O acordo entre Mercosul e União Europeia, negociado desde 1999, tem como objetivo criar uma grande área de livre comércio abrangendo cerca de 720 milhões de pessoas e representando 20% da economia global. No entanto, as negociações enfrentam entraves substanciais, principalmente devido à resistência da França e às exigências ambientais impostas pela Comissão Europeia.
Desde fevereiro, as negociações estão estagnadas. A França, em particular, tem se oposto ao acordo, enquanto a Comissão Europeia requer condições rigorosas de sustentabilidade, como a taxação de produtos brasileiros que geram CO2. Em uma reunião com o presidente italiano, Sergio Mattarella, em agosto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva expressou a preocupação de que as medidas de carbono da UE poderiam impactar negativamente os principais produtos exportados pelo Brasil.
Uma nova rodada de negociações está marcada para os dias 5 e 6 de setembro. Embora confirmada pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil, a perspectiva de um desfecho imediato é considerada improvável. Miriam Gomes Saraiva, professora de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), observa que as questões que dificultaram o acordo anteriormente permanecem, incluindo a nova “side letter” que amplia o controle da UE sobre questões ambientais no Brasil.
Saraiva destaca que o enfraquecimento do presidente francês Emmanuel Macron pode ter contribuído para sua oposição ao acordo, pois ele não conseguiu enfrentar a oposição interna de grupos que defendem tanto a produção agrícola quanto a proteção ambiental. Ela sugere que o enfraquecimento de Macron poderia, em teoria, levar outros países da UE, como Espanha e Alemanha, a aumentar a pressão sobre a França. No entanto, a influência de Macron ainda é limitada.
Christian Brandão, doutorando em ciência política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), aponta que a baixa disposição da UE para novas liberalizações comerciais é evidenciada pela implementação de medidas como o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira e novas tarifas para carros elétricos chineses. Brandão também ressalta que os movimentos antiglobalização, evidentes nos resultados das últimas eleições para o Parlamento Europeu, complicam ainda mais a aprovação do acordo.
Apoio de economias europeias significativas, como Espanha e Alemanha, pode ajudar na negociação, mas, segundo Saraiva, isso pode não ser suficiente, pois é necessário o apoio de uma maioria na UE e a aprovação dos parlamentos nacionais. Brandão concorda que, embora o apoio da Espanha e da Alemanha seja valioso, ele não é suficiente para garantir a aprovação, dada a complexidade política e o nacionalismo crescente na Europa.
O desafio também se estende ao Brasil, onde setores agropecuários podem resistir às novas exigências europeias. A falta de tecnologia adequada para monitoramento e a pressão interna contra as concessões necessárias para atender às exigências da UE representam obstáculos adicionais.
*Com informações da Sputnik News.








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