As cobras cainanas fugiram com o horripilante cheiro, eu mesmo com a minha família ensaiamos mudar também
No ano de 1945 o Mestre Raimundo Irineu Serra se transfere da Vila Ivonete para as terras do Alto Santo — atual Vila Irineu Serra. Alto Santo era a abreviação do nome “Alto da Santa Cruz” que o Mestre Irineu tinha dado para rebatizar a antiga Colocação Espalhado do grande Seringal Empresa.
A doação de terras pelo Governo do Território Federal do Acre a colonos era parte de uma política de Estado de acomodar as levas de ex-seringueiros que viviam na Cidade de Rio Branco, falidos e desempregados, com o fim do Ciclo da Borracha.
Sua irmandade trabalhadora logo o segue para a labuta no campo, acompanhando o Padrinho Irineu. Se estabelece uma progressista comunidade agrícola no meio da floresta, com o sistema de produção em mutirões e adjutórios, e esta coletividade será responsável por abastecer a feira-livre de Rio branco com hortaliças e verduras, reduzindo assim o preconceito que os habitantes da Capital tinham daquele grupo social rurícola, afro-descendente e pobre, que fazia uso da beberagem hoasca e era liderado por um “feiticeiro negro” — nas palavras discriminatórias de muitos.
Ao longo das décadas essa ordeira comunidade religiosa lá permanece e frutifica, resistindo aos avanços da urbanização acelerada que a Cidade de Rio Branco passa nestes últimos anos.
Reconhecendo a importância socioambiental do lugar, em junho de 2005 foi criada a primeira Área de Proteção Ambiental (APA) do Acre na Vila Irineu Serra, a Aparis — Área de Proteção Ambiental Raimundo Irineu Serra.
A Vila Irineu Serra existe há 69 anos e foi ali que o Mestre Irineu fundou o CICLU Alto Santo. A Área de Preservação Ambiental Raimundo Irineu Serra (Aparis), com cerca de 1,2 mil hectares, forma a maior área verde da bacia do igarapé São Francisco, na cidade de Rio Branco.
A constituição da Aparis foi um alento para os moradores da Vila, amantes da natureza e adeptos da Doutrina da Floresta, que viviam sob permanente tensão de urbanização desorganizada do território, ameaças de incêndio e invasões pelo Movimento dos Sem-Teto.
Todas essas ameaças ainda pairam sobre a Querida Vila e, no mês de setembro, por exemplo, a seca amazônica faz a floresta arder. Em 2013 contamos com a altruística ajuda dos voluntários brigadistas do fogo, os irmãos Cleyton Souza e Irineu Cunha, para debelar focos de incêndio, antes da chegada do prestimoso Corpo de Bombeiros local.
Bem, o certo é que a Mãe Natureza e a Rainha da Floresta protegem essas Terras Sagradas. Mesmo com todas as agressões ambientais a rica e diversa fauna e flora resiste, lembrando que Deus é tudo e todos.
Para registrar e catalogar as inúmeras espécies de pássaros que habitam a Vila, o eminente ornitólogo pernambucano-acreano Ricardo Plácido incansavelmente porta a sua máquina Nikon e realiza excursões científicas pelo sítio florestal, fotografando as espécies e nos brindando com belas imagens na sua página do Facebook.
Os animais que não gozam de boa reputação na Amada Vila são algumas espécies de insetos: maruins e carapanãs, particularmente a temida “carapanã-da-dengue”, motivo de preocupação permanente da Saúde Publica e de todos os munícipes rio-branquenses.
Já as enormes e peludas aranhas-caranguejeiras e suas famílias são habitués da minha humilde mansarda acreana, moradores mais regulares do que eu…
Ah… e as cobras… as serpentes? Essas são um espetáculo à parte. São inúmeras e diversas as espécies ofídicas na Vila. Uma delas virou celebridade nacional quando “bombou” no Face e se espalhou a notícia pelo conceituado site de notícias “g1.globo.com”. A bela, multicolorida e rara cobra (vide foto) hibernava no quintal da amiga e vizinha Ana Claudia, numa das frequentes calorentas tardes acreanas. O ofídio, que logo ficou conhecido como “a cobra de Ana Claúdia”, é um primor de cores e tons, digna de uma miração nas Terras Sagradas do Alto Santo.
Depois disso, outro amigo e vizinho, o Alexandre, passou a fotografar as inúmeras e surpreendentes cobras que visitam o seu terreiro, e nos apresenta na sua página do Face.
Faço esta preleção para narrar a minha experiência com estes animalzinhos do Pai Criador, que na atualidade dividem o mesmo espaço geográfico e coabitam estas matas com o bicho homem. Que esta convivência seja a mais harmônica e pacífica possível é o que desejamos.
Vez em quando as serpentes amazônicas nos visitam. Fotografei uma enorme jiboia jiboiando no bananal aqui em frente de casa. Mas quero falar mesmo é das cobras cainanas…
Informa o Wikipédia que a cainana pode atingir cerca de 4 metros de comprimento e é bastante rápida e ágil. Apesar de ser bastante agressiva, a cainana não é peçonhenta. Alimenta-se principalmente de roedores arborícolas e pequenas aves.
Mas não é que uma numerosa família dessas serpentes se aninhou na calha da varanda do meu quintal? Mesmo com a nossa movimentação no lugar não se dignavam a bater em retirada, parecendo as verdadeiras donas do recinto.
Consultei amigos florestais com a célebre pergunta:
— Que fazer?
Foi me dado duas opções.
Opção A: recrutar no mercado da fé acreano um bom “rezador de cobras”;
Opção B: queimar chifre de boi embaixo da casa.
Óbvio que tenho preferência pela alternativa mágico-transcendental, e saí em busca de um “rezador de cobras”… Olhem, encontrei de tudo: rezadores de quebranto, de mau-olhado, espinhela-caída, de tirar panema… mas rezador de cobra mesmo não encontrei, está em falta…
Na ausência de um bom “rezador de cobras” o jeito foi utilizar a segunda opção: queimar chifre bovino. No que contei com a ajuda do amigo João Natureza que, passando diariamente na porta de um matadouro, me prometeu presentear.
Dito e feito: as cobras cainanas fugiram com o horripilante cheiro, eu mesmo com a minha família ensaiamos mudar também…
Passado alguns dias, a vizinha do lado veio reclamar que as cobras cainanas tinham se aninhado no seu quintal. Dona de um vasto galinheiro, estas serpentes que têm como codinome “papa-ovo” e “papa-pinto”, estavam estrategicamente situadas em um ótimo lugar.
Que fiz eu? Ofertei chifre de boi para a vizinha Iracema, e as gulosas cainanas cederam e bateram em retirada.
Coisas do Querido Planeta Acre.
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*Juarez Duarte Bomfim, sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).










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