Pesquisadores Osmundo Pinho e Rosana Heringer organizam publicação que resgata estudos sobre o papel do negro na modernização do Brasil

Osmundo Pinho: É interessante, porque você falou de cultura negra, nós questionamos como entendemos cultura negra, como podemos entendê-la fora de quadros sociais definidos politicamente, economicamente, historicamente. | Foto: Carlos Augusto | Guto Jads | Jornal Grande Bahia. Com. Br
Osmundo Pinho: É interessante, porque você falou de cultura negra, nós questionamos como entendemos cultura negra, como podemos entendê-la fora de quadros sociais definidos politicamente, economicamente, historicamente. | Foto: Carlos Augusto | Guto Jads | Jornal Grande Bahia. Com. Br
Osmundo Pinho: É interessante, porque você falou de cultura negra, nós questionamos como entendemos cultura negra, como podemos entendê-la fora de quadros sociais definidos politicamente, economicamente, historicamente.  |  Foto: Carlos Augusto | Guto Jads | Jornal Grande Bahia. Com. Br
Osmundo Pinho: É interessante, porque você falou de cultura negra, nós questionamos como entendemos cultura negra, como podemos entendê-la fora de quadros sociais definidos politicamente, economicamente, historicamente. | Foto: Carlos Augusto | Guto Jads | Jornal Grande Bahia. Com. Br

Osmundo Pinho, coordenador do mestrado em Ciências Sociais da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em entrevista ao jornalista Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia, comenta sobre a importância cientifica da obra ‘Afro Rio Século XXI – Modernidade e relações raciais no Rio de Janeiro.’. Composta por artigos científicos de cinco pesquisadores sociais, organizada por Pinho e Rosana Heringer, o trabalho acadêmico resgata estudos realizados pela UNESCO em 1950.

Segundo Osmundo Pinho, a importância da obra transcende a realidade social do Rio de Janeiro, perfazendo um recorte do papel do negro na modernização do país. Pinho avalia que os artigos científicos servem como fundamentação para estudos realizados em outras partes do país, a exemplo da Bahia.

Durante a entrevista, Osmundo faz uma observação desconcertante:

“O chamamento que nós fazemos, é com objetivo de entender o negro na sua integralidade e não apenas como um agente cultural. Eu acho que não tem lugar no Brasil, que essa mensagem seja mais relevante do que na Bahia. Porque temos vivido na Bahia quantos anos de celebração da cultura negra e o que isso significou em termos de melhoria nas condições de vida dos negros, os músicos, as mães de santo, os capoeiristas?”

Confira a entrevista.

Jornal Grande Bahia – O senhor está lançando, em conjunto com a professora Rosana Heringer, o livro ‘Afro Rio Século XXI’. Qual a importância dessa obra?

Osmundo Pinho – Nos anos 50 a UNESCO, Agência da ONU para educação e cultura, promoveu no Brasil uma grande pesquisa que mudou o panorama sobre relações sociais no país. Participaram desse projeto, nos anos 50, Luiza Guerra Costa Pinto, Florestan Fernandes, e Tales de Azevedo na Bahia, além de muitos outros. 50 anos depois, nós nos propusemos, no Centro de Estudos Afro-brasileiros da Universidade Cândido Mendes no Rio de Janeiro a revisitar esses temas. Interrogando principalmente, como o negro brasileiro participou da modernização, como a modernização alterou a vida do negro brasileiro, especificamente no nosso caso, o Rio de Janeiro.

JGB – Qual a importância desse estudo para os negros da Bahia?

Osmundo Pinho – Os processos de modernização, vale dizer então, urbanização, escolarização, individualização, que tiveram maior prevalência nos grandes centros se repetem em espaços periféricos, digamos assim, então perceber como o negro pode ser um agente da modernização interessa a todos no Brasil.

É interessante, porque você falou de cultura negra, nós questionamos como entendemos cultura negra, como podemos entendê-la fora de quadros sociais definidos politicamente, economicamente, historicamente. Abordar a questão racial meramente do nível da cultura é reduzir o negro ao seu aspecto cultura, mas o negro também é um trabalhador, um pai de família, um operário, um sindicalista, um professor, um jornalista, assim por diante.

JGB – Em linhas gerais o senhor poderia dizer quais foram as principais contribuições desta obra?

Osmundo Pinho – O livro reúne artigos de diversos pesquisadores, eu destacaria o trabalho que fizemos em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, justamente discutindo como a juventude local produzia a identidade de gênero em uma situação de pobreza. Vimos que não há diferença do ponto de vista da subjetividade dos jovens da periferia daqueles dos centros urbanos, a principal diferença radica nas condições materiais de existência.

Do mesmo modo o trabalho de Maria Consolação Lucinda revelou um cenário de diversas organizações negras atuantes no Rio de Janeiro. Mostrando uma grande diversidade de agendas, o que quer dizer, a atuação política negra é multifacetada, não se limita a esse ou aquele aspecto.

Ainda exaltaria o trabalho da professora Rosana Heringer sobre a ação afirmativa no Brasil. Rosana foi capaz de realizar um grande diagnóstico nacional sobre os sucessos, os avanços, as dificuldades, os pontos cegos dessas políticas no Brasil como um todo, com foco específico no Rio de janeiro.

JGB – Com sua experiência, como pesquisador que links o senhor faria com relação a essa obra, esses artigos produzidos e a realidade social da Bahia?

Osmundo Pinho – O chamamento que nós fazemos, é com objetivo de entender o negro na sua integralidade e não apenas como um agente cultural. Eu acho que não tem lugar no Brasil, que essa mensagem seja mais relevante do que na Bahia. Porque temos vivido na Bahia quantos anos de celebração da cultura negra e o que isso significou em termos de melhoria nas condições de vida dos negros, os músicos, as mães de santo, os capoeiristas? Estão hoje em outro lugar? E quantos médicos e dentistas negros temos hoje na Bahia? Depois de 30 anos de celebração da baianidade, da cultura negra, estas questões não foram respondidas.

Parece, às vezes, que vivemos aqui na Bahia em torno de um fantasma, de uma assombração, de uma memória atávica, de uma cultura negra e morredora. A cultura é maravilhosa, mas o salário, o acesso à universidade, o acesso ao emprego, o acesso a moradia também é importante.

JGB – Então essa pesquisa também busca despertar, nos próprios negros e nas pessoas que tem um entendimento da importância do ser, a construção social?

Osmundo Pinho – Sem dúvida nenhuma. Oferece um diagnóstico sociológico, que nos apresenta elementos, dados para considerar. Como eu disse, a presença negra em sua maior extensão, e enfatizo, em conexão com a organização, porque veja, há essa ênfase com a negritude, como o passado, a memória, a escravidão, mas o negro é moderno, a cultura negra brasileira é moderna, participa da modernização, os negros tiveram norma sindical, momentos políticos na redemocratização em diversas áreas.

Podemos lembrar, por exemplo, o papel da luta negra na educação de professoras negras como Laudelina dos Santos. Buscamos cientificamente um reposicionamento da problemática racial conectada com o mundo trabalho, e com a modernização. É uma perspectiva que se opõe aquela que enxerga na presença negra, a marca do passado, ou do folclórico, do histórico ou do rústico, nesse sentido.


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