A Cúpula do G20, realizada no Rio de Janeiro em novembro de 2024, concluiu-se com a aprovação unânime de um conjunto de compromissos que marcam um marco inédito na história do encontro, destacando iniciativas brasileiras que visam a taxação dos super-ricos e o combate à fome. As 19 maiores economias do mundo, junto com a União Europeia e a União Africana, firmaram o compromisso de integrar a Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza. A proposta também inclui uma reforma da governança global, ações para o combate à emergência climática e o desenvolvimento sustentável, além de um posicionamento firme a favor da taxação dos bilionários. Essas medidas têm o potencial de alterar o rumo das discussões globais e de fortalecer a cooperação entre as nações.
Em entrevista à Sputnik Brasil, o professor de relações internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e da Fundação Getulio Vargas (FGV), Vinícius Rodrigues Vieira, destacou que o Brasil teve mais êxito do que seus predecessores, Indonésia e Índia, ao lograr a assinatura de um documento final com compromissos firmados a nível ministerial. Um dos pontos mais notáveis foi a menção à taxação dos super-ricos, uma pauta que nunca havia sido abordada com tamanha visibilidade desde a criação do G20 em 2008. A proposta visa não apenas tributar as grandes fortunas, mas também reinvestir os recursos arrecadados em projetos voltados à redução da fome em nível global.
A pesquisadora Beatriz dos Santos Abreu, mestre em relações internacionais pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), também comemorou a inserção do tema, ressaltando o impacto potencial de uma proposta tão ampla para a redução das desigualdades sociais. “A proposta de taxação dos ultrarricos e seu possível uso em iniciativas voltadas para a mitigação da fome tem um alcance significativo, o que é inédito em reuniões desse porte”, afirmou Abreu.
Outro aspecto inovador da cúpula foi a introdução do formato G20 Social, que promoveu a participação da sociedade civil nos debates globais. De acordo com os analistas, a inclusão de movimentos sociais camponeses, indígenas e ambientais no processo de decisão é uma estratégia fundamental para a construção de um desenvolvimento sustentável. Vieira pontuou que, nos anos 2000, a sociedade civil teve uma presença marcante em fóruns como a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a ONU, mas, desde a crise financeira global de 2008, esse envolvimento foi diminuindo. Para ele, a continuidade desse formato pode representar um legado importante, se mantido nas próximas edições do encontro.
Késsio Lemos, pesquisador do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE), analisou o papel do Brasil no sucesso da cúpula, especialmente ao garantir a adesão do presidente da Argentina, Javier Milei, a pautas que ele havia criticado antes e durante o evento, como a igualdade de gênero e a taxação das grandes fortunas. Lemos destacou que a condução brasileira foi fundamental para evitar que o encontro fosse marcado por divisões internas, como as que ocorreram anteriormente, quando a Argentina demonstrou resistência às propostas mais progressistas.
No entanto, os analistas alertam para a complexidade do processo e para a fragilidade dos acordos alcançados. A aprovação do documento final, apesar de unânime, deve ser interpretada com cautela. Os compromissos de cúpulas anteriores ainda enfrentam obstáculos significativos para a sua implementação, devido a divergências de interesses entre os países e limitações de recursos. Além disso, o futuro do multilateralismo, no contexto atual de crescente fragmentação geopolítica, ainda é uma questão em aberto.
O professor Vieira ponderou que, apesar dos desafios, a Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza tem potencial para sobreviver, mesmo que enfrente dificuldades provocadas por fatores externos, como a política internacional de Donald Trump. Lemos também alertou para a possibilidade de um maior desengajamento por parte dos Estados Unidos, o que poderia acelerar a fragmentação da ordem global, favorecendo acordos bilaterais em detrimento dos fóruns multilaterais.
Para os especialistas, o G20 ainda é visto como a plataforma mais viável para o fortalecimento do multilateralismo, embora seus mecanismos apresentem falhas estruturais. A crise no Oriente Médio e a disputa pelo petróleo são elementos que devem acirrar a competição geopolítica entre as grandes potências, uma dinâmica que pode impactar diretamente as discussões em encontros como o G20.










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