Mino Carta critica partidarismo da mídia em palestra na UFBA e reforça necessidade de honestidade no jornalismo

O jornalista Mino Carta, diretor de redação da revista Carta Capital, proferiu em Salvador, nesta segunda-feira (19/04/2010), a palestra “O partido político da mídia”, promovida pelo Grupo de Estudos de Comunicação e Política da Universidade Federal da Bahia (UFBA), sob coordenação do jornalista e professor Dr. Emiliano José. O evento ocorreu no auditório da Faculdade de Direito da UFBA, com transmissão ao vivo pela internet através do site da Companhia de Processamento de Dados do Estado da Bahia (Prodeb).

Entre os convidados, participaram personalidades políticas, acadêmicas e jornalistas. O editor do Jornal Grande Bahia, Carlos Augusto, esteve presente a convite de Emiliano José, integrando o público que acompanhou atentamente as reflexões de Mino Carta sobre a relação entre imprensa e poder político no Brasil.

Mesa de abertura reúne autoridades acadêmicas e políticas

A solenidade de abertura foi conduzida por Emiliano José, que compôs a mesa com Mino Carta, o reitor da UFBA, Naomar Almeida, o reitor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Paulo Gabriel, o ex-governador da Bahia e ex-ministro da Controladoria-Geral da União, Waldir Pires, além dos professores da UFBA João Carlos Salles, Gilberto Wildberger Almeida e Sebastian Borges de Albuquerque Melo, que representou o diretor da Faculdade de Direito, Celso Luiz Braga de Castro.

Emiliano ressaltou que a proposta do seminário nasceu de discussões sobre a relação entre política e mídia no Brasil contemporâneo, tema recorrente em seus livros, artigos e teses. O professor lembrou ainda sua crítica ao que denomina de PIG – Partido da Imprensa Golpista, conceito que atribui à imprensa o papel de ator político.

Críticas de Mino Carta à imprensa brasileira

Ao iniciar sua palestra, Mino Carta resgatou a ligação histórica da imprensa com o poder político, afirmando que os mesmos veículos que apoiaram o golpe militar de 1964 continuam a atuar de forma partidária. “A mídia brasileira é a mesma que implorou pelo golpe de 64. Chamava o golpe de revolução. E continua hoje atuando como instrumento do poder”, afirmou.

O jornalista destacou que, nas eleições presidenciais de 2010, veículos como a Rede Globo, a Folha de S. Paulo e a revista Veja estariam claramente alinhados à candidatura de José Serra (PSDB), produzindo uma cobertura favorável e emocional. “Fazem disso algo emocionante, até para mim”, ironizou.

Carta Capital e a questão da imparcialidade

Mino Carta também tratou da postura editorial de Carta Capital, que dirige desde 1994. Ele reconheceu o apoio da revista ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002 e 2006, mas destacou a manutenção de críticas firmes à gestão. “Somos acusados de ser petistas, mas ninguém diz que o resto da mídia é totalmente partidária. Nós sempre deixamos clara a nossa posição”, observou.

Ele afirmou que a revista poderia apoiar a candidatura de Dilma Rousseff, mas no momento oportuno, reforçando que a transparência editorial é mais honesta do que a pretensa neutralidade cultivada por outros veículos.

Subjetividade e honestidade no jornalismo

Em um dos pontos centrais da palestra, Mino rejeitou a noção de objetividade jornalística, que classificou como “uma grande balela”. Para ele, o dever do jornalista é ser honesto com os fatos, dar espaço a diferentes vozes e manter o espírito crítico. “Não deve mentir nem omitir informações, mas precisa exercer o senso crítico e assumir sua subjetividade”, explicou.

O jornalista lamentou a baixa qualidade da imprensa nacional, acusando-a de omitir, manipular e fantasiar informações. Segundo ele, os jornais brasileiros “dão pena se comparados a veículos de democracias mais consolidadas”, além de apresentarem deficiência gráfica e editorial. “Hoje é muito raro encontrar um texto jornalístico de qualidade”, criticou.

Primeira edição de um ciclo de debates

O seminário inaugurou a série “A Política e a Vida na Esquina do Mundo”, organizada pelo Grupo de Estudos de Comunicação e Política da UFBA. Novos encontros já estavam programados, com a participação do cientista político Giuseppe Cocco (UFRJ), do professor Juarez Guimarães (UFMG) e da filósofa Marilena Chaui (USP).

A proposta da série é estimular reflexões críticas sobre política, democracia e comunicação, ampliando o diálogo acadêmico com a sociedade civil e a imprensa.

Presença do Jornal Grande Bahia

O jornalista Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia, participou como convidado especial do evento, reforçando a importância do encontro para o jornalismo baiano. Sua presença foi destacada pelo professor Emiliano José como parte da estratégia de aproximação entre o meio acadêmico e a imprensa independente.

O registro da participação de Carlos Augusto ilustra o esforço em democratizar o debate sobre mídia e política, envolvendo profissionais de comunicação que atuam em diferentes frentes regionais e nacionais.

Trajetória de Mino Carta

Mino Carta iniciou a carreira cobrindo a Copa do Mundo de 1950 como correspondente do jornal italiano Il Messaggero. Atuou em veículos nacionais e internacionais até fundar e dirigir algumas das principais publicações brasileiras: Quatro Rodas, Jornal da Tarde, Veja, IstoÉ, Senhor e Carta Capital. Sua trajetória é marcada pela criação de projetos editoriais de grande relevância e pela crítica constante à concentração midiática.

Contradições de um sistema midiático

A palestra de Mino Carta em Salvador, mediada por Emiliano José e acompanhada por acadêmicos, políticos e jornalistas como Carlos Augusto, confirma a persistente tensão entre imprensa e política no Brasil. Ao rejeitar a objetividade jornalística como mito e defender a honestidade factual, Mino expôs as contradições de um sistema midiático que se apresenta como imparcial, mas opera como ator político. O evento também destacou a relevância da UFBA como espaço de reflexão crítica, conectando academia, imprensa e sociedade civil. O debate permanece atual em um país onde eleições e democracia continuam fortemente influenciadas pelas narrativas midiáticas.

Carlos Augusto, Mino Carta, e Emiliano José, durante palestra.
Carlos Augusto, Mino Carta, e Emiliano José, durante palestra.
Valdir Pires, Carlos Augusto, Moacir Neves, Mino Carta e Emiliano José. Encontro pautado pelo pensamento de esquerda.
Valdir Pires, Carlos Augusto, Moacir Neves, Mino Carta e Emiliano José. Encontro pautado pelo pensamento de esquerda.

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