Um “coronel” na presidência do Senado | Por Luiz Holanda

O coronel em questão não é militar. É civil, baiano e político de longas datas. Foi o segundo mais votado para o Senado na Bahia nas últimas eleições, derrotando um adversário que as pesquisas apontavam como favorito. Seu nome, Angelo Mário Coronel de Azevedo Martins, ou simplesmente Coronel, como é conhecido.

Nascido em Conceição de Maria em 3 de maio de 1958, é engenheiro civil, empresário e político, filiado ao Partido Social Democrático (PSD). Extremamente hábil, sabe como ninguém aproveitar as oportunidades que lhes são apresentadas para delas tirar o maior proveito, principalmente numa disputa política, na qual costuma pregar algumas peças aos adversários.

A última foi na campanha para a presidência da Assembleia Legislativa da Bahia, quando defenestrou do poder o então titular, deputado Marcelo Nilo, que pretendia permanecer no cargo mesmo depois de tê-lo exercido por doze anos. A vitória credenciou Coronel a postular o Senado, para o qual foi eleito com expressiva votação. Agora quer a presidência da Casa, enfrentando alguns dos caciques de nossa velha política, pois, segundo afirma, chegou a hora da renovação.

Entre os que disputarão o cargo com ele está o senador alagoano Renan Calheiros, que escreveu um livro intitulado “Quanto Mais Perseguição Mais Óbvia a Verdade”, tentando desmentir as acusações que pesam contra a sua pessoa em mais de uma dezena de inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF). A obra, de 90 páginas, é um ataque ao ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot (o homem das delações premiadas) e ao companheiro de partido e ex-presidente da República, Michel Temer, a quem acusa de tentar derrubar as denúncias da PGR por medo de ser investigado.

Antes de ser deputado, Coronel foi prefeito de sua cidade natal pelo PMDB, seguindo a tradição começada por seu avô. Durante sua gestão construiu o hospital Angelo Martins, administrado pela fundação do mesmo nome, em homenagem ao avô que tanto admirava. Foi deputado estadual por diversos mandatos e por variados partidos, até se fixar no atual PSD, pelo qual elegeu-se senador.

Em seu primeiro ano na presidência da Assembleia Legislativa conseguiu enxugar as despesas ao ponto de apresentar um superávit de R$ 555 mil, quantia esta que foi devolvida aos cofres públicos do Estado pela primeira vez em toda a história da Casa. Nas gestões anteriores o comum era estourar o orçamento e pedir suplementação ao final de cada ano.

Logo no início de sua gestão como presidente da ALBA, cumpriu uma de suas promessas de campanha, ou seja, o fim da reeleição para a presidência da Casa, cujo projeto foi aprovado por 47 deputados estaduais, de modo que, a partir daí, os futuros presidentes terão um mandato de apenas dois anos, sendo proibida a reeleição imediatamente subsequente.

Sonhando alto, já está em campanha para presidir o Senado, haja vista a renovação de dois terços dos senadores e o fato de que chegou a hora de se colocar o novo na presidência das duas casas do Congresso. Para tanto, já apresentou algumas propostas, como a implementação de um ministério paralelo, no qual alguns membros do Senado seriam selecionados para acompanhar o trabalho das equipes de governo, a exemplo da equipe do Mistério da Economia e de outras relacionadas a assuntos de sua competência.

Outra proposta apresentada foi a criação de um Ombudsman para fiscalizar as contas do governo, já que a atual ouvidoria não consegue suprir o papel de fiscalização necessária. Coronel conta com o apoio do seu colega, padrinho político e também senador, Otto Alencar, um dos maiores caciques da política baiana e detentor de um potencial de votos que não pode ser desconsiderado por nenhum governo.

Municipalistas de carteirinha, ambos estão se aproximando do presidente Bolsonaro quando o assunto é descentralização do poder do Estado em prol do fortalecimento dos governos municipais, tese apoiada pelo ministro Paulo Guedes, e que, a partir de agora, ganha reforço com o aval dos dois senadores.

Segundo Coronel, sua candidatura é pra valer, tendo, inclusive, comunicado aos demais candidatos que está no páreo e disposto a tudo. No momento percorre o país em busca de apoio, usando, como argumento, um dos princípios fundamentais da carreira militar, ou seja, a hierarquia, pois, segundo afirma, se Bolsonaro, que é apenas capitão, ganhou as eleições para a presidência da Republica, calcule ele, que é coronel e está disputando apenas a presidência do Senado. Nos bastidores corre a notícia de que quando ele foi falar com os seus colegas de patente (os militares), estes, entusiasmados, expressaram sua aprovação em apenas três palavras: “Vá em frente”.

*Luiz Holanda é advogado e professor universitário.


Descubra mais sobre Jornal Grande Bahia (JGB)

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Avatar de Luiz Holanda

Valorize o jornalismo crítico, plural, rigoroso e comprometido com a verdade factual, a democracia, o Estado de Direito e o interesse público. Escolha o Jornal Grande Bahia (JGB) como fonte preferida no Google: clique aqui.

Sua confiança também fortalece nosso trabalho: avalie o JGB

Selecione o JGB e receba nossas notícias com mais destaque.


Banner de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.