Terreiro Ilê Axé Oxumarê e Teatro Castro Alves são tombados pelo Iphan em Salvador

O Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural aprovou na quarta-feira (27/11/2013), em Brasília, o tombamento do Terreiro Ilê Axé Oxumarê e do Teatro Castro Alves, ambos localizados em Salvador, consolidando a proteção federal de dois bens fundamentais para a história cultural da Bahia e do Brasil. A decisão, acompanhada pela ministra da Cultura, Marta Suplicy, e por representantes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional — Iphan, reconheceu a relevância religiosa, social, histórica, arquitetônica e simbólica dos dois espaços, com impacto direto na preservação da memória afro-brasileira, das artes cênicas e da arquitetura moderna brasileira.

Tombamento reconhece valor histórico do Ilê Axé Oxumarê

O tombamento do Terreiro Ilê Axé Oxumarê foi apresentado como uma conquista para as comunidades de matriz africana e para a preservação da cultura afro-brasileira. Durante a reunião do Conselho Consultivo, Marta Suplicy afirmou que o terreiro exerce papel que ultrapassa a dimensão religiosa, por representar a luta, a resistência do povo negro e a disseminação da cultura africana no Brasil.

A ministra também recordou que o primeiro terreiro protegido pelo Conselho havia sido tombado havia 29 anos, ressaltando a atuação dos conselheiros e da equipe do Iphan na preservação da história e da cultura nacional. Na ocasião, ela anunciou a construção, em Brasília, de um Museu de Acervo Afro, com o objetivo de dar visibilidade a histórias pouco conhecidas do povo negro e contribuir para o resgate da autoestima da população afrodescendente.

Com a decisão, o Ilê Axé Oxumarê passou a integrar o conjunto de terreiros de candomblé protegidos pelo Iphan, reforçando a ampliação do conceito de patrimônio cultural brasileiro. A medida evidencia que a formação da identidade nacional não se limita a edifícios oficiais, monumentos cívicos ou referências coloniais, mas inclui práticas religiosas, territórios sagrados, saberes tradicionais e espaços de resistência social.

Iphan amplia proteção a terreiros de candomblé no Brasil

À época da aprovação, o Iphan passou a contabilizar sete terreiros de candomblé protegidos em âmbito federal. Antes do Ilê Axé Oxumarê, já haviam sido reconhecidos a Casa Branca, o Ilê Axé Opô Afonjá, o Gantois, o Alaketu e o Bate-folha, todos em Salvador, além da Casa das Minas Jejê, em São Luís, no Maranhão.

A então presidenta do Iphan, Jurema Machado, celebrou a aprovação e afirmou que a história e a resistência representadas pelo terreiro haviam sido reconhecidas como bem cultural brasileiro protegido. A manifestação sintetizou a mudança institucional em curso, marcada por maior atenção às referências culturais negras e à preservação de espaços historicamente marginalizados na política patrimonial do país.

A solicitação de tombamento do Ylê Axé Oxumarê foi apresentada em 18/09/2002 pelo sacerdote Babalorixá Agoensi Danjemin, supremo dirigente do terreiro. O pedido reconhecia a importância do espaço como um dos mais antigos centros de culto afro-brasileiro da Bahia e como referência de grande reconhecimento social.

Comunidade religiosa destaca legado africano

O Babá Pecê do terreiro, Silvanilton Encarnação da Mata, afirmou que a proteção representa o reconhecimento da contribuição do povo africano, que trouxe ao Brasil conhecimento, cultura e legado espiritual. A fala reforça o sentido histórico do tombamento, ao vincular o território sagrado à permanência de tradições transmitidas entre gerações.

O presidente da Fundação Cultural Palmares, Alexandre Reis, avaliou que o tombamento reafirmava um momento histórico de consolidação das políticas de ações afirmativas no país. Para ele, o reconhecimento do terreiro estava relacionado à atuação do poder público e da sociedade na superação das desigualdades raciais.

A senadora Lídice da Mata também acompanhou o ato e destacou os avanços nas políticas culturais voltadas à igualdade racial. Na mesma ocasião, celebrou o tombamento do Teatro Castro Alves, outro patrimônio baiano reconhecido na 74ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural.

Salvador reúne expressivo patrimônio afro-brasileiro

Salvador possui mais de mil sedes de cultos afro-brasileiros, segundo informação apresentada no contexto do tombamento. O dado evidencia a centralidade da capital baiana na preservação das tradições religiosas de matriz africana e na formação cultural do país.

