A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA) realizou uma coletiva de imprensa em Brasília, na quinta-feira (05/09/2024), para apresentar as perspectivas do setor e discutir os desafios e oportunidades para os próximos anos. O evento, liderado por Márcio Leite, presidente da ANFAVEA, marcou a inauguração da nova sede da entidade na capital federal e contou com a presença de diversas autoridades, incluindo o Vice-Presidente e Ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin.
O presidente da ANFAVEA destacou a importância de uma aproximação contínua entre a indústria automotiva e os três poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário, para garantir que os desafios enfrentados pelo setor sejam compreendidos e solucionados por meio de políticas públicas eficazes. Entre os pontos discutidos, o diálogo com o poder público é visto como um dos principais pilares para fomentar o desenvolvimento da indústria nacional, principalmente em áreas como pesquisa e desenvolvimento, eficiência energética e exportações.
Crescimento nas vendas e resiliência do mercado interno
Apesar de um cenário global incerto e de alguns desafios enfrentados pela produção, como as enchentes no Rio Grande do Sul e paralisações em fornecedores, o setor automotivo brasileiro apresentou um crescimento significativo ao longo de 2024. Em agosto, o setor registrou o melhor desempenho do ano, com média de vendas diárias de 10.800 unidades, superando o mesmo mês de 2023 em 19,5%. Mesmo com oscilações em relação ao mês anterior, o presidente da ANFAVEA ressaltou que as pequenas variações se devem à quantidade de dias úteis para emplacamento.
As vendas acumuladas no ano cresceram cerca de 14%, e a produção de veículos alcançou 260 mil unidades em agosto, reforçando a resiliência da indústria automotiva nacional. O volume de produção coloca o setor em uma trajetória de crescimento estável, com perspectivas otimistas para os próximos meses, especialmente em relação à demanda doméstica, que tem se mantido aquecida com a recuperação econômica pós-pandemia.
Impacto das exportações e mercado internacional: perspectivas para 2024 e além
As exportações de veículos, que no início de 2024 apresentaram um comportamento tímido, começaram a mostrar sinais de recuperação a partir de junho. O volume exportado para mercados-chave, como Argentina, México, Colômbia e Chile, aumentou, com destaque para o crescimento de 48% no mercado argentino, impulsionado por lançamentos de novos modelos e pela desvalorização cambial, o que favoreceu a competitividade dos veículos brasileiros naquele país.
A Argentina, tradicionalmente um dos principais destinos das exportações automotivas brasileiras, apresentou desafios nos últimos anos, mas a recente recuperação do mercado interno argentino traz boas perspectivas para o setor no Brasil. A expectativa é de que, até o final de 2024, o volume exportado para o país vizinho atinja cerca de 400 mil unidades. Além disso, o México também tem mostrado um crescimento consistente, com aumento de 11,9% nas vendas de veículos em agosto. A Colômbia e o Chile, por sua vez, registraram incrementos no consumo, embora o acumulado do ano ainda apresente oscilações.
O presidente da ANFAVEA destacou que as exportações são uma área de grande potencial para a indústria brasileira, mas o cenário global desafiador, com instabilidade econômica e desaceleração em alguns mercados, requer uma atenção contínua. Além disso, o crescimento nas importações de veículos, especialmente elétricos, tem impactado negativamente a balança comercial, e a China despontou como um dos principais exportadores para o Brasil, com um aumento de 339% nas importações de veículos chineses.
Tecnologias e sustentabilidade: o futuro do setor automotivo no Brasil
Durante a coletiva, a ANFAVEA apresentou um estudo detalhado sobre o impacto da descarbonização no setor automotivo brasileiro. Em parceria com a consultoria Boston Consulting Group (BCG), o estudo analisou as tendências globais e locais, projetando um futuro de maior eletrificação e uso intensivo de biocombustíveis. Atualmente, o setor automotivo responde por cerca de 13% das emissões de CO2 no Brasil, o equivalente a 242 milhões de toneladas anuais.
O estudo indica que, se mantido o ritmo atual de emissões, o setor poderá atingir 256 milhões de toneladas de CO2 em 2040. Contudo, com a intensificação de novas tecnologias de propulsão e o aumento do uso de biocombustíveis, o Brasil tem a oportunidade de reduzir essas emissões em até 280 milhões de toneladas nos próximos 15 anos. A partir de 2030, mais de 50% dos veículos vendidos no país deverão ser equipados com tecnologias de eletrificação, como veículos elétricos e híbridos, em combinação com o uso ampliado de biocombustíveis.
