O anúncio da desistência, seguido da confirmação de que o deputado estadual Pablo Roberto (PSDB) é pré-candidato a vice-prefeito em Feira de Santana na chapa majoritária liderada pelo ex-prefeito José Ronaldo (União Brasil), tem profundo reflexo na disputa eleitoral de 2024.
Feira de Santana possui 426.887 eleitores aptos a votar no sufrágio de 6 de outubro. Caso nenhum dos três nomes que postulam a pré-candidatura majoritária — deputado federal José Cerqueira Neto (Zé Neto, PT), o ex-prefeito José Ronaldo (União Brasil)e o empresário Carlos Medeiros (Partido Novo) — atinja o percentual de 50% +1 dos votos válidos totais, ocorrerá um segundo turno no dia 30 de outubro, entre o primeiro e o segundo colocado.
Ao desistir da pré-candidatura a prefeito, Pablo Roberto pontuava com cerca de 11% nas pesquisas de intenção de voto. Enquanto o quarto colocado, Carlos Medeiros (Partido Novo), aparecia com apenas 1% das intenções de voto. Em síntese, a disputa eleitoral estava sinalizando que, caso ocorresse um segundo turno, seria entre Zé Neto (PT) e José Ronaldo (União Brasil). No entanto, o movimento liderado pelo ex-prefeito provocou uma polarização ainda mais acentuada entre as duas propostas de governo para Feira de Santana.
Destaca-se que um novo cenário eleitoral passou a existir em Feira de Santana, e pode-se afirmar que a possibilidade de segundo turno no pleito de 2024 praticamente inexiste. Isso porque seria necessário que o empresário Carlos Medeiros avançasse como uma opção de terceira via política, algo que a trajetória de intenções de voto, até o momento, não apresenta.
A conquista do aliado por José Ronaldo traz inúmeros significados. Pablo Roberto é um ex-petista cuja chegada à Assembleia Legislativa da Bahia ocorreu a partir do protagonismo que conquistou ao ser convidado por José Ronaldo para ser secretário municipal em março de 2017, após ele ter perdido a reeleição de vereador no pleito de 2016. O gesto de Ronaldo foi repetido pelo prefeito Colbert Martins Filho (MDB) em janeiro de 2020. A partir da máquina municipal de governo dominada por ronaldistas, Pablo conquistou o mandato de deputado estadual nas Eleições de 2016.
O primeiro erro
Durante o discurso de adesão à liderança de Ronaldo, Pablo confessou que manteve diálogos com o Governo Estadual. Fontes do Jornal Grande Bahia (JGB) confirmaram ao menos dois encontros entre o deputado e o governador, e que ambos teriam tratado da desistência da candidatura para apoiar Zé Neto. No entanto, a adesão à proposta de Zé Neto como candidato a prefeito não prosperou.
Questiona-se: como, faltando 77 dias para uma eleição que pode ser definida em apenas um turno e contando com os cargos do Governo Lula e Jerônimo, não foi possível conquistar o apoio do parlamentar?
Este parece não ser apenas o primeiro erro na organização da campanha de Zé Neto. Enquanto o parlamentar se divide entre a campanha para prefeito e a atuação no mandato na Câmara, Ronaldo cumpre dezenas de agendas semanais, em encontros que o reaproximam de diversos setores sociais. Esse é o segundo erro da campanha de Neto.
Considerado um dos maiores políticos da história do Brasil e único a vencer pelo sufrágio três eleições para presidente e ainda eleger por duas vezes a correligionária Dilma Rousseff, Lula, em 1º de julho, durante discurso em Feira de Santana, aconselhou o pré-candidato Zé Neto a bater de porta em porta e conversar com as pessoas sobre as propostas para governar a cidade. Mas, a cada dia, a eleição se aproxima, enquanto as possibilidade diretas de diálogo com o povo se esvaem.
Disputa em Feira de Santana tem repercussão estadual
O JGB apurou também que a atuação do ex-prefeito ACM Neto, vice-presidente nacional do União Brasil, foi decisiva para concluir as negociações entre Ronaldo e Pablo, demonstrando que manter Feira de Santana com governo oposicionista à liderança petista no estado é prioridade.
Em busca de descontentes
Neste momento, a campanha de Zé Neto busca conquistar um membro do ronaldismo e aposta no descontentamento que alguns setores tiveram com o ingresso de Pablo na majoritária como vice. Com convenção marcada para 3 de agosto, Zé Neto tem tempo para definir um nome para vice que possa ter repercussão política positiva para ele e negativa para Ronaldo. Em reação, Ronaldo tenta estancar o processo de desentendimento interno, definindo a convenção para o dia 30 de julho.
