O retorno de Donald Trump à Casa Branca e os impactos e a direção da nova política externa dos EUA são analisados pelo cientista político Peter D. Feaver

O cientista político Peter D. Feaver analisa em artigo publicado nesta quarta-feira (06/11/2024) na Revista Foreign Affairs a segunda eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos da América (EUA). Segundo o pesquisador, a reeleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos representa uma ruptura significativa na política externa americana. Esse segundo mandato coloca à prova uma estratégia que, ao longo de seu primeiro período, foi marcada pelo transacionalismo e por uma relação tumultuada com o cenário global. A seguir, o Jornal Grande Bahia (JGB) examina os principais eixos de sua abordagem e os impactos potenciais para os EUA e o mundo.

1. O Retorno do Transacionalismo na Política Externa

O segundo mandato de Trump traz de volta o “transacionalismo puro”, caracterizado por decisões pragmáticas que priorizam os interesses dos EUA sem grandes compromissos multilaterais. Essa abordagem, embora similar à de seu primeiro mandato, agora ocorre em um contexto global ainda mais complexo e perigoso, incluindo novas tensões com grandes potências como Rússia e China.

2. Poder Concentrado: Equipe e Dinâmica Interna do Governo

Seleção de Pessoal

A formação de seu gabinete e sua equipe será um dos primeiros sinais do estilo e das intenções de sua nova administração. Com uma tendência a valorizar lealdade acima de experiência, Trump planeja incluir membros como o general aposentado Michael Flynn e Steve Bannon, figuras controversas cujos antecedentes poderiam ter barrado suas indicações sob outra liderança. Há ainda a possibilidade de eliminarem verificações de antecedentes formais, o que pode abrir espaço para pessoas com perfis menos ortodoxos e altamente leais ao presidente.

Facções e Influência Interna

Durante o primeiro mandato de Trump, três facções emergiram entre os nomeados para segurança nacional:

  • Profissionais Convencionais: Mesmo sem alinhamento total com Trump, buscavam implementar a agenda presidencial.
  • Ideólogos de Direita: Conservadores, como John Bolton, que procuravam guiar Trump em direções estratégicas, especialmente contra adversários como o Irã.
  • Aliados Fervorosos de Trump: Considerados “agentes do caos”, focavam em atender aos desejos imediatos do presidente, com pouca preocupação com as implicações.

Essa última facção, que prega mudanças profundas e disruptivas na política nacional e internacional, deve ganhar mais poder e influência neste segundo mandato, refletindo um governo menos moderado e mais alinhado com o radicalismo.

3. Aliados: Diplomacia Transacional e Isolacionismo Relativo

Trump projeta uma diplomacia onde os EUA mantêm relações mais transacionais e pragmáticas com aliados. A estratégia sugere cooperações pontuais, mas evita envolvimentos de longo prazo. Dessa forma, aliados como a Europa Ocidental e o Japão podem buscar alternativas para compensar a menor cooperação americana, explorando parcerias com outras nações e fortalecendo sua própria capacidade de defesa.

4. Adversários: Benefícios para Rússia e China

Rússia e Ucrânia

Trump já declarou intenções de pressionar a Ucrânia a fazer concessões territoriais à Rússia, solidificando os avanços de Vladimir Putin na região. Essa postura reflete uma tentativa de “neutralizar” o conflito e evitar maiores envolvimentos americanos, mas também pode deixar o Leste Europeu vulnerável e gerar tensões com a OTAN.

China e Indo-Pacífico

No caso da China, a relação permanece marcada pela retórica de enfrentamento econômico, com ameaças de tarifas adicionais sobre produtos chineses. No entanto, Trump condicionou seu apoio a Taiwan a um aumento significativo nos gastos militares da ilha, o que pode resultar em uma política menos sustentável. Adversários dos EUA, portanto, como Rússia e China, podem ver oportunidades de exploração de uma América que aparenta retração em algumas áreas enquanto foca suas energias em medidas pontuais de caráter defensivo.