O Vice-Presidente Geraldo Alckmin reforçou o compromisso do governo com a sustentabilidade e mencionou que o Brasil tem papel de destaque no cenário global, principalmente por ser um dos maiores produtores de biocombustíveis. Ele destacou, ainda, que o país poderá levar essa agenda para eventos internacionais, como a COP29 e a COP30, além de mencionar a aprovação do Projeto de Lei do Combustível do Futuro, que visa elevar a participação de biocombustíveis em diversos setores, incluindo o aéreo, com o uso de Sustainable Aviation Fuel (SAF).
Infraestrutura para eletrificação e biocombustíveis
Outro ponto de destaque do estudo foi a infraestrutura necessária para apoiar o avanço das tecnologias de eletrificação e biocombustíveis no Brasil. Para que o setor alcance as metas de eletrificação previstas para 2040, será necessário um aumento significativo na produção de energia elétrica, estimado em mais de 50 mil gigawatts por ano. Além disso, o aumento da produção de biocombustíveis, como biodiesel e biometano, será essencial para atender à demanda dos veículos pesados, que deverão incorporar essas tecnologias nos próximos anos.
O Brasil já se posiciona como um dos líderes na produção de biocombustíveis, e o estudo aponta que o país tem capacidade de intensificar o uso de etanol, elevando sua eficiência por meio de melhorias tecnológicas. A combinação entre eletrificação e biocombustíveis é vista como uma estratégia chave para o setor, que poderá evitar a emissão de até 400 milhões de toneladas de CO2 até 2040.
Desafios do setor e o papel das políticas públicas
A ANFAVEA enfatizou que a evolução do setor automotivo depende diretamente de políticas públicas que incentivem a inovação e a sustentabilidade. Entre as medidas já em andamento estão a renovação da frota, programas de reciclagem veicular, maior uso de biocombustíveis e programas de inspeção veicular. Essas ações, combinadas com a intensificação da pesquisa e desenvolvimento, são vistas como fundamentais para que o Brasil possa se manter competitivo no cenário global.
Além disso, a entidade destacou a necessidade de rever a política de importação de veículos elétricos, uma vez que o aumento expressivo das importações, especialmente da China, tem gerado preocupações sobre o impacto no mercado interno. O presidente da ANFAVEA solicitou ao governo a recomposição imediata da alíquota de importação para 35%, com o objetivo de proteger a indústria nacional e evitar distorções no mercado.
Os principais dados do debate promovido pela Anfavea
1. Crescimento do Setor Automotivo
- Vendas diárias: 10.800 unidades/dia em agosto de 2024.
- Crescimento em relação a 2023: 19,5% em comparação com agosto de 2023.
- Vendas acumuladas no ano: Crescimento de 14%.
- Produção de veículos: 260 mil unidades em agosto de 2024.
2. Exportações
- Crescimento nas exportações:
- Argentina: 48% de crescimento no mercado interno argentino.
- México: Crescimento de 11,9% em agosto.
- Colômbia: Crescimento de 11,5%.
- Chile: Estabilidade após queda acumulada.
- Exportações acumuladas do ano: 39.000 unidades exportadas em agosto.
- Impacto da desvalorização cambial na Argentina: Estimulou a competitividade dos veículos brasileiros.
3. Importações
- Aumento das importações: Crescimento de 35% em relação a 2023.
- Origem das importações:
- China: Crescimento de 339% nas importações de veículos.
- Volume de estoque de veículos importados: 81.000 veículos em estoque, principalmente de elétricos.
4. Sustentabilidade e Descarbonização
- Emissões de CO2: Setor automotivo emite 242 milhões de toneladas de CO2/ano (13% das emissões totais do Brasil).
- Projeção de emissões: Aumento para 256 milhões de toneladas de CO2 até 2040, se mantido o ritmo atual.
- Redução possível: O Brasil pode reduzir 280 milhões de toneladas de CO2 nos próximos 15 anos.
- Tecnologias de eletrificação: Até 2030, mais de 50% dos veículos vendidos serão elétricos ou híbridos.
5. Infraestrutura e Biocombustíveis
- Aumento na demanda por energia elétrica: Necessidade de 50.000 gigawatts adicionais por ano até 2040.
- Expansão de biocombustíveis: Aumento de 15 bilhões de litros/ano de biodiesel e biometano até 2040.
- Participação de biocombustíveis nas emissões: O Brasil tem potencial para usar biocombustíveis como principal vetor de descarbonização.
6. Políticas Públicas e Incentivos
- Política de biocombustíveis: Expansão do uso de etanol e biodiesel como parte da estratégia de descarbonização.
- Projeto de Lei do Combustível do Futuro: Visa aumentar a participação de biocombustíveis na aviação e no transporte terrestre.
- Solicitação de recomposição da alíquota de importação: Pedido de aumento imediato para 35% para proteger a indústria nacional de importações excessivas de veículos elétricos.
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