Uma questão de dignidade

Artigo analisa atuação do ministro Luís Roberto Barroso.
Artigo analisa atuação do ministro Luís Roberto Barroso.

O Supremo Tribunal Federal (STF), depois do voto do ministro Luís Roberto Barroso sobre o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff – em especial sobre a aplicação ao caso das regras estabelecidas pelo Regimento Interno da Câmara dos Deputados-, não tem outro jeito senão anular o julgamento, caso queira restabelecer a dignidade do próprio tribunal.

Nunca é demais lembrar que esse ministro, por ocasião do julgamento do deputado presidiário, Natan Donadon, concedeu uma liminar suspendendo os efeitos da decisão da Câmara mantendo o mandato do deputado corrupto. O argumento jurídico utilizado pelo ministro foi de que o condenado ficaria atrás das grades por mais de dois anos, o que contrariava o disposto no artigo 56, inciso II da Constituição, que determina a perda do mandato do parlamentar que ficar afastado de suas atividades por mais de 120 dias.

Ironizando o voto do ministro, seu colega, Gilmar Mendes, disse que Barroso havia criado o mandato salame, que é aquele em que o deputado condenado divide o seu tempo de prisão entre o parlamento e a cadeia, metade para cada um.

Barroso também afrontou a justiça por ocasião do julgamento dos embargos de declaração propostos pelos mensaleiros, entre os quais o seu ídolo, José Genoíno. Antes de rejeitar os embargos, fez questão de elogiar o ídolo que ele ia julgar dizendo que lamentava “condenar um homem que participou da resistência à ditadura no Brasil” e que “jamais lucrou com a política”.

O elogiado, ao qual Barroso dedica imensa admiração, foi desmascarado pelo coronel do exército Lício Augusto, que o capturou por ocasião da Guerrilha do Araguaia. O coronel, na sessão do Congresso Nacional em homenagem aos militares mortos na guerrilha, chamou Genuíno de traidor, pois ele dedurou os companheiros quando foi preso pelo exército. Esse “herói” de Barroso assistiu a tudo em silêncio.

Agora, o ministro é desnudado na televisão e na imprensa por causa do falacioso voto que deu por ocasião do julgamento sobre o procedimento adotado pelo até agora presidente da Câmara, Eduardo Cunha, no processo de impeachment de dona Dilma.

Esse ministro cometeu uma grotesca fraude ao tentar justificar a mentira que protagonizou durante a leitura do seu voto, suprimindo o texto que prevê votação secreta para a escolha da comissão especial que analisaria o cabimento do processo de impeachment da presidente. Barroso foi desmentido pela imprensa de todo o país, inclusive em sites e blogs.

Durante a leitura do artigo 188, inciso III do Regimento Interno da Câmara, ele omitiu, deliberadamente, a frase que permite as eleições secretas para todas as comissões. Três dos seus colegas discordaram do seu entendimento, mas os demais o apoiaram, demonstrando que não leram o processo.

Em vez de condenar os corruptos que governam essa cleptocracia, o ministro atua como se tivesse resgatando a promissória moral que todos pretendentes ao STF assinam por ocasião de sua nomeação. Mas o pior foi o voto do decano, Celso de Mello, segundo o qual o Senado pode se negar a processar dona Dilma pensando no “útil, oportuno e conveniente”. Que República! E que ministros!

*Luiz Holanda é advogado e professor universitário.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Banner de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading