Subir na vida

A Bahia se carrega na cabeça, já afirmamos aqui, em artigo anterior. Até meados do século XIX, as pessoas eram transportadas e carregadas às costas de homens escravizados da cidade baixa à cidade alta.

O primeiro serviço público de bondes inicia-se em 1862, com “as gôndolas, carros altos com molas, puxados por quatro animais, em que o cocheiro fica sobre um deles”. Os avanços tecnológicos a partir daí são de introdução de bondes puxados por burros sobre trilhos de aço ou de madeira; movido a vapor; e a eletrificação dos transportes urbanos, em 1897. No ano de 1920 todas as linhas já estão eletrificadas.

As linhas de bonde que começam a ser inauguradas valorizam o solo e incentivam a especulação imobiliária. Bairros como Barra, Graça e Vitória urbanizam-se e recebem mais habitantes, e até o distante e despovoado bairro do Rio Vermelho muda a sua estrutura e comercializa seus terrenos, após a chegada dos bondes.

Em 1902 chega à cidade o primeiro automóvel, revolucionando mais uma vez os meios de transporte. Este primeiro exemplar de veículo automotivo ainda pode-se ver no Museu da Misericórdia, e pertenceu à rica família Lanat. Quem diria, com a inauguração do Complexo Ford em 2001 essa mesma Bahia passaria a produzir em torno de mil automóveis diariamente.

As mercadorias dessa cidade portuária e comercial eram içadas da cidade baixa à cidade alta por planos inclinados e elevadores. Contabilizam-se dois planos inclinados (Gonçalves e Pilar), um guindaste (Elevador do Taboão), e um elevador hidráulico que fazem o transporte de cargas e passageiros. A força motriz, que inicialmente era humana, é substituída por caldeiras a vapor.

No dia 8 de dezembro de 1873, dia de Nossa Senhora da Conceição e Padroeira de Salvador, foi inaugurado o primeiro Elevador Lacerda, com o nome de Elevador da Conceição, logo depois Elevador do Parafuso. Existia então só a primeira torre, que sai da rocha e perfura a Ladeira da Montanha.

O Elevador Lacerda, se tornará um dos principais cartões postais da cidade, e assim é descrito por um turista britânico, em 1884: “do mar pode-se perceber uma torre de aspecto imponente, construída da cidade baixa até a cidade alta, ao longo da encosta e terminando no alto por uma larga plataforma. É o elevador ou parafuso como é conhecido aqui. Não é nada mais que nossos elevadores hidráulicos domésticos em tamanho maior. Apanhamos nossos tickets e entramos em uma espécie de jaula de leão, onde sentamos perto de algumas destas maravilhosas negras majestosas que fazem a reputação da Bahia, e de alguns cavalheiros obscuros fumando enormes charutos”.

A segunda torre do Elevador Lacerda será inaugurada em 1930, com 72 metros de altura. Com a ampliação adquire sua fachada “art deco” atual. As duas cabines velhas foram substituídas por quatro, capazes de transportar 27 pessoas cada, inauguradas no dia 1º de janeiro de 1930.

Desde a sua inauguração, é dito que entrar no Elevador Lacerda é a maneira mais rápida e fácil do baiano “subir na vida”: paga-se 0,05 e em trinta segundos está lá em cima, na Cidade Alta…


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