Certamente, o discurso de críticas que Pablo fez a Ronaldo durante a pré-campanha será explorado, mas isso terá efeito? Opositor histórico do presidente Lula (PT), Geraldo Alckmin (PSB) foi convidado para vice, e isso não afetou significativamente a campanha presidencial.
Novas pesquisas, apoios políticos e propaganda eleitoral gratuita
Neste contexto, o apoio de Pablo Roberto será mensurado quando forem divulgadas as próximas pesquisas, que devem ocorrer após o fim da convenção dos dois pré-candidatos a prefeito. Não obstante, ambos tentam construir uma rede de apoiadores políticos.
É necessário pontuar, também, que Zé Neto conta com um número mais expressivo de apoiadores políticos que detêm elevado poder na máquina pública do Estado e da União; todavia, isso não pesou na escolha de Pablo Roberto. Outro fator que contribui para a campanha do petista é o desgaste do grupo ronaldista após seis gestões no comando do município. Entretanto, mais longevo é o PSDB no controle do governo de São Paulo.
Outro fator que pode trazer uma nova dinâmica à campanha eleitoral é a propaganda gratuita obrigatória, que ocorre nos veículos de mídia que atuam como concessão pública por meio do sistema de radiodifusão na cidade.
Em síntese, cada um dos pré-candidatos — Zé Neto e Zé Ronaldo — possui bases de apoio sólidas. Uma estratégia de comunicação adequada, aliada à influência das mídias sociais e ênfase em temas de campanha específicos, juntamente com reuniões com segmentos sociais, será decisiva para conquistar os eleitores indecisos até o dia 6 de outubro, quando ocorre o primeiro turno das eleições de 2024.
Perfil dos pré-candidatos à prefeito de Feira de Santana
O pré-candidato Zé Neto
Com forte presença nas comunidades locais, Zé Neto tem focado sua campanha em propostas de melhorias na infraestrutura e nos serviços públicos, especialmente saúde e educação. Seu histórico de atuação na Assembleia Legislativa da Bahia e na Câmara dos Deputados, além da conexão com movimentos sociais, têm contribuído para a popularidade entre os eleitores mais jovens e as classes trabalhadoras.
Zé Neto conta com o apoio do presidente Lula (PT), do governador Jerônimo Rodrigues (PT), do ministro Rui Costa (PT), dos senadores Jaques Wagner (PT) e Otto Alencar (PSD), os secretários estaduais Felipe Freitas (Justiça), Roberta Santana (Saúde) e Ângelo Almeida (PSB), secretário de Desenvolvimento Econômico e deputado estadual licenciado, todos os três últimos residentes em Feira de Santana, além de Yuri Guimarães, presidente do PP de Feira de Santana, legenda com maior número de vereadores candidatos à reeleição. Cerca de 10 partidos devem fazer parte da coligação majoritária liderada pelo PT. A convenção municipal está marcada para o dia 3 de agosto, e o candidato a vice-prefeito ainda não foi anunciado.
O pré-candidato José Ronaldo
Ex-prefeito de Feira de Santana, Zé Ronaldo conta com um legado administrativo que inclui projetos de desenvolvimento urbano e políticas de incentivo ao comércio local. Sua campanha atual enfatiza a continuidade e ampliação desses projetos, além de propostas voltadas para a segurança pública e a geração de empregos.
O grupo ronaldista está no poder municipal há cerca de 24 anos, dos quais 14 anos tiveram José Ronaldo como prefeito. Ele conta com o apoio do ex-prefeito de Salvador ACM Neto, vice-presidente nacional do União Brasil; do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL); do prefeito de Salvador, Bruno Reis (UB); do prefeito de Feira de Santana, Colbert Martins Filho (MDB); do vice Fernando de Fabinho (UB); além do ex-governador Paulo Souto (UB); do ex-deputado João Roma, presidente do PL Bahia; e do deputado estadual Pablo Roberto (PSDB), anunciado como vice.
Referências Conceituais
- Polarização Política: A divisão intensa entre grupos políticos com ideologias opostas, dificultando a formação de consensos e aumentando a competitividade eleitoral.
- Governabilidade: A capacidade de um governo em implementar políticas públicas e governar de maneira eficaz, influenciada pela composição das coalizões políticas e apoios parlamentares.
- Máquina Pública: O uso da estrutura e recursos do governo para influenciar resultados eleitorais, através de políticas públicas, distribuição de cargos e benefícios.
- Legado Político: A herança de políticas e realizações de um político ou grupo político, que pode ser utilizada como base de campanha eleitoral para demonstrar competência e experiência.
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Estratégia Eleitoral: O planejamento e execução de ações e campanhas para maximizar o apoio dos eleitores, incluindo alianças, mensagens de campanha e mobilização de recursos.











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