Ao amigo Carlos Henrique Passos!
Neste passo de nossos comentários sobre a inveja, uma indagação se impõe: – Em que medida os níveis de necessidade e o sentimento da inveja se interrelacionam para travar o desenvolvimento?
Enquanto os regimes totalitários, de esquerda ou de direita, conduzem à desigualdade, de acordo com a experiência histórica que atropela o discurso igualitário, a democracia, com o seu impulso congênito contra a desigualdade, tem sido o mais eficaz instrumento promotor da igualdade dialética, e redutor da desigualdade, ainda que se submetendo ao permanente desequilíbrio dinâmico produzido por fatores meritocráticos ou simples privilégios chancelados pelo Status quo. Distinga-se, de logo, porém, entre regimes autoritários e totalitários. Os primeiros são voluntariosos e estão sempre inclinados a atropelar a lei, ainda que submetidos a princípios fundamentais da Democracia; os últimos atuam, sempre, despoticamente com apoio numa legislação ostensivamente antidemocrática.
A Nomenklatura ou a “Nova Classe”, como a denominou o iugoslavo Milovan Djilas, é a prova disso nos regimes comunistas, em que a classe dirigente concentra os privilégios mais odiosos, contra os quais o clamor é impotente, levando ao olvido, ao cárcere ou à morte. Seria risível se não fosse trágico o contorcionismo lógico-filosófico a que se dedicam os opositores da sociedade aberta quando, na sequência do discurso condenatório de sua prática, não conseguem fugir ao reconhecimento do seu incomparável valor como elemento promotor do desenvolvimento. A verdade é que ainda não se encontrou um sucedâneo eficaz para o capitalismo, enquanto o socialismo marxista, em que o Estado é o detentor dos meios de produção, fracassou em toda parte, sem exceção. Quando sua proposição não deriva de pura ignorância sobre os mecanismos que devem ser acionados para que o sistema econômico opere com produtividade, decorre do animus invidiosis, que leva os seus promotores, mesmo reconhecendo a inviabilidade do socialismo, a o defenderem sob a irreprimível pressão do sentimento da inveja.
A experiência histórica revela que tem sido abissal a distância entre a prática e os discursos populistas ou grandiloquentes. Não é de estranhar que cresça o número dos que se dizem na esquerda, mas que reagem à possibilidade de integrarem o PT, por excesso de envolvimento desse com a corrupção, ou com partidos como o PSOL que se comportam mais como uma seita religiosa do que como uma agremiação partidária. Tanto a corrupção quanto o totalitarismo, presentes na esquerda brasileira, resultam da velha crença segundo a qual os fins justificam os meios. Os fins, no caso, diante do reiterado fracasso operacional do Materialismo Histórico, são os postos de comando em que se aboletam os intelectuais para compor a classe dirigente ou nomenklatura. Como ensina a sabedoria popular, cada um invoca os princípios que lhe convêm.
A verdade factual é que a globalização da economia, que se acelerou a partir da década de 1980, produziu a maior redução dos níveis de pobreza da história da humanidade. Isso é um fato irretorquível. Ao invés de se concentrar na adoção de mecanismos que elevem o padrão de vida das massas, a começar por acesso universal a educação de qualidade e a adoção de medidas de saúde preventiva, das quais saneamento básico para todos é a mais visível e importante, a autodeclarada esquerda, acionada pelo sentimento da inveja, vem se concentrando no aumento das desigualdades, quando a questão substantiva reside na definição de um piso mínimo de bem estar a ser posto ao alcance dos mais pobres. A atribuição de maior responsabilidade ao capitalismo, pelas agressões ao meio-ambiente, sobre o fundamento de que nele o lucro é o mais poderoso dos deuses, não encontra respaldo nas práticas dos países que integram os extremos opostos, uma vez que a China e a Rússia comunista sempre figuraram como grandes vilões da higidez ecológica do Planeta.
Até o momento, a preservação ambiental é forte componente ornamental do discurso da esquerda, a exemplo do uso criterioso dos sistematicamente malversados recursos públicos. Sem a transparência, consectário natural das democracias, a prática operacional colidirá com a grandiloquência do discurso da honradez, como aconteceu em todos os regimes totalitários.
Do mesmo modo que é impróprio dizer “se é velho e socialista é burro”, é dizer que “se é jovem e conservador é burro”, sem prejuízo de que em algumas situações essas frases serem verdadeiras. Longe, porém, estão, de serem axiomáticas, como querem os que vivem do aplauso de auditórios de baixo nível intelectual e ou moral.
*Joaci Góes, advogado, jornalista, escritor, empresário e político brasileiro, nascido em Ipirá, Bahia, em 1938, preside o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), mais antiga e uma das mais importantes instituições culturais do estado, com sede em Salvador.








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