O Banco Central do Brasil decretou nesta quinta-feira (15/01/2026) a liquidação extrajudicial da Reag Trust, instituição financeira investigada por suposta participação em um esquema de ciranda financeira utilizado para inflar artificialmente ativos do Banco Master por meio de fundos de investimento. A decisão ocorre em meio ao avanço das apurações conduzidas pela Polícia Federal, que investiga possíveis fraudes, lavagem de dinheiro e violações às normas do sistema financeiro nacional.
Segundo dados da Anbima, a Reag administrava R$ 352 bilhões em ativos em novembro de 2025, o que a colocava na 11ª posição entre as maiores administradoras do país. A liquidação foi decretada um dia após a deflagração da segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura o uso de fundos de investimento para inflar o patrimônio do Banco Master por meio de operações consideradas atípicas.
A nova etapa da investigação teve como alvos endereços ligados a Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, além de parentes e empresários com relações financeiras relevantes com a instituição, entre eles Nelson Tanure e João Carlos Mansur, ex-controlador da Reag. As apurações buscam esclarecer a dinâmica das operações financeiras e a eventual participação coordenada de diferentes agentes na estrutura investigada.
Avanço das investigações e histórico recente da Reag
João Carlos Mansur deixou a presidência do Conselho de Administração da Reag em setembro de 2025, após o aprofundamento da crise de credibilidade da gestora, desencadeada pela Operação Carbono Oculto. Essa investigação apura um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC (Primeiro Comando da Capital) no mercado financeiro, no qual a Reag figurou entre os alvos.
Na ocasião, a instituição negou qualquer vínculo com o crime organizado e afirmou, em nota oficial, que vinha colaborando integralmente com as autoridades, fornecendo documentos, informações e acesso a sistemas internos sempre que solicitado. A defesa de Mansur, por sua vez, declarou não ter tido acesso aos autos da investigação mais recente, mas informou estar à disposição para prestar esclarecimentos.
Apesar das negativas, o acúmulo de investigações, operações policiais sucessivas e relatórios técnicos de órgãos de controle acabou por fragilizar a posição institucional da gestora diante do regulador.
Decisão do Banco Central e nomeação do liquidante
No ato que determinou a liquidação, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, nomeou a APS Serviços Especializados de Apoio Administrativo como liquidante da instituição, tendo Antonio Pereira de Souza como responsável técnico pelo processo. Atualmente, a Reag opera sob a denominação CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários.
Segundo o Banco Central, a instituição está enquadrada no segmento S4, destinado a empresas de pequeno porte no sistema financeiro, com participação inferior a 0,1% do PIB e menos de 0,001% do ativo total ajustado do sistema financeiro nacional. Com a liquidação, os fundos administrados deverão buscar novos administradores, garantindo a continuidade formal de suas operações sob outra estrutura.
Em nota oficial, o Banco Central afirmou que a medida foi motivada por “graves violações às normas” que regem as instituições financeiras. O órgão ressaltou ainda que seguirá adotando todas as providências legais cabíveis para apurar responsabilidades administrativas e comunicar os fatos às autoridades competentes.
Efeitos da liquidação e possíveis desdobramentos judiciais
A liquidação extrajudicial é aplicada quando o regulador considera a situação da instituição irrecuperável. Nesses casos, o funcionamento é interrompido, a empresa é retirada do sistema financeiro nacional e os bens dos controladores e ex-administradores ficam indisponíveis, como forma de resguardar credores e investidores.
Existe ainda a possibilidade de o liquidante, mediante autorização do Banco Central, requerer a falência da instituição, hipótese em que o processo passa a tramitar pela via judicial. Essa etapa dependerá do avanço das apurações e da avaliação sobre a suficiência dos ativos para honrar obrigações.
Criada em 2012, a Reag passou por um crescimento acelerado, marcado por aquisições e diversificação de investimentos, tornando-se uma das maiores gestoras independentes do país, sem vínculo direto com grandes bancos. Seu foco principal sempre foi a gestão de recursos e de patrimônio, segmento que agora enfrenta forte abalo reputacional.
Relatório do Banco Central e indícios de fraude no caso Master
Relatório do Banco Central encaminhado ao Tribunal de Contas da União apontou indícios de fraude em operações financeiras realizadas pelo Banco Master em conjunto com fundos administrados pela Reag Trust. De acordo com o documento, as transações suspeitas somariam R$ 11,5 bilhões.
O regulador classificou essas operações como portadoras de “falhas graves”, em desacordo com as normas do sistema financeiro nacional, e comunicou formalmente o caso ao Ministério Público Federal, ampliando o espectro institucional das investigações.
Crise regulatória e limites da autorregulação no mercado financeiro
A liquidação da Reag Trust evidencia a dificuldade histórica do sistema financeiro brasileiro em detectar precocemente estruturas sofisticadas de manipulação de ativos, especialmente quando envolvem fundos de investimento e operações interligadas entre múltiplos agentes. O caso reforça a centralidade do Banco Central como autoridade reguladora, mas também expõe fragilidades nos mecanismos de supervisão preventiva.
Os desdobramentos da Operação Compliance Zero e da Operação Carbono Oculto indicam um ambiente de crescente judicialização e criminalização de práticas financeiras, com impactos diretos sobre a confiança do mercado e a estabilidade institucional. A participação de empresários de grande porte amplia a dimensão política e econômica do caso.
Também chama atenção a necessidade de maior integração entre órgãos reguladores, polícia e tribunais de controle, para evitar que esquemas complexos prosperem por longos períodos. A resposta institucional, embora firme, chega após anos de expansão acelerada da gestora, levantando questionamentos sobre os limites da autorregulação e da supervisão baseada apenas em indicadores formais.
*Com informações da Agência Brasil, O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Veja e Metrópoles.







Deixe um comentário