As canções de ninar

Antônio Alberto de Oliveira Peixoto.
Antônio Alberto de Oliveira Peixoto.

O mundo é violento porque o tornamos assim. Cobramos muito a paz, mas fazemos pouco para obtê-la.

Tentando colocar minha neta para dormir, resolvi cantarolar algumas canções que as mães costumeiramente entoam, para que as crianças adormeçam com mais rapidez. Arrisquei iniciar com a conhecidíssima “Boi da cara preta” e logo desisti, por achá-la meio violenta. Comecei a cantar a não menos conhecida, “Atirei o pau no gato” e foi muito pior. O que este pobre gato deve ter feito, para ter tomado esta paulada? Questionei. Tentei “Vem cá bidu”, desistindo em seguida, o inocente cachorrinho também tinha sido vítima de uma “sova”, pois na canção o mesmo responde: “Não vou lá, na vou lá, tenho medo de apanhar. Coitado do bidu!”.

Se mudássemos para o reino das flores? O cravo brigou com a rosa que ficou toda despedaçada e ele ferido. Então pensei: vou contar a história de chapeuzinho vermelho! Mas a fábula de chapeuzinho vermelho não é aquela em que o lobo mau come a vovozinha, fica na espreita para também “comer” Chapeuzinho, mas por golpe de sorte, chega um caçador que mata o lobo, abre sua barriga e tira a vovozinha? Que tragédia!

Uma tremenda chacina, digna de ser noticiada no Jornal Nacional com direito ao programa, não menos sanguinário, “Linha Direta”. Não. Vou contar a de “Branca de Neve e os sete anões” com sua rainha perversa, que se transformou em bruxa e queria, “por ciúmes da beleza de sua enteada”, matá-la. A princípio ordenou que um serviçal arrancasse o coração de Branca de Neve, ele não conseguiu. Em seguida, a própria rainha com uma maçã envenenada.  Mas… esta?!  Também não. É uma trama diabólica de um personagem muito mau.

Fiquei a pensar, o que contar para fazer minha netinha dormir. A gata borralheira… Muito triste. João e Maria… Também é de péssima qualidade. Embasbacado, cheguei a triste conclusão de que não podemos almejar um mundo melhor, se embalamos nossas crianças ao som de canções que cantam a violência, histórias tão irracionais que falam de tragédias, chacinas, crimes terríveis e um terrorismo sórdido contra os animais. Como pensar em paz, em uma sociedade tranqüila, em um mundo melhor se ao ligarmos a TV e sintonizando nos programas infantis, corremos o risco de presenciar atos de violência do tipo em que o herói decapita o inimigo com sua espada a laser ou ver He-man e sua ridícula irmã She-ra, trucidar seus adversários?

Por que não falamos para nossas crianças do canto dos pássaros, do perfume das rosas, da beleza e da combinação das cores do arco-íris, das aves do céu?  Existem tantas coisas lindas que poderíamos cantar e contar para nossos filhos, nossos netos… para as crianças!


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