Jurivaldo Alves da Silva defende criação de museu do cordel em Feira de Santana e cobra apoio público para preservar acervo histórico

Em entrevista exclusiva ao Jornal Grande Bahia, concedida na quarta-feira, 12/06/2013, o cordelista e folheteiro Jurivaldo Alves da Silva, natural de Baixa Grande e radicado em Feira de Santana, defendeu a criação de um museu dedicado à literatura de cordel e afirmou possuir acervo suficiente para estruturar um espaço permanente de preservação, pesquisa e difusão dessa expressão cultural nordestina.

Reconhecido como um dos defensores mais persistentes do cordel na Bahia, Jurivaldo construiu sua trajetória nas feiras livres, no contato direto com leitores, ouvintes, poetas populares e vendedores de folhetos. Sua atuação reúne produção autoral, pesquisa, venda, preservação de exemplares antigos e divulgação pedagógica de uma tradição literária marcada pela oralidade, pela rima, pela crítica social e pela memória popular.

Durante a entrevista, Jurivaldo afirmou que mantém um acervo de aproximadamente quatro mil cordéis, reunindo obras de diferentes autores, títulos variados, registros históricos, informações sobre a origem do gênero, biografias de mestres populares e material de consulta sobre a evolução da literatura de cordel no Nordeste. O conjunto, segundo ele, já permitiria a implantação de um museu com centro de pesquisa, desde que houvesse apoio de governos, instituições culturais ou municípios interessados.

Cordel como memória popular e instrumento de comunicação

A literatura de cordel ocupa lugar central na formação cultural do Nordeste brasileiro. Durante décadas, os folhetos circularam em feiras, mercados, praças e povoados, funcionando como meio de entretenimento, registro histórico, crítica política, comentário social e difusão de notícias. Em regiões com baixa escolarização formal, os cordéis também cumpriram papel educativo, pois eram lidos em voz alta, memorizados e declamados em ambientes coletivos.

Jurivaldo Alves associa sua atividade a esse legado. Para ele, o cordel não é apenas um produto literário, mas uma forma de comunicação popular que ajudou a aproximar a população da leitura. O entrevistado lamenta, porém, que a tradição venha perdendo espaço entre as novas gerações, pressionada pela mudança dos hábitos culturais, pela redução dos pontos de venda e pela menor presença da oralidade nos espaços públicos.

O cordelista afirma que sua principal preocupação é despertar o interesse da juventude. Na avaliação dele, a sobrevivência da literatura de cordel depende da formação de novos leitores, autores, pesquisadores e divulgadores. Por isso, defende atividades em escolas, feiras literárias, centros culturais e equipamentos públicos.

Quem é Jurivaldo Alves da Silva

Jurivaldo Alves da Silva nasceu em Baixa Grande, no interior da Bahia, e fixou residência em Feira de Santana, onde se tornou referência na defesa da literatura de cordel. Sua trajetória começou no contato direto com os folhetos vendidos em feiras livres, espaço tradicional de circulação da cultura popular nordestina.

Antes de ser reconhecido como cordelista, Jurivaldo construiu reputação como folheteiro, denominação tradicional atribuída aos vendedores e divulgadores de cordéis. A figura do folheteiro tem importância histórica porque funcionava como intermediário entre autores, leitores e ouvintes, levando histórias rimadas a públicos que muitas vezes tinham acesso limitado ao livro convencional e à imprensa formal.

Ao longo da carreira, Jurivaldo passou a escrever, pesquisar, colecionar e divulgar obras do gênero. Sua atuação inclui produção autoral, preservação de folhetos raros, participação em eventos culturais e defesa da presença do cordel em espaços educativos. Em Feira de Santana, sua trajetória se confunde com a memória das feiras, do Mercado de Arte Popular e dos movimentos culturais que preservam a identidade sertaneja da cidade.

Entrevista

Jornal Grande Bahia — Como é o trabalho de produção e venda de cordéis?

