Londres (Reino Unido) – Quarta-feira, 23/04/2025 – No artigo “On Sraffa’s Trail” (Na trilha de Sraffa), publicado na edição 152 da New Left Review, o geógrafo e teórico marxista David Harvey revisita a trajetória intelectual de Piero Sraffa, destacando sua crítica à economia neoclássica e sua influência sobre o pensamento econômico contemporâneo.
Harvey inicia o ensaio com um relato autobiográfico situado em Cambridge, em 1955, quando, ainda estudante, observava com estranhamento a figura enigmática de Sraffa — um economista italiano de comportamento reservado, que pouco publicava e evitava o ensino formal.
Naquele ambiente marcado por tradições aristocráticas e tolerância a excentricidades, Harvey admite que sua geração via com desconfiança figuras como Sraffa, interpretadas como símbolos de um sistema acadêmico ainda preso a privilégios de classe e baixa produtividade aparente.
Essa percepção, contudo, seria posteriormente revista.
Sraffa e a crítica à economia neoclássica
Ao reencontrar a obra de Sraffa anos depois — especialmente Production of Commodities by Means of Commodities (1960) — Harvey reconhece a profundidade de uma contribuição que, à primeira vista, parecia discreta.
Segundo Harvey, Sraffa demonstrou que a teoria neoclássica incorre em inconsistências fundamentais ao tentar explicar preços e distribuição de renda com base na escassez e na utilidade marginal.
Em contraste, Sraffa sustentou que:
- Os preços relativos derivam das condições objetivas de produção
- A distribuição de renda antecede e condiciona a formação dos preços
- A lógica marginalista falha ao ignorar as estruturas sociais e produtivas
Essa abordagem representa uma ruptura com a tradição dominante e recoloca a economia política em um terreno mais próximo de suas origens clássicas, ancoradas em autores como Ricardo.
Interlocuções com Wittgenstein, Keynes e Gramsci
O ensaio também evidencia o papel silencioso, porém decisivo, de Sraffa no diálogo com alguns dos principais intelectuais do século XX:
- Ludwig Wittgenstein: Sraffa influenciou diretamente a formulação da teoria dos jogos de linguagem, ao sustentar que gestos e práticas sociais são formas legítimas de comunicação.
- John Maynard Keynes: Sua interlocução contribuiu para aspectos centrais da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, sobretudo na crítica a pressupostos clássicos simplificados.
- Antonio Gramsci: Sraffa foi peça-chave na preservação e publicação dos Cadernos do Cárcere, assegurando a difusão do pensamento gramsciano no pós-guerra.
Harvey reconhece que essas conexões desmontam a visão inicial de improdutividade, revelando um intelectual cuja influência se deu mais pela densidade crítica do pensamento do que pela quantidade de publicações.
Redescoberta intelectual e impacto acadêmico
A mudança de percepção de Harvey ocorre gradualmente, à medida que ele identifica:
- A centralidade de Sraffa na edição das obras de David Ricardo
- Seu reconhecimento explícito por Keynes
- E, sobretudo, sua influência direta sobre Wittgenstein, que atribuiu a ele ideias fundamentais de Investigações Filosóficas
Diante disso, Harvey revisa não apenas seu julgamento sobre Sraffa, mas também sobre o próprio ambiente de Cambridge, cuja tradição — frequentemente criticada — permitiu a maturação de contribuições intelectuais de longo prazo.
Implicações para a teoria econômica contemporânea
Harvey sustenta que as contribuições de Sraffa permanecem plenamente atuais.
Ao questionar os fundamentos da teoria neoclássica, Sraffa abriu caminho para abordagens que:
- Priorizaram relações sociais e estruturas produtivas
- Recolocaram a distribuição de renda como variável central
- E permitiram uma leitura mais realista das crises recorrentes do capitalismo
Na avaliação de Harvey, ignorar essa tradição crítica equivale a manter a economia contemporânea presa a modelos abstratos, frequentemente incapazes de explicar fenômenos concretos como desigualdade estrutural e instabilidade sistêmica.
Reavaliação histórica e legado intelectual
O texto de Harvey cumpre dupla função: resgatar a figura de Sraffa e, ao mesmo tempo, expor uma falha recorrente do meio acadêmico — a tendência de medir relevância intelectual por produtividade quantitativa imediata.
