Estudo liderado por Thomas Piketty e Lucas Chancel aponta Brasil entre os países mais desiguais do mundo e expõe concentração extrema de renda

Neste domingo, 24/12/2017, dados da Pesquisa Desigualdade Mundial 2018, divulgada em Paris, recolocaram o Brasil no centro do debate internacional sobre concentração de renda ao indicar que, em 2015, o 1% mais rico da população brasileira concentrava 27% da renda nacional, a maior proporção identificada pelo levantamento entre os países analisados. O estudo, coordenado por economistas vinculados ao World Inequality Database, entre eles Thomas Piketty e Lucas Chancel, mostra que a desigualdade cresceu desde 1980 em quase todas as regiões do mundo e revela que a periferia de Salvador expressa, em escala urbana, os efeitos de uma estrutura social marcada por forte distância entre renda, oportunidade e acesso a direitos.

Brasil aparece no topo da concentração de renda entre os mais ricos

A Pesquisa Desigualdade Mundial 2018, conhecida internacionalmente como World Inequality Report 2018, aponta que o Brasil figura entre os casos mais extremos de desigualdade econômica. Segundo o levantamento, em 2015, 27% da renda nacional estavam nas mãos do 1% mais rico da população brasileira. A proporção supera a registrada em países como Rússia e Estados Unidos, ambos com 20%, além de China, com 14%, e Índia, com 21%.

O dado evidencia uma característica persistente da formação econômica brasileira: a renda cresce, mas sua distribuição permanece profundamente concentrada. O relatório mostra que, em escala global, houve aumento de renda para diferentes grupos sociais, inclusive entre os mais pobres. No entanto, a maior parte dos ganhos foi apropriada pelas camadas superiores da pirâmide econômica, ampliando a distância entre ricos, classe média e população de baixa renda.

No caso brasileiro, a concentração apontada pelo estudo reforça uma desigualdade que não se limita à renda formal. Ela se expressa também no acesso desigual à educação de qualidade, moradia adequada, saneamento básico, saúde, transporte, segurança pública e oportunidades de mobilidade social. A periferia de Salvador, marcada por contrastes urbanos e vulnerabilidades históricas, aparece como exemplo concreto da desigualdade estrutural que atravessa o país.

Desigualdade aumentou no mundo desde 1980

O relatório indica que a desigualdade de renda aumentou desde 1980 em quase todas as regiões do planeta. O avanço mais acelerado ocorreu na China, na Rússia, na Índia e na América do Norte, áreas que passaram por transformações econômicas profundas nas últimas décadas, incluindo liberalização de mercados, mudanças no papel do Estado, expansão financeira e reestruturação produtiva.

A pesquisa observa que o período de políticas mais igualitárias do pós-Segunda Guerra Mundial perdeu força, especialmente a partir das décadas finais do século XX. Em várias regiões, a combinação entre abertura econômica, redução da progressividade tributária, valorização dos ganhos de capital e fragilização de mecanismos redistributivos favoreceu a ampliação da renda dos estratos mais ricos.

Na comparação internacional, o estudo destaca diferenças relevantes entre regiões que tinham níveis próximos de desigualdade em 1980. A divergência entre Europa Ocidental e Estados Unidos é considerada expressiva: enquanto os europeus mantiveram mecanismos mais robustos de proteção social e tributação progressiva, os norte-americanos registraram perda significativa de participação dos 50% mais pobres na renda nacional.

Rússia, China, Estados Unidos e Europa seguiram trajetórias distintas

Entre 1980 e 2016, a parcela da riqueza nacional concentrada pelos 10% mais ricos aumentou de 21% para 46% na Rússia e de 27% para 41% na China, segundo o relatório. Nos Estados Unidos e no Canadá, o índice passou de 34% para 47%. Na Europa, o crescimento foi mais moderado, de 33% para 37%.

Essas diferenças mostram que a desigualdade não é resultado automático do crescimento econômico. Países submetidos a mudanças tecnológicas, globalização e financeirização podem apresentar resultados sociais distintos, conforme suas políticas públicas, sistemas tributários, instituições trabalhistas, acesso à educação e capacidade estatal de redistribuir renda.

Thomas Piketty associa o caso norte-americano à queda da renda das camadas inferiores, à desigualdade educacional e à redução da progressividade tributária. O contraste com a Europa Ocidental revela que escolhas institucionais têm papel decisivo na forma como os ganhos econômicos são distribuídos entre os grupos sociais.

Brasil integra as “fronteiras da desigualdade”

Embora a desigualdade tenha aumentado em várias partes do mundo, o relatório aponta que algumas regiões permaneceram relativamente estáveis, porém em patamares muito elevados. O documento cita Oriente Médio, África Subsaariana e Brasil como áreas que compõem as chamadas “fronteiras da desigualdade”.

Nessas regiões, a concentração de renda pelos 10% mais ricos atinge níveis particularmente altos. O levantamento aponta 54% na África Subsaariana, 55% no Brasil e na Índia e 61% no Oriente Médio. O dado coloca o Brasil em um grupo de países e regiões onde a desigualdade não é apenas conjuntural, mas estruturante da organização social e econômica.

