Nossos comentários sobre a inveja, 4 | Por Joaci Góes

Ao confrade e polímata Benjamin Batista

Onde houver uma organização humana, haverá, sempre, evolução. Evolução como sinônimo de mudança em qualquer direção, e não com o sentido de progresso como se costuma dizer em linguagem coloquial. O saldo dos benefícios sociais acumulados, em mutação constante, pode variar para cima ou para baixo. A resultante dessa oscilação, medida em termos de avanço, pode ser axiologicamente positiva, negativa ou nenhuma.

Os agentes que atuam sobre o meio social representam dois grandes conjuntos de forças. De um lado, as forças mobilizadas pelo propósito de manter o status quo do qual são beneficiárias; do outro, as forças movidas pelo desejo de implantar uma nova ordem social substitutiva da existente, na qual possam melhor realizar seus anseios e expectativas. A dinâmica deste processo sintetiza tanto a ação dos agentes conscientes dos seus propósitos ideológicos de mudança ou de preservação do status quo, quanto a dos que atuam, simplesmente, movidos pelo desejo de satisfação de suas necessidades dominantes. Uma ordem social qualquer, uma vez estabelecida, funciona como um ecossistema onde as forças já adaptadas bloqueiam as mudanças intentadas pelos agentes que ainda se sentem desconfortáveis em seu estágio de adaptação. Num caso como no outro, o que está em jogo é a própria sobrevivência, objetiva ou subjetivamente considerada. As possibilidades e os sentidos da mudança, – para pior ou para melhor, de acordo com os valores humanos -, dependerão da variedade e da natureza dos objetivos perseguidos pelos integrantes do corpo social. Como estes objetivos fluem diretamente do quadro de necessidades atuantes sobre cada indivíduo, é curial concluir-se que o sentido e o potencial do avanço de uma sociedade dependem do tipo de necessidades predominantes que os seus membros buscam satisfazer, bem como da qualidade da mentalidade predominante, de escassez ou de abundância.

Na hipótese de uma sociedade primitiva, baseada na economia de subsistência, a preocupação dominante da maioria dos seus membros é a de assegurar o “pão nosso de cada dia” e a sua segurança física. O quadro de gritante escassez material faz com que o sentimento da inveja se concentre em objetos vinculados às necessidades fisiológicas e às de segurança, cuja satisfação precária gera um círculo vicioso que renova diariamente seu papel como fonte de estímulo à ação dos indivíduos, ao tempo em que limita e sufoca a aparição de necessidades superiores cuja satisfação produz o avanço. Esta é a razão da existência paralela de sociedades com níveis tão desiguais de desenvolvimento, apesar de a universalização dos meios de informação permitir às comunidades carentes o pleno conhecimento do que se passa em centros mais desenvolvidos, sem que isso, aparentemente, enseje a desejada precipitação das mudanças. Tal é o caso das comunidades ricas do sul e centro-sul do Brasil, de um lado, e do Norte e Nordeste, do outro. Basta comparar a direção em que ambos os grupos votam no processo eleitoral.

É desnecessário acentuar que o nível de inteligência nata desses indivíduos carentes não é inferior ao dos indivíduos “desenvolvidos”. O que faz a diferença é, precisamente, a intensidade, o nível e a variedade dos desafios intelectuais com que estas inteligências rotineiramente se envolvem. Em última análise, dependem do nível de educação dominante na sociedade.

A excessiva recorrência das necessidades predominantes opera com tamanha força de bloqueio às mudanças que, até fins da década de 1980, havia países africanos – onde quase tudo estava e ainda está para ser feito – que dispõem de um total de até cinco engenheiros, apenas. Sem dúvida, estas comunidades não conseguiram, ainda, atingir o patamar das necessidades d) reconhecimento social e e) autorrealização, em cuja abrangência o fator educacional se inclui com destaque.

Neste passo a indagação se impõe: – Em que medida os níveis de necessidade e o sentimento da inveja se interrelacionam para travar o desenvolvimento?

Enquanto os regimes totalitários, de esquerda ou de direita, conduzem à desigualdade, de acordo com a experiência histórica que atropela o discurso igualitário, a democracia ou sociedade aberta, com o seu impulso congênito contra a desigualdade, tem sido o mais eficaz instrumento promotor da igualdade dialética, e redutor da desigualdade, ainda que se submetendo ao permanente desequilíbrio dinâmico produzido por fatores meritocráticos ou simples privilégios chancelados pelo Status quo.

*Joaci Góes, advogado, jornalista, escritor, empresário e político brasileiro, nascido em Ipirá, Bahia, em 1938, preside o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), mais antiga e uma das mais importantes instituições culturais do estado, com sede em Salvador.


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