Pesquisador David Harvey analisa o legado de Piero Sraffa e sua crítica à economia neoclássica

Londres (Reino Unido) – Quarta-feira, 23/04/2025No artigo “On Sraffa’s Trail” (Na trilha de Sraffa), publicado na edição 152 da New Left Review, o geógrafo e teórico marxista David Harvey revisita a trajetória intelectual de Piero Sraffa, destacando sua crítica à economia neoclássica e sua influência sobre o pensamento econômico contemporâneo.

Sraffa e a crítica à economia neoclássica

Harvey ressalta que Sraffa, em sua obra Production of Commodities by Means of Commodities (1960), demonstrou que a teoria neoclássica apresenta inconsistências ao tentar explicar a formação de preços e a distribuição de renda com base na escassez e na utilidade marginal. Segundo Harvey, Sraffa evidenciou que os preços relativos dependem das condições de produção e da distribuição prévia de renda, desafiando a lógica marginalista dominante.

Interlocuções com Wittgenstein, Keynes e Gramsci

O artigo destaca as interações de Sraffa com importantes figuras intelectuais do século XX. Com Ludwig Wittgenstein, Sraffa contribuiu para o desenvolvimento da teoria dos jogos de linguagem. Com John Maynard Keynes, influenciou aspectos da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. Além disso, Sraffa desempenhou papel fundamental na preservação e publicação dos Cadernos do Cárcere de Antonio Gramsci, garantindo a disseminação do pensamento do filósofo italiano.

Implicações para a teoria econômica contemporânea

Harvey argumenta que as contribuições de Sraffa continuam relevantes para a crítica da economia política atual. Ao questionar os fundamentos da teoria neoclássica, Sraffa abriu caminho para abordagens alternativas que consideram as relações sociais e as estruturas de produção como centrais na análise econômica. Harvey sugere que a incorporação dessas perspectivas é essencial para compreender as dinâmicas do capitalismo contemporâneo e suas crises recorrentes.

Quem foi Piero Sraffa: Pensador-chave na crítica à teoria neoclássica e herdeiro do pensamento clássico

Piero Sraffa (1898–1983) foi um economista italiano cuja obra desafiou profundamente os fundamentos da teoria econômica neoclássica e lançou as bases para uma reinterpretação do pensamento clássico, especialmente a partir das ideias de David Ricardo e Karl Marx. Embora tenha publicado relativamente pouco ao longo de sua vida, sua influência teórica é vasta e persistente, especialmente entre economistas heterodoxos e marxistas.

Formação e contexto

Sraffa nasceu em Turim, Itália, e estudou direito e economia na Universidade de Turim. Ainda jovem, tornou-se próximo de intelectuais influentes como Antonio Gramsci e Benedetto Croce. Em 1922, publicou uma crítica ao sistema bancário italiano, que chamou a atenção do então ditador Benito Mussolini, levando-o ao exílio. Estabeleceu-se na Inglaterra, onde lecionou na Universidade de Cambridge e se tornou próximo de John Maynard Keynes.

Obra central: Production of Commodities by Means of Commodities (1960)

A contribuição mais importante de Sraffa foi a publicação do livro “Produção de Mercadorias por Meio de Mercadorias: Prelúdio a uma Crítica da Teoria Econômica”, em 1960. Essa obra, elaborada ao longo de três décadas, é uma crítica sistemática à teoria marginalista, que dominava (e ainda domina) a economia ortodoxa.

Teses centrais do livro:

  1. Ressurgimento da teoria do excedente clássico:
    Sraffa retoma a concepção ricardiana segundo a qual o valor das mercadorias pode ser explicado a partir das condições objetivas de produção, sem recorrer à noção de utilidade marginal.

  2. Preço como expressão técnica da produção:
    Em sua análise, os preços relativos derivam das proporções técnicas de insumos (mercadorias usadas para produzir outras mercadorias) e não de preferências subjetivas dos consumidores.

  3. Taxa de lucro e distribuição como dados institucionais:
    A taxa de lucro ou o salário real são determinados exogenamente por fatores sociais ou políticos — ou se toma um como dado para determinar o outro. Isso contrasta com o modelo neoclássico, que trata os dois como determinados simultaneamente por forças de mercado.

  4. Crítica à substitutibilidade entre fatores:
    Sraffa demonstrou que a ideia de uma função de produção agregada com substituição contínua entre trabalho e capital é logicamente inconsistente. Isso deu origem ao “debate do capital”, que desafiou os fundamentos da teoria da distribuição neoclássica.

Legado e influência

Apesar de ter publicado apenas um livro relevante em vida, a obra de Sraffa teve enorme impacto intelectual:

  • Antonio Gramsci:
    Sraffa manteve correspondência com Gramsci durante o período em que este esteve preso pelo regime fascista, ajudando a preservar e divulgar seus escritos. Muitos estudiosos apontam que Sraffa influenciou Gramsci a elaborar seu conceito de hegemonia.

  • Economia pós-keynesiana e neoricardiana:
    Economistas como Joan Robinson, Luigi Pasinetti, Pierangelo Garegnani e Geoffrey Harcourt desenvolveram a tradição neoricardiana a partir das ideias de Sraffa.

  • Debate do capital (Cambridge-Cambridge):
    Sraffa forneceu as bases para a crítica de Cambridge (Inglaterra) à escola de Cambridge (EUA), liderada por Paul Samuelson. Esse debate revelou as fragilidades da teoria neoclássica da distribuição do rendimento e da substituição capital-trabalho.

Marco do pensamento econômico

Piero Sraffa é um marco na história do pensamento econômico por ter resgatado, com rigor lógico e clareza metodológica, as bases da economia clássica e por ter oferecido uma crítica devastadora ao coração da teoria neoclássica. Sua obra permanece atual, especialmente em tempos de crescente desigualdade social e revisões profundas sobre os fundamentos do crescimento econômico.


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