Reportagem de Felipe Souza, publicada em 13 agosto 2024 na BBC News Brasil, revela que a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) não se limita à violência. Conforme estudo da pesquisadora Camila Nunes Dias para o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o grupo implementa um “censo do crime”, um levantamento sistemático que contabiliza não apenas seus membros, mas também a quantidade e localização de integrantes de facções rivais, organizando-se de modo a ampliar sua influência e poder.
Mapeamento Estratégico do PCC
O estudo revela que o PCC realiza o levantamento com periodicidade de 15 dias, buscando identificar seus aliados e oponentes em cada Estado brasileiro e até em outros países onde opera. O primeiro levantamento conhecido, datado de outubro de 2016, identificou a presença de sete facções nas regiões do Acre, Amazonas e Pará. Essa prática teria se intensificado após o rompimento entre o PCC e o Comando Vermelho (CV), o que gerou um aumento nas disputas por controle territorial em presídios e nas ruas.
Expansão e Planejamento de Recursos
O levantamento realizado pelo PCC permite à facção planejar a distribuição de seus recursos e traçar estratégias de expansão. Em um dos censos, realizado em agosto de 2017, o PCC identificou a presença de 6.000 membros da facção Família do Norte (FDN) no Amazonas, em contraste com apenas 194 integrantes do PCC. Com esses dados, o grupo pode ajustar seus investimentos, aumentando o envio de dinheiro, armas e pessoal para fortalecer sua posição em áreas de baixa influência.
Logística e Coordenação Nacional
A facção paulista se organiza de maneira empresarial, utilizando uma rede hierárquica de lideranças locais, chamadas de “sintonias”, que coletam dados em suas áreas de atuação e os repassam para a liderança central. Essas informações são usadas para definir as próximas ações do grupo, como a necessidade de fortalecer sua presença em determinados territórios ou estabelecer novas alianças. Essa rede de comunicação, apesar de precária, é uma das razões pelas quais o PCC tem se destacado em relação a outras facções.
A Influência da Facção na Região Norte
Na última década, o PCC passou a ver a região Norte do Brasil como uma rota estratégica para o tráfico internacional de drogas, em particular o escoamento da cocaína peruana para a Europa. Esse controle da região modificou não apenas o cenário do crime organizado, mas também a dinâmica social local, incluindo o aumento da violência e a introdução de novas regras em atividades ilegais como garimpo e exploração de madeira.
Conclusão: Expansão Sem Violência Explícita
Embora o PCC seja conhecido por sua violência, o estudo mostra que sua estratégia de expansão tende a evitar confrontos diretos. O uso da força é reservado para situações extremas, enquanto a preferência é pela negociação e cooptação de pequenos grupos criminosos, em troca de apoio financeiro e logístico. Dessa forma, o PCC busca expandir sua influência sem provocar um aumento nos índices de violência, que poderia atrair a atenção indesejada das autoridades.
Principais dados sobre a atuação do PCC
Estratégia do PCC
- Implementação de um “censo do crime” nacional.
- Levantamento realizado a cada 15 dias (periodicidade variável).
- Foco em mapear aliados, rivais e territórios “neutros”.
- Distribuição de recursos, armamento e pessoal com base nos dados coletados.
Organização e Estrutura
- Liderança local denominada “sintonia”, responsável pela coleta e transmissão de dados.
- Rede hierárquica de sintonias estaduais que reportam à cúpula central.
- Cada presídio controlado possui uma sintonia responsável pela facção.
- Censo permite ao PCC planejar expansão e fortalecer territórios estratégicos.
Dados do Levantamento
- Primeiros registros de censo datados de outubro de 2016.
- Identificação de sete facções atuantes em Acre, Amazonas e Pará.
- Em agosto de 2017, o censo identificou 6.000 membros da Família do Norte (FDN) no Amazonas, contra 194 membros do PCC.
- Estados mais frágeis recebem mais recursos e apoio para expansão da facção.
Contexto Regional
- Foco na região Norte do Brasil devido às rotas de tráfico de drogas (Peru-Europa).
- Chegada do PCC à região Norte altera a dinâmica social, econômica e criminosa local.
- Interferência do PCC em atividades ilícitas como garimpo, exploração de madeira e tráfico de animais.
Impacto na Criminalidade
- Crescimento da violência local com a chegada do PCC.
- Facção influencia a cultura e linguagem da criminalidade na região Norte, até mesmo entre comunidades indígenas.
- Armas de maior calibre e métodos mais sofisticados introduzidos na região com a expansão do PCC.
Expansão e Táticas
- O PCC utiliza estratégias de expansão que evitam a violência explícita.
- Foco na negociação e cooptação de grupos menores, em vez de confrontos diretos.
- Exemplo de apoio financeiro e logístico a facções menores para enfrentar rivais, como o caso da guerra entre Guardiões do Estado (GDE) e Comando Vermelho no Ceará.
Dados Sociais
- Mudança nas regras do crime em áreas dominadas pelo PCC, com novas imposições sobre a conduta dos envolvidos em atividades ilícitas.
- Aumento da violência com a chegada de armas mais pesadas e maior controle do crime organizado.











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