5. Relações Civis-Militares e a Potencial Politização do Exército

O próximo governo Trump poderia também presenciar um aumento na politização das Forças Armadas, promovendo oficiais que comprovem lealdade pessoal ao presidente. Tal cenário indicaria uma quebra na neutralidade tradicional das Forças Armadas, com riscos de decisões políticas interferirem em estratégias de defesa nacional e internacional.

Principais pontos da análise

1. Política Externa Transacional:

  • Prioridade em interesses americanos diretos, menos compromissos multilaterais.
  • Enfoque pragmático com aliados e adversários, possivelmente reduzindo a cooperação internacional.

2. Seleção de Pessoal e Estrutura Interna:

  • Inclusão de figuras controversas e leais.
  • Desvalorização de verificações de antecedentes.
  • Aumento do poder dos “agentes do caos” e radicais pró-Trump.

3. Relação com Aliados:

  • Diplomacia baseada em trocas imediatas e pragmáticas.
  • Aliados devem buscar alternativas para compensar a menor cooperação americana.

4. Relação com Adversários:

  • Pressão sobre Ucrânia para concessões à Rússia.
  • Medidas econômicas pontuais contra a China.
  • Condições específicas para apoio a Taiwan, que poderiam ser insustentáveis.

5. Militarização e Politização:

  • Risco de politização das Forças Armadas e serviços de inteligência.
  • Testes de lealdade ideológica para altos cargos militares.

Perfil biográfico de Peter D. Feaver

Peter D. Feaver é um renomado professor de Ciência Política e Política Pública na Duke University, com uma carreira que alia pesquisa acadêmica de alto impacto ao serviço público. Especializado em segurança nacional, relações civis-militares e confiança pública nas forças armadas, Feaver é autor de várias obras importantes, incluindo Thanks for Your Service: The Causes and Consequences of Public Confidence in the US Military, em que explora os fatores que moldam a confiança do público no exército dos Estados Unidos e as implicações disso para a política e sociedade americanas.

De 2005 a 2007, Feaver atuou como Conselheiro Especial para Planejamento Estratégico e Reforma Institucional no National Security Council (NSC) dos Estados Unidos, durante a administração do presidente George W. Bush. Nesse cargo, ele teve um papel fundamental na formulação de políticas estratégicas e na promoção de reformas institucionais que buscavam responder aos desafios da segurança global e da guerra ao terror. Sua experiência no NSC contribuiu para sua compreensão sobre as dinâmicas de governança e sobre as tensões entre as necessidades de segurança nacional e as demandas de transparência e responsabilidade pública.

Como acadêmico e conselheiro, Feaver também se destaca por seu interesse em como a política pública molda o relacionamento entre civis e militares, um tema central de seu trabalho. Ele é amplamente reconhecido por sua análise crítica sobre as políticas de defesa e segurança e por suas contribuições para o entendimento dos impactos das decisões governamentais em tempos de crise e guerra. Na Duke University, Feaver continua a desenvolver pesquisas, mentorando estudantes e participando de debates sobre temas cruciais para a segurança dos Estados Unidos e para as relações internacionais.

Fonte bibliográfica 

A reportagem “O retorno de Donald Trump à Casa Branca e os impactos e a direção da nova política externa dos EUA são analisados pelo cientista político Peter D. Feaver”, é parte da série de publicações do Jornal Grande Bahia com o tema ‘Fundamental Para Quem Pensa’.

O artigo “Como Trump mudará o mundo: Os contornos e as consequências de uma política externa de segundo mandato”, de autoria de Peter D. Feaver, publicado nesta quarta-feira (06/11/2024) na Revista Foreign Affairs, diz que Donald Trump inicia seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos com a promessa de uma política externa transacional e voltada para interesses imediatos. Apoiado por um quadro de conselheiros ideologicamente alinhados, Trump poderá enfrentar desafios internos e externos, enquanto aliados e adversários aguardam possíveis mudanças nas alianças tradicionais e na postura dos EUA em relação a crises globais.


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