Senado homenageia Jornal Folha de S.Paulo e Otávio Frias Filho; Parlamento rejeita descaso do presidente Jair Bolsonaro com a imprensa

Ministro Gilmar Mendes discursa no plenário do Senado Federal durante sessão especial destinada a comemorar os noventa e oito anos do jornal Folha de S. Paulo e homenagear "in memoriam" o diretor de redação Otavio Frias, em 14 de março de 2019.
Ministro Gilmar Mendes discursa no plenário do Senado Federal durante sessão especial destinada a comemorar os noventa e oito anos do jornal Folha de S. Paulo e homenagear "in memoriam" o diretor de redação Otavio Frias.

O Senado realizou nesta quinta-feira (14/03/2019) uma sessão de homenagem ao trabalho do jornalista Otávio Frias Filho (1957-2018), e à história do jornal Folha de S.Paulo, que completa 98 anos. Senadores e convidados comentaram a postura da Folha ao longo das últimas décadas e atualmente.

O senador Eduardo Braga (MDB-AM) afirmou que o periódico se guia por apartidarismo, pluralismo e crítica fundamentada, e por isso é a principal referência de jornal impresso do Brasil. Ele destacou que o jornal foi pioneiro em trazer a impressão offset, acabou com os moldes de chumbo, instalou o maior parque gráfico da América Latina e, na área editorial, revolucionou a velha maneira de fazer jornalismo ao instalar, por exemplo, a figura do ombudsman.

O senador Antonio Anastasia (PSDB-MG) disse que a Folha não é apenas um órgão noticioso, mas “verdadeiro agente transformador do processo de redemocratização”.

— A Folha ajudou o país a construir e a contar a História do Brasil dos últimos quase 100 anos, e isso não é pouca coisa. Nós somos frutos dessa história —completou.

Para o senador de Minas, o jornal teve papel fundamental na promulgação da Constituição de 1988, nas primeiras eleições presidenciais, no impeachment de Fernando Collor, na instalação do Plano Real, e governos de FHC, Lula, Dilma e Temer.

Postura editorial

O trabalho da Folha no impeachment de Collor foi relembrado pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que, na época, fazia parte do movimento estudantil.

— A Folha deu espaço ao contraditório, deu voz aos militantes, foi a primeira a cunhar o termo “cara-pintada” — lembrou.

Em seu discurso, Randolfe também falou do papel dos jornais nos dias de hoje e criticou a censura à imprensa:

— No passado era empastelando os jornais, invadindo as redações; hoje é tentando destruir jornalistas pelas redes sociais. Agora foi com o Estadão, mas já foi com a Folha, com a Globo — disse o senador, em referência ao recente tweet do presidente da República, Jair Bolsonaro, contra a jornalista Constança Rezende, do jornal Estado de S. Paulo.

O senador Humberto Costa (PT-PE) também falou da atual linha da Folha na “fiscalização, denúncia, construção de uma visão crítica, de mostrar defeitos, problemas e insuficiências de governos”.

— Na [última] eleição, corajosamente denunciou interferência importante no processo eleitoral, colocando-se ao lado do que era justo e correto, independentemente do que aconteceria. Sua posição é corajosa hoje em dia para criticar posturas que podem agredir a democracia — afirmou.

Representante do Supremo Tribunal Federal (STF) na sessão, o ministro Gilmar Mendes reconheceu o trabalho do jornal e de Frias.

— Nem sempre gostei do que a Folha publicou sobre o meu desempenho, discordei da opinião do jornal muitas vezes, mas sempre considerei que a imprensa livre não existe para agradar a este ou aquele, tampouco a mim. E sempre reconheci no jornal e naquele que o comandou com brilho e talento, a honestidade de propósito. O grande valor da democracia está nas divergências — disse o ministro.

Autocrítica

Os senadores lembraram a instalação do Projeto Folha, que em 1984 abriu uma nova proposta de jornalismo “crítico, apartidário, pluralista e moderno”, nas palavras de Anastasia.