Sraffa emerge, assim, como um pensador de influência silenciosa, cuja obra, embora enxuta, exerceu impacto profundo e duradouro.
Ao final, a revisão de Harvey é inequívoca: a tradição intelectual que Sraffa representa — rigorosa, estrutural e ancorada na economia política clássica — permanece essencial para compreender o capitalismo contemporâneo, sobretudo em um contexto marcado por crises cíclicas e disputas distributivas cada vez mais intensas.
Quem foi Piero Sraffa: Pensador-chave na crítica à teoria neoclássica e herdeiro do pensamento clássico
Piero Sraffa (1898–1983) foi um economista italiano cuja obra desafiou profundamente os fundamentos da teoria econômica neoclássica e lançou as bases para uma reinterpretação do pensamento clássico, especialmente a partir das ideias de David Ricardo e Karl Marx. Embora tenha publicado relativamente pouco ao longo de sua vida, sua influência teórica é vasta e persistente, especialmente entre economistas heterodoxos e marxistas.
Formação e contexto
Sraffa nasceu em Turim, Itália, e estudou direito e economia na Universidade de Turim. Ainda jovem, tornou-se próximo de intelectuais influentes como Antonio Gramsci e Benedetto Croce. Em 1922, publicou uma crítica ao sistema bancário italiano, que chamou a atenção do então ditador Benito Mussolini, levando-o ao exílio. Estabeleceu-se na Inglaterra, onde lecionou na Universidade de Cambridge e se tornou próximo de John Maynard Keynes.
Obra central: Production of Commodities by Means of Commodities (1960)
A contribuição mais importante de Sraffa foi a publicação do livro “Produção de Mercadorias por Meio de Mercadorias: Prelúdio a uma Crítica da Teoria Econômica”, em 1960. Essa obra, elaborada ao longo de três décadas, é uma crítica sistemática à teoria marginalista, que dominava (e ainda domina) a economia ortodoxa.
Teses centrais do livro:
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Ressurgimento da teoria do excedente clássico:
Sraffa retoma a concepção ricardiana segundo a qual o valor das mercadorias pode ser explicado a partir das condições objetivas de produção, sem recorrer à noção de utilidade marginal. -
Preço como expressão técnica da produção:
Em sua análise, os preços relativos derivam das proporções técnicas de insumos (mercadorias usadas para produzir outras mercadorias) e não de preferências subjetivas dos consumidores. -
Taxa de lucro e distribuição como dados institucionais:
A taxa de lucro ou o salário real são determinados exogenamente por fatores sociais ou políticos — ou se toma um como dado para determinar o outro. Isso contrasta com o modelo neoclássico, que trata os dois como determinados simultaneamente por forças de mercado. -
Crítica à substitutibilidade entre fatores:
Sraffa demonstrou que a ideia de uma função de produção agregada com substituição contínua entre trabalho e capital é logicamente inconsistente. Isso deu origem ao “debate do capital”, que desafiou os fundamentos da teoria da distribuição neoclássica.
Legado e influência
Apesar de ter publicado apenas um livro relevante em vida, a obra de Sraffa teve enorme impacto intelectual:
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Antonio Gramsci:
Sraffa manteve correspondência com Gramsci durante o período em que este esteve preso pelo regime fascista, ajudando a preservar e divulgar seus escritos. Muitos estudiosos apontam que Sraffa influenciou Gramsci a elaborar seu conceito de hegemonia. -
Economia pós-keynesiana e neoricardiana:
Economistas como Joan Robinson, Luigi Pasinetti, Pierangelo Garegnani e Geoffrey Harcourt desenvolveram a tradição neoricardiana a partir das ideias de Sraffa. -
Debate do capital (Cambridge-Cambridge):
Sraffa forneceu as bases para a crítica de Cambridge (Inglaterra) à escola de Cambridge (EUA), liderada por Paul Samuelson. Esse debate revelou as fragilidades da teoria neoclássica da distribuição do rendimento e da substituição capital-trabalho.
Marco do pensamento econômico
Piero Sraffa é um marco na história do pensamento econômico por ter resgatado, com rigor lógico e clareza metodológica, as bases da economia clássica e por ter oferecido uma crítica devastadora ao coração da teoria neoclássica. Sua obra permanece atual, especialmente em tempos de crescente desigualdade social e revisões profundas sobre os fundamentos do crescimento econômico.








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