A sabedoria da impermanência: o olhar de Monja Coen e a filosofia estoica sobre o valor do passado

Em uma reflexão, a Monja Coen afirmou:

“Não há nada pra jogar fora, nada pra dizer: isso foi inadequado. Sim, tiveram erros, tiveram acertos, corrigiu-se os erros e isso vai traçando a tapeçaria da vida.”

A declaração sintetiza, de forma simples e direta, um dos princípios mais profundos do budismo e da filosofia estoica: a aceitação da impermanência como alicerce para a construção do presente e do futuro.

Em tempos de culto à performance, autocobrança exacerbada e cancelamentos públicos ou pessoais, essa visão contracorrente propõe a dignidade do caminho vivido — sem a exclusão dos tropeços. O passado, com suas imperfeições, não deve ser renegado, mas compreendido como parte da formação do que se é no agora.

O tempo como mestre: budismo e estoicismo convergem

A abordagem da Monja Coen encontra eco na tradição estoica. Para Sêneca, “nenhum vento sopra a favor de quem não sabe para onde vai”. No entanto, os estoicos jamais negaram os desvios de rota — eles os integravam à disciplina do aperfeiçoamento. Segundo Epicteto, o que está em nosso poder não é o passado ou o outro, mas nossa resposta interior a tudo o que nos acontece. A impermanência, nesse sentido, não é fraqueza, mas força: a realidade muda, e mudar com ela é sabedoria.

Ao dizer que “isso é importante. Porque o que somos agora é o que está criando o que será”, Monja Coen ecoa a máxima estoica de Marco Aurélio: “A vida de cada um é o que seus pensamentos fazem dela”. O tempo presente é o único terreno de ação, mas ele é alimentado pelas raízes do passado. Rancor ou vergonha por erros cometidos são, nessa visão, ilusões que paralisam. A lucidez consiste em aceitar com humildade os fatos e usar cada cicatriz como insígnia de aprendizado.

O valor do erro como matéria da existência

A cultura contemporânea muitas vezes impõe o ideal da “versão melhorada de si mesmo”, mas esquece que ninguém floresce sem enfrentar o inverno da própria história. A tapeçaria da vida, como bem observou a monja, é feita de fios tortos, remendos e cores que não combinam — mas que, ao final, compõem um desenho único e legítimo.

Essa visão se opõe frontalmente à lógica utilitarista que descarta experiências ou relações “inúteis”. Tanto o budismo quanto o estoicismo defendem que não há acontecimento irrelevante, desde que se esteja disposto a extrair dele um sentido. A impermanência, portanto, não é uma ameaça à estabilidade, mas uma convocação à maturidade.

Passado como semente, não como prisão

Ao relativizar julgamentos morais sobre episódios pretéritos, a Monja Coen adverte contra o uso do passado como justificativa para o ressentimento ou autossabotagem. O estoicismo, por sua vez, recomenda a prática da prohairesis — o domínio racional sobre as paixões que nos desequilibram. Ambas as tradições indicam que não é possível controlar os eventos, mas é possível cultivar a serenidade diante deles.

Essa atitude também responde à crise de sentido vivida por muitos, especialmente em tempos de redes sociais, onde o histórico pessoal é vasculhado como evidência de caráter. A sabedoria da impermanência sugere outro caminho: reconhecer que somos um processo, não um produto final. E que esse processo se constrói com tudo o que fomos — inclusive com os equívocos.


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