Jurivaldo Alves da Silva — O cordel é um trabalho que faço com muito prazer. Estou resgatando uma cultura que foi um dos maiores veículos de combate ao analfabetismo no Brasil e também um dos grandes meios de comunicação popular. Infelizmente, essa tradição está se acabando. Luto há mais de 40 anos para manter viva essa cultura. Faço isso com amor e por entender a importância de levar esse conhecimento à juventude, para que surjam novos cordelistas e essa tradição não morra.

JGB — Além da venda de cordéis, o senhor também escreve?

Jurivaldo Alves da Silva — Escrevo, pesquiso, coleciono e divulgo tudo o que pertence ao cordel. Faço um pouco de cada coisa. Quando se junta tudo, resulta em um bom trabalho de divulgação.

JGB — O senhor possui um acervo significativo de cordéis. O que pretende fazer com esse material?

Jurivaldo Alves da Silva — Estou organizando um museu. Vamos dizer assim: de forma itinerante. Não vi essa ideia em outro lugar, então considero uma proposta minha, a de criar um museu do cordel. Atualmente possuo cerca de quatro mil cordéis, de diferentes autores e títulos. Também tenho um grande acervo sobre a história e a origem do cordel, como surgiu, suas modalidades e biografias das maiores autoridades do gênero. É praticamente um centro de pesquisa.

Tenho esse sonho de montar um museu com centro de pesquisa sobre o cordel. O material está pronto para atender qualquer convite, em qualquer cidade.

Apelo de um guardião da literatura de cordel

A fala de Jurivaldo Alves da Silva revela uma questão que ultrapassa a trajetória individual do artista. O acervo reunido ao longo de décadas representa parte da memória cultural de Feira de Santana e da literatura de cordel, manifestação popular profundamente associada à oralidade, à circulação de saberes e à identidade nordestina.

Quando preservados apenas pelo esforço pessoal de seus guardiões, acervos populares tornam-se vulneráveis à perda física, à dispersão familiar, à deterioração do papel e à ausência de catalogação técnica. No caso do cordel, esse risco é ainda mais grave, pois muitos folhetos foram impressos em papel simples, com tiragens reduzidas e circulação informal.

A criação de um museu ou centro de referência do cordel permitiria preservar obras, organizar banco de dados, receber pesquisadores, promover oficinas, desenvolver atividades escolares e ampliar o acesso público a esse patrimônio. Em Feira de Santana, a proposta ganha relevância especial, pois a cidade tem sua formação histórica vinculada às feiras livres, ao comércio regional, ao trânsito de pessoas e à difusão de narrativas populares.

O pedido de Jurivaldo, portanto, não deve ser compreendido como demanda pessoal, mas como proposta de política cultural. A preservação da literatura de cordel exige ação coordenada entre município, Estado, universidades, escolas, arquivos públicos, museus, bibliotecas, instituições de patrimônio e sociedade civil.

A entrevista exclusiva com Jurivaldo Alves da Silva antecipa uma preocupação hoje incontornável: a cultura popular não sobrevive apenas pela admiração simbólica. Ela depende de estrutura institucional, política de memória, recursos mínimos, preservação técnica e transmissão geracional.

O caso expõe uma contradição recorrente no Brasil. Mestres populares costumam ser homenageados após décadas de contribuição cultural, mas raramente recebem, em tempo adequado, apoio estável para organizar, digitalizar e democratizar seus acervos. O resultado é uma perda silenciosa de documentos, obras e experiências que pertencem não apenas ao artista, mas à sociedade.

Em uma cidade marcada pela feira, pelo comércio regional e pela oralidade sertaneja, a criação de um equipamento dedicado ao cordel teria valor cultural, educacional, turístico e simbólico. Seria também uma forma de reconhecer que a memória popular não é expressão menor do folclore, mas patrimônio intelectual produzido por gerações que narraram o Brasil profundo antes da consolidação dos grandes meios de comunicação.

A efetivação da proposta dependeria de medidas concretas de catalogação, conservação, exposição, digitalização e formação de novos leitores. Sem esse esforço, parte significativa da memória do cordel continuará sustentada pela resistência individual de mestres populares como Jurivaldo Alves da Silva, quando deveria integrar uma política pública permanente de preservação cultural.

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