Integrando a Mesa durante a sessão de homenagem, a atual diretora de Redação do jornal, Maria Cristina Frias, detalhou essa linha editorial:

— A ideia central do jornalismo que praticamos é que os poderes numa sociedade democrática precisam ser contrastados, não podem ser exercidos sem crítica ou contrapeso, sob o risco de se desviarem para o arbítrio.

De acordo com ela, o jornalismo não pode ser exercido “num vácuo de autocritica e controle internos”. Maria Cristina Frias destacou que, mesmo quando o jornalismo é praticado sob estritos protocolos técnicos, a capacidade de enxergar todo o campo é limitada — até pela natureza apressada do ofício — e incompleta do objeto.

— É um fiapo de história que ainda não se revelou por inteiro — descreveu.

Maria Cristina Frias reconheceu que o jornalismo está sujeito a cometer erros e impropriedades. Uma maneira de reduzir esse risco, observou, é instalar mecanismos de autocontrole.

— A Folha tem como rotina inarredável ouvir os argumentos de quem foi criticado nas matérias. Cultiva a pluralidade no seu quadro de jornalistas, colunistas e articulistas. O intuito é permitir o florescimento de um jornalismo crítico e preciso e leal com leitores, fontes e personagens da notícia.

O jornalista Josias de Souza falou sobre a “obsessão” de Otávio Frias Filho pela autocrítica. Ela se traduz, por exemplo, na seção Erramos, e por meio da figura do ombudsman, da qual a Folha foi vanguardista.

Sobre esse trabalho, o senador Weverton (PDT-MA) disse que a Folha teve “uma sabedoria política extraordinária ao entender que o jornalismo precisa autocriticar-se, verificando quais são os erros e acertos”.

— Nessa linha editorial independente, a Folha acolheu a pluralidade do pensamento — acrescentou.

O acolhimento à pluralidade também foi destacado pelo senador José Serra (PSDB-SP). Ele lembrou o momento em que passou a escrever para a Folha, depois de viver no exterior nos anos de regime militar. O senador Jorge Kajuru (PSB-GO) também contou sua experiência como jornalista da Folha.

— A imprensa não foi feita para bajular ninguém e a Folha é exemplo disso. Foi o único jornal brasileiro que deu espaço para perseguidos políticos e intelectuais falarem — declarou.

Otávio Frias Filho

A sessão de homenagem aos 98 anos do jornal também foi um reconhecimento ao trabalho de Otávio Frias Filho na condução do jornal desde 1984 até o ano passado, quando morreu, aos 61 anos, vítima de um câncer.

Frias foi idealizador do código de ética da Associação Nacional de Jornais, que contém os princípios da auto-regulamentação dos periódicos brasileiros, trazendo ideias de independência, busca da verdade, profissionalismo, compromisso com os valores da democracia, reconhecimento e correção de erros.

Jornalista por formação, a senadora Eliziane Gama (PPS-MA) destacou o protagonismo de Frias para revolucionar o jornal.

— Foi o veículo que mais se notabilizou na transição do Brasil do regime militar para o democrático — acrescentou a senodora.

Autora do requerimento de realização da homenagem, a senadora Kátia Abreu (PDT-TO) contou como conheceu e foi amiga de Otávio Frias por mais de uma década. Disse que o convidou para conhecer o Jalapão, em seu estado.

— Se estivesse na sede da Folha ou ao lado dos artesãos do Jalapão, era a mesma pessoa simples e correta. Não conheci alguém mais culto e mais civilizado, sempre disposto a discutir saídas para o Brasil — afirmou Kátia Abreu, segundo a qual Frias tinha grande capacidade de ouvir, ainda que não concordasse com o interlocutor.

Maria Cristina Frias diretora de editorial e redação do Jornal Folha de São Paulo.
Maria Cristina Frias diretora de editorial e redação do Jornal Folha de São Paulo.

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