O ex-comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Júnior, confirmou nesta quarta-feira (21/05/2025) em depoimento ao Supremo Tribunal Federal (STF) que o general Freire Gomes, então comandante do Exército, teria advertido o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em 2022, de que poderia prendê-lo caso insistisse em ações golpistas após a vitória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Durante a oitiva realizada nesta quarta-feira (21/05/2025), Baptista Júnior relatou que Freire Gomes comunicou calmamente a Bolsonaro que, caso avançasse com medidas inconstitucionais, teria de ser detido. O ex-comandante da Aeronáutica afirmou:
“Se fizer isso, vou ter que te prender.”
Segundo Baptista Júnior, a fala foi feita sem agressividade, mas com clareza sobre as consequências jurídicas de um eventual golpe de Estado. Ele negou qualquer divergência com o conteúdo do depoimento prestado por Freire Gomes dois dias antes, reforçando que ambos alertaram o então presidente dos riscos legais de sua conduta.
Militares discutiram minuta golpista em reuniões com Bolsonaro
De acordo com o ex-comandante da FAB, as tratativas golpistas ocorreram em duas reuniões — a primeira em 7 de dezembro de 2022, com a presença de Bolsonaro, e a segunda em 14 de dezembro, liderada pelo então ministro da Defesa, general da reserva Paulo Sérgio Nogueira.
Durante os encontros, foi apresentada a chamada “minuta do golpe”, que propunha a não posse do presidente eleito. Baptista Júnior relatou ter rejeitado veementemente o conteúdo do documento, afirmando que deixou a reunião em protesto, ao contrário do então comandante da Marinha, almirante Almir Garnier Santos, que teria se mantido em silêncio.
“Não admito sequer receber este documento. Não ficarei aqui”, afirmou o brigadeiro em depoimento.
Apoio da Marinha a Bolsonaro é citado no depoimento
Um dos pontos mais sensíveis do depoimento foi a menção à posição da Marinha, sob o comando do almirante Garnier. Segundo Baptista Júnior, Garnier teria indicado que colocaria as tropas da Marinha à disposição de Bolsonaro, numa atitude distinta da adotada pelo Exército e pela Aeronáutica.
“Infelizmente, o almirante Garnier não estava na mesma postura que Freire Gomes e eu”, afirmou o ex-chefe da FAB, sinalizando divergência interna nas Forças Armadas diante da crise institucional.
Depoimento reforça base da denúncia sobre tentativa de golpe
As declarações de Baptista Júnior e de Freire Gomes integram a base da denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) no STF, no âmbito da investigação sobre tentativa de golpe de Estado. A peça inclui elementos sobre a minuta do golpe, o comportamento de Bolsonaro e o posicionamento dos comandos militares no fim do mandato.
Baptista Júnior relatou à Polícia Federal que deixou claro a Bolsonaro que a Aeronáutica não apoiaria nenhuma tentativa de ruptura institucional. Declarou ainda que o limite de sua atuação estava fixado no dia 1º de janeiro de 2023, data da posse do presidente eleito.
Contexto da crise institucional nas Forças Armadas
A nomeação de Baptista Júnior para o comando da FAB em 2021 ocorreu após a demissão do então ministro da Defesa, Fernando Azevedo, e a consequente saída simultânea dos chefes das três Forças. A crise refletia o descontentamento dos militares com a postura do presidente durante a pandemia e sua tentativa de utilizar politicamente as Forças Armadas.
À época, o brigadeiro foi identificado por setores da opinião pública como alinhado ao bolsonarismo, em razão de suas manifestações em redes sociais. Contudo, seu depoimento à PF e ao STF marca um reposicionamento institucional, ao reforçar sua oposição a qualquer tentativa de golpe.
Linha do Tempo – Tentativa de Golpe e Depoimentos dos Militares ao STF
29 de outubro de 2022 (sábado)
Segundo turno das eleições presidenciais.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é eleito presidente da República, derrotando Jair Bolsonaro (PL).
31 de outubro de 2022 (segunda-feira)
Início de manifestações de contestação aos resultados eleitorais por grupos bolsonaristas, com bloqueios de rodovias e acampamentos em frente a quartéis pedindo intervenção militar.
07 de dezembro de 2022 (quarta-feira)
Primeira reunião com chefes militares e apresentação da minuta golpista.
O então presidente Jair Bolsonaro teria apresentado aos comandantes das Forças Armadas um documento que previa a não posse de Lula, solicitando apoio para invalidar o resultado das eleições.
14 de dezembro de 2022 (quarta-feira)
Nova reunião no Ministério da Defesa.
O general da reserva Paulo Sérgio Nogueira, ministro da Defesa, teria apresentado novamente o documento golpista, tentando convencer os comandantes militares a aderirem ao plano.
O brigadeiro Baptista Júnior se retira da reunião, declarando que não aceitaria sequer receber o documento.
Dezembro de 2022 (sem data exata revelada)
Advertência de prisão a Bolsonaro.
O general Freire Gomes, comandante do Exército, teria dito ao presidente que, caso ele insistisse em executar o plano de golpe, teria de ordenar sua prisão.
01 de janeiro de 2023 (domingo)
Posse de Lula.
Luiz Inácio Lula da Silva toma posse como presidente da República. A tentativa de ruptura institucional não se concretiza.
Janeiro a fevereiro de 2024
Investigações da Polícia Federal.
Depoimentos sigilosos de ex-comandantes militares são colhidos, revelando detalhes das reuniões e das tratativas do entorno de Bolsonaro.
19 de maio de 2025 (segunda-feira)
Depoimento do general Freire Gomes ao STF.
Ex-comandante do Exército declara que alertou Bolsonaro sobre consequências jurídicas de atos inconstitucionais, mas nega ameaça direta de prisão.
21 de maio de 2025 (quarta-feira)
Depoimento do brigadeiro Carlos Baptista Júnior ao STF.
Ex-chefe da Aeronáutica confirma a fala de Freire Gomes sobre a possível prisão de Bolsonaro.
Relata também que o então comandante da Marinha, almirante Garnier, demonstrou disposição em apoiar Bolsonaro, colocando as tropas navais à disposição do presidente.
Atualidade – maio de 2025
Investigação no STF avança.
Depoimentos de ex-comandantes embasam a denúncia da PGR contra Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
O caso reforça o papel institucional de setores das Forças Armadas em rejeitar a ruptura democrática.
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