O superintendente do Iphan na Bahia, Carlos Amorim, observou que nem todos os templos precisam ser tombados pelo órgão federal para que tenham seu valor cultural reconhecido. A avaliação aponta para a necessidade de políticas públicas mais amplas, capazes de preservar referências culturais sem restringir o reconhecimento apenas à inscrição formal nos livros de tombo.

Amorim também destacou que a preservação de templos e locais sagrados da cultura afro-brasileira ainda era recente e, por muitos anos, esteve limitada ao tombamento oficial. Para ele, as novas políticas públicas de preservação indicavam amadurecimento das instituições federais e maior envolvimento das comunidades religiosas na gestão dos bens culturais.

Oxumarê simboliza continuidade, movimento e permanência

O terreiro é consagrado a Oxumarê, orixá associado ao movimento, aos ciclos vitais e às transformações. Na tradição iorubá, os orixás correspondem a ancestrais divinizados e a forças da natureza, com arquétipos relacionados às manifestações dessas forças no mundo.

Oxumarê é apresentado como símbolo da riqueza, da continuidade e da permanência. A divindade é representada pela serpente-arco-íris, imagem que expressa a união entre céu e terra, o equilíbrio entre os orixás e os seres humanos e a continuidade dos ciclos da vida.

Na tradição religiosa, Oxumarê está relacionado à criação do mundo, ao movimento dos astros e dos oceanos e à sustentação do universo. Seus símbolos incluem a serpente, o círculo, o bradjá e o ebiri; suas cores são associadas ao amarelo, ao verde ou ao preto, além das cores do arco-íris.

Teatro Castro Alves também recebe proteção federal

Na mesma reunião, o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural aprovou o tombamento do Teatro Castro Alves, em Salvador. O equipamento cultural, localizado no Campo Grande, passou a contar com proteção do Iphan em razão de seu valor histórico, arquitetônico e artístico.

O TCA é considerado um marco da arquitetura moderna brasileira e um dos principais palcos de acontecimentos culturais que marcaram a história recente do país. Sua localização na principal praça da capital baiana também remete às lutas da Independência da Bahia, reforçando sua dimensão simbólica no espaço urbano de Salvador.

O teatro homenageia Castro Alves, conhecido como o “Poeta dos Escravos”, e consolidou-se como referência para as artes cênicas, musicais e de dança. A decisão de tombamento reconheceu tanto a relevância arquitetônica do edifício quanto seu papel como centro de difusão cultural.

Estrutura do TCA inclui Sala Principal, Sala do Coro e Concha Acústica

Após a reunião do Iphan, a senadora Lídice da Mata registrou no plenário do Senado a importância dos dois tombamentos. Em sua manifestação, destacou o papel do Teatro Castro Alves na divulgação das artes cênicas, musicais e de dança, além de mencionar o projeto arquitetônico do equipamento.

O projeto do TCA foi associado à imagem de uma “armação de origami gigante”, executada pelo arquiteto José Bina Fonyat Filho, com colaboração do engenheiro Humberto Lemos Lopes, durante o governo de Luís Régis Pacheco. A descrição reforça a singularidade formal do edifício e sua relevância no conjunto da arquitetura moderna produzida na Bahia.

O complexo cultural é formado pela Sala Principal, com capacidade para cerca de 1,5 mil espectadores; pela Sala do Coro, com até 201 lugares; e pela Concha Acústica, espaço integrado à memória cultural da cidade. Esse conjunto contribuiu para tornar o TCA um dos equipamentos mais importantes da vida artística baiana.

Conselho Consultivo reúne especialistas e representantes institucionais

O Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, responsável pela avaliação dos processos de tombamento e registro, é formado por especialistas de diferentes áreas, como cultura, turismo, arquitetura e arqueologia. A composição plural busca assegurar análise técnica e institucional dos bens submetidos à proteção federal.

Ao todo, o colegiado reúne 22 conselheiros, com representantes do Instituto dos Arquitetos do Brasil — IAB, do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios — Icomos, da Sociedade de Arqueologia Brasileira — SAB, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis — Ibama, do Ministério da Educação, do Ministério das Cidades, do Ministério do Turismo, do Instituto Brasileiro de Museus — Ibram, da Associação Brasileira de Antropologia — ABA, além de representantes da sociedade civil.

A decisão sobre o Ilê Axé Oxumarê e o Teatro Castro Alves demonstrou a abrangência da política patrimonial brasileira, ao reconhecer, em uma mesma reunião, um território sagrado afro-brasileiro e um equipamento cultural moderno. A combinação dos dois tombamentos ampliou a leitura institucional sobre a memória nacional e reforçou a centralidade da Bahia na formação cultural do país.

Leia +

Salvador: Casa de Oxumarê conquista registro de marca e fortalece proteção do terreiro histórico


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading