norte), no atual Largo do Pelourinho.

Com a derrubada das Portas de São Bento em 1796, dá-se origem à atual Praça Castro Alves; ao norte, um pouco antes (1790) acontece a demolição das Portas do Carmo e a abertura do largo do Pelourinho.

Coelho Filho afirma que “de alguma forma, o Terreiro de Jesus, o Largo do Pelourinho e a Praça Castro Alves devem gratidão às portas da cidade. No passado, locais de passagem, transição entre dois mundos, do seguro para o inseguro, tornaram-se espaços abertos ao bem-estar da população”.

Pois para a defesa da cidade eram proibidas construções ao redor das muralhas e portas das fortalezas. Uma vez encerrada essa função, o espaço aberto poderia ser aproveitado para a criação de praças públicas.

O trabalho de arqueologia baiana quando da reforma do Largo do Pelourinho revelou à cidade um trecho de uma larga e monumental muralha que – acredita-se – ser resquícios das “muralhas de Santa Catarina”. No século XVII, essas muralhas tinham a função de proteger a cidade.

Esta preciosidade da memória física da cidadela de Salvador está aberta à visitação pública e gratuita no interior do Museu da Gastronomia Baiana, que é parte integrante do Complexo SENAC Pelourinho, ao lado do Restaurante Típico, ponto alto da gastronomia baiana, ao oferecer quarenta pratos e doze sobremesas das receitas tradicionais da Bahia.

O Museu da Gastronomia Baiana está situado no Largo do Pelourinho, nº 19.

Não deixem de conhecer as muralhas da antiga cidadela de Salvador. Visitem-na.


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