Ao jovem confrade Ricardo Nogueira!
O Nordeste Brasileiro, pouco mais de um quarto do eleitorado nacional, assegurou ao PT sua maior votação nas últimas seis eleições presidenciais, vencendo cinco vezes, todas elas em segundo turno, tendo a Bahia, sempre, como o seu maior reduto. O PT é o partido dos grotões, onde o eleitorado é, majoritariamente, o de menor escolaridade, conforme o cientista político Alberto Carlos Almeida, em seu livro O Voto do Brasileiro. Agora, enquanto, no Nordeste, Lula obteve 69,34% dos votos, na Bahia o percentual subiu para 72,12%, representando 6.097.815 votos contra 2.357.028 atribuídos a Bolsonaro, uma vantagem numérica de 3.740.787 votos, a maior em todo o País. Como, no total, o resultado foi 60.345.500, contra 58.206.354, bastaria que 1.069.823 votos migrassem de Lula para Bolsonaro para que o Presidente fosse reeleito com um voto de vantagem. Isso significa que se a vantagem de Lula sobre Bolsonaro, na Bahia, baixasse de 3.740.787 para 2.670.967, Bolsonaro teria sido o vencedor.
Esse elementar cálculo aritmético é exposto para acentuar o tamanho do débito político de Lula para com o Nordeste, em geral, e a Bahia, em particular.
A julgar, porém, a partir das experiências anteriores, Lula, na presidência, não obstante nordestino do sertão de Pernambuco, continuará sem corresponder ao que deve à mais sofrida região do País, que reage como mulher de malandro que mais agrada quanto mais apanha. Basta lembrar que o trecho na BR 101, no Estado da Bahia, o maior cemitério, a céu aberto, no Continente Americano, não mereceu dos governos petistas qualquer atenção. A Transposição do São Francisco, clamor centenário, foi deixada inconclusa, não obstante os gastos haverem ultrapassado, em muito, o orçamento original.
Para agravar essa ominosa desídia, o PT, em seus três mandatos e meio, presidenciais, ignorou, olimpicamente, a norma constitucional que, segundo Rômulo Almeida, nosso inspirador, seria o meio redentor das mazelas históricas da pobre Região Nordeste. Referimo-nos ao artigo 165 da Constituição, de nossa autoria, combinado com o artigo 35 das Disposições Transitórias, que obriga o Orçamento da União a levar em conta critérios demográficos para reduzir desigualdades inter-regionais. Segundo Rômulo, o declínio do Nordeste foi agravado, historicamente, pela crescente perda de participação da Região, no Orçamento Federal, relativamente ao significado de sua população no contexto da população nacional. Estima-se em cerca de 100 bilhões, por ano, os valores que deixam de ser investidos no Nordeste, em razão da inobservância da norma constitucional, fato que compromete, por omissão, a qualidade das lideranças nordestinas, não obstante as reiteradas advertências que temos feito, desde que deixamos o Parlamento, em 1991. Na Associação Comercial da Bahia, sob a presidência de Eduardo Morais de Castro, realizamos um grande encontro, para o qual convidamos as mais importantes lideranças nordestinas, com o propósito de promovermos uma ação conjunta em favor da aplicação do dispositivo constitucional. Da Bahia, o único líder que compareceu foi o então deputado federal Antônio Imbassahy.
Pensamos que o novo governador, Jerônimo Rodrigues, tem a faca e o queijo na mão para fazer um bom governo, bastando convencer o presidente eleito, que ora descansa na Bahia, para nos assegurar os recursos necessários com que equacionarmos nossas mais gritantes necessidades: melhorar nossa educação e dar acesso a saneamento básico aos nove milhões de baianos que vivem à margem dessa infraestrutura vital para a qualidade de suas vidas e longevidade.
*Joaci Góes, advogado, jornalista, empresário, ex-deputado federal constituinte e presidente do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia (IGHB).