No caso brasileiro, a desigualdade combina heranças históricas, concentração patrimonial, acesso desigual à terra, informalidade, baixa qualidade média da educação pública, diferenças regionais e um sistema tributário com forte peso sobre o consumo. Esses fatores ajudam a explicar por que avanços sociais pontuais não foram suficientes para alterar, de forma profunda, a estrutura de concentração no topo da renda.

Estudo de Marc Morgan ampliou debate sobre os dados brasileiros

A análise sobre o Brasil no World Inequality Report 2018 se apoia, em parte, em estudo do economista irlandês Marc Morgan, vinculado à tradição de pesquisas associada a Thomas Piketty. O trabalho provocou debate porque indicou que a desigualdade brasileira seria maior do que a sugerida por outros levantamentos, especialmente aqueles baseados apenas em pesquisas domiciliares.

A controvérsia decorre da metodologia. Estudos que utilizam dados fiscais e contas nacionais tendem a captar melhor a renda dos mais ricos, incluindo lucros, dividendos, aplicações financeiras, ganhos de capital e rendimentos patrimoniais. Já pesquisas domiciliares podem subestimar a renda no topo da pirâmide, em razão de omissões, limites amostrais ou dificuldade de alcançar grupos de altíssima renda.

Segundo os dados mencionados no relatório, entre 2001 e 2015, a renda nacional total cresceu 18,3% no Brasil. No entanto, 60,7% desses ganhos foram apropriados pelos 10% mais ricos, enquanto as camadas menos favorecidas ficaram com 17,6%. A faixa intermediária, correspondente a 40% da população, perdeu participação relativa na renda nacional, passando de 34,4% para 32,4%.

Classe média mundial aparece como principal grupo pressionado

O estudo aponta que a principal vítima da dinâmica global de concentração foi a classe média mundial. Entre 1980 e 2016, o 1% mais rico ficou com 27% do crescimento mundial da renda, enquanto os 50% mais pobres receberam 12%. Embora os mais pobres tenham registrado aumento real de renda em algumas regiões, os grupos intermediários apresentaram crescimento mais frágil.

Esse fenômeno ajuda a explicar tensões sociais e políticas observadas em diferentes países nas últimas décadas. Quando a renda cresce de forma concentrada, a percepção de estagnação, perda de status e redução de expectativas afeta setores médios, trabalhadores assalariados e jovens em busca de mobilidade social.

No Brasil, esse quadro é agravado por desigualdades regionais e urbanas. A periferia de Salvador, como outras áreas metropolitanas do país, concentra problemas estruturais que limitam oportunidades: renda instável, transporte precário, violência, déficit habitacional e acesso desigual a serviços públicos. A desigualdade, portanto, não aparece apenas em indicadores macroeconômicos, mas também na experiência cotidiana da população.

Projeções indicavam risco de agravamento até 2050

Os autores do World Inequality Report 2018 manifestaram preocupação com a possibilidade de agravamento da desigualdade global até 2050, caso as tendências observadas permanecessem. Segundo as projeções apresentadas, a participação dos mais ricos no patrimônio mundial poderia subir de 33% para 39%, enquanto a parcela da classe média mundial cairia de 29% para 27%.

A previsão reforça a necessidade de políticas públicas capazes de enfrentar a concentração de renda e patrimônio. Entre os temas associados ao debate estão tributação progressiva, transparência fiscal, combate à evasão, fortalecimento da educação pública, proteção trabalhista, acesso a serviços sociais e regulação de ganhos financeiros e patrimoniais.

No Brasil, a discussão tem relevância direta para o desenho de políticas econômicas, sociais e tributárias. A persistência de uma elite econômica que concentra parcela expressiva da renda nacional limita a mobilidade social, reduz a coesão institucional e amplia a pressão sobre governos, sistemas de proteção social e administrações locais.

Concentração de renda exige leitura institucional e acompanhamento público

A desigualdade brasileira não pode ser explicada apenas por pobreza, informalidade ou diferenças regionais. O dado central é a concentração extrema no topo da renda, fenômeno que exige análise sobre tributação, patrimônio, ganhos financeiros, estrutura produtiva e capacidade do Estado de corrigir distorções históricas.

O estudo indica concentração elevada e oferece metodologia baseada em ampla base fiscal e estatística, mas o debate sobre a desigualdade brasileira envolve diferentes fontes, recortes e formas de medição. Ainda assim, a convergência entre levantamentos nacionais e internacionais aponta para um problema estrutural: o crescimento econômico, quando não acompanhado de mecanismos redistributivos consistentes, tende a preservar privilégios e limitar a ascensão social.

O relatório recoloca o Brasil diante de uma agenda pública incontornável. A desigualdade de renda tem impacto sobre desenvolvimento, democracia, segurança, educação, saúde e estabilidade institucional. A evolução desses indicadores dependerá da atuação de governos, Congresso Nacional, organismos de pesquisa, sistema tributário, mercado de trabalho e sociedade civil.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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