Mudanças climáticas dobram a chance de chuva extrema no Rio Grande do Sul

As mudanças climáticas produzidas pela ação humana no planeta tiveram um papel crucial nas chuvas extremas registradas entre o final de abril e início de maio no Rio Grande do Sul. Um estudo de caso publicado na última segunda-feira (03/06/2024) pelo World Weather Attribution (WWA) indica que o aumento da temperatura global dobrou as chances de tais catástrofes ocorrerem, transformando um evento extremamente raro em uma das piores tragédias naturais já registradas no estado.

As inundações deixaram marcas em mais de 90% do estado do Rio Grande do Sul – uma área equivalente ao tamanho do Reino Unido. Até o momento, foram confirmadas 172 mortes e cerca de 600 mil pessoas permanecem desalojadas. Em muitos locais, como algumas áreas da capital Porto Alegre, a água ainda não baixou completamente, agravando a situação para os moradores e as equipes de resgate.

Um período mais úmido que o normal já era esperado na região devido ao El Niño, caracterizado pelo aumento da temperatura das águas superficiais no Oceano Pacífico tropical. Este fenômeno climático natural explica parte da variabilidade nas chuvas observadas, mas o estudo do WWA mostrou que a situação foi além do esperado.

“Nosso estudo mostrou especificamente que as mudanças climáticas, juntamente com o El Niño, duplicaram o potencial de ocorrência do evento e aumentaram a intensidade em 6-9% devido à queima de combustíveis fósseis”, detalhou Lincoln Alves, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e um dos autores da pesquisa.

Desastre sem precedentes

O WWA, criado em 2015, busca calcular o impacto das mudanças climáticas em eventos extremos ao redor do mundo. No caso do Rio Grande do Sul, os cientistas analisaram dois períodos de chuvas intensas: um acumulado de quatro dias (20 de abril a 2 de maio) e outro de dez dias (26 de abril a 5 de maio). A janela de quatro dias se destacou como o evento único mais severo, com chuvas recordes caindo por vários dias consecutivos.

Para comparar a severidade da inundação recente, a professora Regina Rodrigues, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), analisou dados de 1941, quando Porto Alegre sofreu sua pior cheia até então.

“Em 1941, foram necessários 22 dias para o nível da água no Guaíba atingir 4,76 metros acima dos níveis normais. Em 2024, foram apenas cinco dias para o Guaíba ultrapassar os 5 metros, bem acima do nível de inundação de 3 metros necessário para inundar a cidade”, explicou Rodrigues.

Agravamento da crise e futuras previsões

Três das maiores enchentes no Sul do Brasil ocorreram nos últimos nove meses sob a influência de um intenso El Niño. A ciência já indica que as mudanças climáticas vão intensificar este padrão. Entre setembro do ano passado e o início de 2024, ciclones extratropicais e chuvas recordes causaram cheias devastadoras, deixando cidades inteiras em recuperação contínua.

O relatório do WWA reforça previsões passadas sobre um planeta até 2°C mais quente, onde a probabilidade de eventos extremos triplica e sua intensidade aumenta em 4%. Atualmente, o planeta já aqueceu 1,2°C acima da média pré-industrial, com uma tendência contínua de elevação.

As inundações em Porto Alegre, cidade que possui um sistema de proteção contra cheias, demonstram a falha de infraestrutura e a redução de investimentos em manutenção.

“O sistema começou a falhar a 4,5 metros de inundação, apesar da sua capacidade declarada de suportar água de 6 metros”, observa o estudo, apontando a necessidade de fortalecer a infraestrutura e avaliar objetivamente os riscos.

Maja Vahlberg, do Centro Climático da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, destacou a falta de rigor no cumprimento das leis ambientais no Brasil, levando à ocupação de áreas sujeitas a inundações e aumentando o risco de desastres. Embora as previsões de chuvas intensas tenham sido feitas com quase uma semana de antecedência e avisos tenham sido disparados para a população, problemas na comunicação e a ausência de planos municipais de gestão de risco agravam a crise.

Para Lincoln Alves, do Inpe, a resposta rápida dos cientistas é vital.

“É importante trazer esta perspectiva quando o evento está ocorrendo, ou logo depois dele, para chamar a atenção das pessoas. Fazemos isso sem perder rigor científico para contribuir com o debate na sociedade”, afirmou.

O WWA utiliza uma metodologia reconhecida cientificamente para analisar a influência das mudanças climáticas em eventos extremos, publicada na revista Environmental Research: Climate. Desde 2022, o grupo reage imediatamente após eventos extremos, adaptando dados conforme o acontecimento estudado.

*Com informações da DW.


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