
Depois de ser bastante criticado pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), o Ministério Público, através do seu procurador-chefe, Rodrigo Janot, resolveu reagir para não ser desmoralizado. Mendes vem acusando os procuradores de vazarem para a imprensa o conteúdo de uma delação premiada sigilosa desde longo tempo, não perdendo uma oportunidade para desmoralizar a instituição.
Por ocasião da apreciação da PEC 241/16, que alterou o Ato das Disposições Constitucionais Transitórias para Instituir o Novo Regime Fiscal, transformada na Emenda Constitucional nº 95/2016, Mendes disse que estava em rota de coalisão com a Procuradoria Geral da República por defender a aprovação da proposta que limitava os gastos públicos.
Naquela ocasião ironizou a nota técnica enviada pela PGR à Câmara dos Deputados, classificando como inconstitucional a supracitada proposta. Não contente, indagou, de forma irônica, se a União devia “fazer dívida para sustentar o Ministério Público” ou se devia se endividar para “pagar os ricos procuradores da República.”
Sem controle emocional e visivelmente irado, resolveu, desta vez, que o Ministério Público vem divulgando, de forma indevida, informações de processos sigilosos, como a Operação Lava Jato. Mendes defende a anulação de depoimentos divulgados pela imprensa sem autorização do Judiciário. Segundo ele, “vazamento é eufemismo para um crime que os procuradores certamente não desconhecem”.
Colocando, ainda mais, lenha na fogueira, o boquirroto ministro usou o termo “espetacularização” para criticar a forma como a Polícia Federal divulgou a Operação Carne Fraca – que investiga o esquema de pagamento de propina a fiscais por alguns frigoríficos.
A manifestação do ministro foi feita no início da sessão da Segunda Turma do STF, da qual ele é presidente, dirigindo-se diretamente ao relator da Lava Jato, Edson Fachin, dizendo que a violação do sigilo é um crime previsto no art. 325 do Código Penal. Para o ministro, mais grave ainda “é a notícia dá conta dessa prática dentro da estrutura da PGR. Isso é constrangedor”.
Para Gilmar, “as investigações devem ter por objetivo produzir provas, não entreter a opinião pública ou demonstrar autoridade”. Com isso, o falastrão ministro parece ter esquecido que no Tribunal Superior Eleitoral, atualmente sob seu comando, ocorreu o vazamento de informações sigilosas sem que o ministro se manifestasse a respeito, a não ser depois que, acuado pela imprensa, teve de se defender com a divulgação do relatório do ministro revisor do processo que apura o financiamento ilícito da campanha Dilma-Temer.
O fraco Rodrigo Janot não ia responder, mas, pressionado pelos colegas procuradores – que ameaçavam uma reação em cadeia contra a “diarreia verbal” do ministro-, resolveu assumir a defesa da instituição anunciando para a imprensa, de forma veemente, que as acusações infundadas contra a instituição era coisa de gente que sofria de uma extraordinária “ambição sem freio” e de “decrepitude moral”.
Nocauteado, Gilmar recuou. Agora já não defende a anulação das provas obtidas licitamente, conforme ele próprio reconheceu, mas sim uma punição pelo vazamento. Pelo visto, a punição, se houver, deverá abranger o TSE, que, sob seu comando, vem vazando tudo o que acontece no processo que apura o financiamento da campanha da chapa Dilma-Temer.
O notório ministro Dias Toffoli, que jamais deveria integrar a Suprema Corte, e que é petista de carteirinha, endossou as críticas do colega. Esse ministro já foi denunciado perante a Secretaria-Geral da Mesa do Senado pelo procurador da Fazenda Nacional Matheus Faria Carneiro, pela prática de crimes de responsabilidade, o que, segundo o procurador, faria o ministro responder a um processo de impeachment.
Toffoli, agora, tornou-se aliado do verborrágico ministro Gilmar Mendes, convertido no maior anti-Lava Jato que existe no país, desde o impeachment. Passado este, o plano agora é salvar o pessoal do PMDB e seus aliados, mesmo que, para isso, seja necessário anistiar a corrupção até o presente.
Também veio à tona a escandalosa intimidade de Mendes com Michel Temer e os investigados do PMDB e do PSDB, que, por sinal, serão julgados por ele, se é que serão.
Janot foi tão contundente nas críticas contra Mendes que chegou a afirmar que algumas pessoas “não hesitam violar o dever de imparcialidade ou em macular o decoro do cargo que exercem”.
Não contente com isso, acrescentou: “Na sofreguidão por reconhecimento, e afago dos poderosos de plantão, perdem o referencial de decência e de retidão”. Em outras palavras, Mendes perdeu toda a compostura, decência ne equilíbrio para julgar o feito. Não lhe resta outra alternativa senão se declarar impedido. Enfim, a reação de Janot parece ter produzido efeito.
*Luiz Holanda é advogado e professor universitário.









