Na semana passada (28/03/2022), o Banco Central da Rússia estabeleceu uma paridade fixa entre o rublo e o ouro para “equilibrar a oferta e a demanda no mercado doméstico de metais preciosos”. Nesse contexto, a agência se comprometeu a comprar ouro de instituições de crédito a um preço fixo de 5.000 rublos (cerca de R$ 272) por grama, no período de 28 de março a 30 de junho.
O movimento pode ter enormes implicações para a moeda nacional russa, o dólar americano e a economia global caso Moscou decida vender suas matérias-primas apenas em rublos, disse o analista de metais preciosos da BullionStar à RT, Ronan Manly.
Com a paridade fixa entre o rublo e o ouro, e a decisão de Moscou de apenas aceitar pagamentos pelo fornecimento de gás russo em rublos, o hidrocarboneto agora também está atrelado ao ouro através do rublo, de modo que a Rússia poderia começar a aceitar o ouro diretamente como pagamento por suas exportações de gás, o que também poderia ser aplicado ao petróleo ou qualquer outra matéria-prima, disse o analista.
“O que estamos vendo agora parece ser o nascimento de um novo sistema monetário multilateral apoiado no ouro e em commodities”, diz Manly, observando que também seria “o começo do fim daquele sistema de 50 anos” da era do petrodólar, que “só foi possível graças ao contínuo uso mundial de dólares americanos” para o comércio de petróleo.
“Os maiores países do mundo com matérias-primas fortes, como a China e os países exportadores de petróleo, podem agora sentir que é hora de mudar para um sistema monetário novo e mais justo”, disse ele.
Como o ouro é cotado em dólares, a paridade entre o rublo e o ouro estabelece um preço mínimo para a moeda russa em relação à moeda norte-americana, explica o analista. No dia do anúncio do Banco Central, o rublo estava sendo negociado a cerca de 100 por dólar, mas desde então se fortaleceu e está se aproximando de 80 rublos por dólar.
De acordo com Manly, a exigência de Moscou sobre pagamentos em rublos pelas compras de gás russo vai funcionar como um fator de “estabilização e apoio”.
“Se a maior parte do sistema de comércio internacional começar a aceitar esses rublos para acordos de pagamento de commodities, isso pode levar o rublo russo a se tornar uma importante moeda mundial”, afirmou.
Dado o congelamento da maior parte das reservas cambiais da Rússia, que “deixou claro que os direitos de propriedade sobre as reservas cambiais podem não ser respeitados”, e no caso de Moscou começar a aceitar o pagamento de petróleo em ouro, os maiores produtores mundiais de petróleo e gás natural, como Irã, China, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar, poderiam fazer o mesmo, disse o analista.
“Se o fim do dólar americano estiver próximo, todos esses países vão querer que suas moedas sejam beneficiárias de uma nova ordem monetária multilateral”, conclui.
Banco Central da Rússia explica por que manteve suas reservas no exterior; Segundo órgão regulador, nada poderia ter sido feito para evitar a apreensão de ativos
As reservas cambiais da Rússia tiveram que ser mantidas no exterior e nada poderia ter sido feito para evitar o congelamento dos ativos em dólar e euro do país, disse o Banco Central na última postagem de perguntas e respostas em seu site.
No início do mês de março, quase metade das reservas estrangeiras da Rússia – no valor de US$ 300 bilhões (cerca de R$ 1,438 bilhão) – foram apreendidas como parte das sanções impostas pelos EUA, União Europeia (UE) e seus aliados sobre a operação especial militar de Moscou na Ucrânia.
Manter reservas de ouro e divisas no país seria como não ter reservas, pois esses ativos protegem a economia contra crises externas, explicou o Banco da Rússia. Segundo o órgão, existem dois tipos de crises financeiras: uma “tradicional”, como a que o mundo experimentou em 2008, 2014 e 2020, e uma geopolítica, como a que Moscou está enfrentando no momento.
Durante uma crise tradicional, as reservas em dólares e euros ajudam o país a pagar suas dívidas e manter o comércio em andamento, então nada poderia ter sido feito para evitar o congelamento de seus ativos.
“A moeda sem dinheiro é sempre refletida em contas correspondentes em bancos estrangeiros e, portanto, pode ser congelada”, acrescentou.
Durante uma crise geopolítica, a Rússia precisa de ativos alternativos que sejam imunes às sanções ocidentais, como ouro e yuan chinês, observou o regulador. A Rússia tem acumulado estes ativos alternativos ao longo dos últimos anos e agora eles representam quase metade de suas reservas estrangeiras.
No entanto, permitir reservas russas dominadas pelo yuan tem colocado Pequim em uma situação delicada, observou o Ministério das Finanças no início deste mês, acrescentando que o Ocidente vem pressionando a China para limitar o acesso da Rússia a essas reservas, o que não pode ser feito a respeito do ouro, que permanece no país.
Segundo o Ministério das Finanças, a Rússia tem um total de cerca de US$ 640 bilhões (R$ 3,066 trilhões) em reservas, dos quais cerca de US$ 300 bilhões (cerca de R$ 1,438 bilhão) foram congelados. Moscou não poderia ter previsto o desenrolar dos fatos, e o congelamento constitui essencialmente um roubo, disse o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, na semana passada.
Depois que suas reservas em dólar e euro foram congeladas, a Rússia aplicou o que o Banco Central descreveu como medidas de olho por olho. A movimentação de capitais foi restringida e a venda de títulos por investidores estrangeiros foi proibida, assim como a retirada de fundos do sistema financeiro russo, entre outras medidas tomadas. Essencialmente, o Banco Central impediu que “países hostis” recebessem fundos da Rússia em um valor comparável aos ativos russos que foram congelados.
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