Feira de Santana, um dos principais polos urbanos e econômicos do interior da Bahia, mantém uma relação histórica profunda com as manifestações da cultura popular, entre elas a literatura de cordel, expressão artística que nasceu nas feiras-livres e se consolidou como uma das primeiras formas de comunicação acessível às camadas populares. Em um contexto marcado pelo baixo índice de alfabetização e pela escassez de meios de comunicação, o cordel cumpriu papel central na difusão de histórias, notícias e valores culturais, especialmente em ambientes de comércio e circulação popular.
Ao longo da história feirense, cordelistas, folheteiros e declamadores foram agentes fundamentais desse processo. Enquanto os autores produziam e comercializavam os folhetos, os declamadores ampliavam o alcance da informação ao ler os textos em voz alta, transformando o cordel em uma experiência coletiva. Essa dinâmica consolidou a literatura de cordel como instrumento de comunicação, memória social e identidade cultural, tanto em Feira de Santana quanto em outras regiões do país.
Entre os nomes que marcaram o cordelismo local, destaca-se Franklin Machado, advogado e jornalista que dedicou grande parte de sua trajetória à produção e difusão do cordel. Sua atuação extrapolou os limites do município, levando a literatura popular feirense a outras cidades brasileiras e ao exterior, contribuindo para o reconhecimento do cordel como patrimônio cultural.
Jurivaldo Alves da Silva e a preservação do cordel feirense
Outro personagem central dessa tradição é Jurivaldo Alves da Silva, cordelista e folheteiro que se estabeleceu em Feira de Santana ainda jovem e se tornou um dos principais guardiões da memória do cordel no município. Atualmente, ele mantém um acervo com cerca de 5 mil volumes, muitos deles raros e de elevado valor histórico, no Mercado de Arte Popular, espaço emblemático da cultura local.
Além da preservação do acervo, Jurivaldo desenvolve atividades educativas e culturais, como palestras e encontros temáticos, contribuindo para a formação de novos leitores e para a valorização da literatura popular entre diferentes gerações. Seu trabalho reforça o papel do Mercado de Arte Popular como ponto de encontro entre tradição, educação e identidade cultural.
Ao rememorar a trajetória do cordel em Feira de Santana, Jurivaldo cita nomes que ajudaram a consolidar essa expressão artística no município, como Antônio Alves, reconhecido por transformar acontecimentos cotidianos em narrativas populares, e Erotildes Miranda, autor de obras de elevada qualidade literária. Entre os contemporâneos, ele destaca Nivaldo Cruz e Ademar, representantes de uma nova geração de cordelistas.
Transformações temáticas e uso educacional do cordel
Historicamente, a literatura de cordel esteve associada a temas como cangaço, aventuras épicas, romances e conflitos sociais. Com o passar do tempo, essa produção passou por transformações significativas, acompanhando mudanças sociais e educacionais. Atualmente, observa-se um crescimento de cordéis com temáticas infantis, históricas e pedagógicas, utilizados como ferramentas de apoio ao ensino em escolas e projetos culturais.
Essa adaptação demonstra a capacidade de renovação do cordel, que preserva sua estrutura tradicional — versos rimados e linguagem acessível — ao mesmo tempo em que se atualiza para dialogar com novos públicos e demandas sociais. Em Feira de Santana, essa permanência reforça o vínculo entre cultura popular, educação e memória coletiva.








Deixe um comentário