Na política tudo pode acontecer | Por Luiz Holanda

Presidente Getúlio Vargas, desfilando em carro aberto com João Goulart, no Rio Grande do Sul, na década de 1950.
Presidente Getúlio Vargas, desfilando em carro aberto com João Goulart, no Rio Grande do Sul, na década de 1950.
Presidente Getúlio Vargas, desfilando em carro aberto com João Goulart, no Rio Grande do Sul, na década de 1950.
Presidente Getúlio Vargas, desfilando em carro aberto com João Goulart, no Rio Grande do Sul, na década de 1950.

1936 foi um ano de muitos acontecimentos. O rei Eduardo VIII, da Inglaterra, anunciava sua abdicação do trono para se casar com a norte-americana Wallis Simpson, o maior amor de sua vida. Tempos depois descobriu-se que a grande obsessão amorosa de sua esposa, segundo o biógrafo Andrew Morton, foi o americano Herman Rogers, formado em Yale, charmoso e possuidor de grande fortuna.

Nesse mesmo ano, no Paraguai, um grupo de oficiais do exército, liderados por Rafael Franco, dá início à Revolução Febrenista. No Egito, o príncipe Faruk assume o trono com apenas dezesseis anos. No Brasil, dava-se início aos preparativos para a sucessão de Getúlio Vargas. Nos primeiros meses de 1937 algumas candidaturas à sucessão presidencial foram apresentadas pelos partidos da época.

O Partido Constitucionalista, coligado com o Partido Democrático e apoiado por agremiações menores, lançou a candidatura de Armando de Sales Oliveira – com apoio do caudilho Flores da Cunha. O candidato oficial era o paraibano José Américo de Almeida, e o do Exército era Plínio Salgado, líder da Ação Integralista Brasileira.

O grande problema era que Getúlio não estava disposto a largar o poder. Faltava, então, um pretexto para evitar que isso acontecesse. Foi aí que, em setembro de 1937, um oficial integralista, capitão Olímpio Mourão Filho, foi surpreendido datilografando, em pleno Ministério da Guerra, um plano de insurreição comunista. O plano era atribuído a uma certa pessoa chamada Cohen, nome que permitiu atiçar o antissemitismo difuso da direita.

O plano serviu como pretexto para Getúlio permanecer no poder. Era uma fantasia a circular entre os integralistas mostrando como seria a insurreição e a sua consequente reação. O que não se esperava era que o plano fosse cair nas mãos do Exército. No dia 30 de setembro de 1937 foi transmitido pelo programa “Hora do Brasil”, e publicado em diversos jornais. Imediatamente o Congresso, tentando se salvar, aprovou o estado de guerra e a suspensão das garantias constitucionais por noventa dias. Em 10 de novembro Vargas deu o golpe. Era o início do Estado Novo.

Os dias de hoje revelam muita semelhança com aquele tempo, e o plano é tentar desestabilizar o governo para evitar qualquer reforma. Como a oposição raciocina pela lógica do quanto pior, deverá boicotar qualquer reforma que possa dar votos ao governo. O problema é que, se esse plano der certo, o poder deverá ir para as mãos dos militares. No ano passado estivemos muito perto de isso acontecer. Segundo o general Villas Bôas, na época comandante do Exército, as Forças Armadas estiveram perto de interferir na vida política nacional por ocasião do julgamento do pedido de habeas corpus do ex-presidente Lula pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo o general, “Ali, nós, conscientemente, trabalhamos sabendo que estávamos no limite”.

Dias depois, falando em nome do Exército, Villas Bôas assegurou “que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”. Entre os que o apoiaram estava o comandante da 16ª Brigada de Infantaria da Selva, general Cristiano Pinto Sampaio, que citou o advogado Gustavo Barroso como um dos porta-vozes do movimento integralista no Brasil.

Nunca é demais lembrar que os militares sempre estiveram atentos ao clamor popular. De igual modo, não apreciam a anarquia nem a corrupção. Foi assim em 1964, com a marcha da Família com Deus pela liberdade, nome comum de uma série de manifestações ocorridas entre 19 de março a 8 de junho desse mesmo ano, consideradas pelos militares como um apelo para sua intervenção.

Foi com base nessas manifestações que o general Carlos Luís Guedes, comandante da IV Divisão de Infantaria, sediada em Minas, botou a tropa na rua, rumo ao Rio de Janeiro. A largada deu-se com o mesmo capital Mourão, que, nessa época, era general. Soldados do I Exército partiram do Rio para o confronto com os de Minas. No meio do caminho confraternizaram-se. Estava selado o destino do presidente João Goulart. Terminou exilado no Uruguai.

O interessante disso tudo é que, nessa época, Goulart pretendia introduzir algumas reformas no país, tal como acontece hoje, com a reforma da Previdência. Nessa época, a esquerda era representada pelos sindicatos, enquanto a direita -rica e poderosa-, dominava os meios de comunicação. Daí a publicação de uma estrofe muito divulgada pela imprensa: “Reformas? Sim. Comunismo, não”.  “Um, dois, três, Brizola no xadrez! E, se tiver lugar, Põe também o João Goulart”. E como na política tudo se repete, o problema é saber quem, dessa vez, o povo deseja botar no xadrez

*Luiz Holanda, advogado e professor universitário.

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Sobre Luiz Holanda 478 artigos
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia.