Popularidade dos bebês reborn impulsiona debate sobre afeto, fantasia e saúde mental

Quarta-feira, 21/05/2025 — O crescimento do interesse por bebês reborn, bonecos hiper-realistas que reproduzem com fidelidade recém-nascidos, tem despertado discussões sobre as motivações psicológicas que envolvem seu uso. Embora não sejam brinquedos comuns, essas figuras vêm sendo adquiridas principalmente por mulheres adultas, muitas vezes como substitutos simbólicos de vínculos afetivos.

De acordo com Valéria Figueiredo, psicóloga e professora da Estácio, o fenômeno deve ser analisado sob a ótica da cultura contemporânea. Para ela, os bebês reborn emergem em uma sociedade marcada pela centralidade da imagem e pelo deslocamento de significados.

Vivemos uma inflação semiótica, em que o simbólico se descola do concreto. O real perde espaço para o hiper-real”, afirma.

Nesse contexto, o boneco não representa apenas um objeto lúdico, mas sim uma forma simbólica de expressar necessidades emocionais profundas, como o desejo de cuidar, a elaboração do luto ou a compensação por experiências afetivas não vividas.

Funções terapêuticas e expressão emocional

Segundo a psicóloga, o apego ao bebê reborn pode ter múltiplos significados. Um dos mais recorrentes está ligado ao instinto de cuidado. Em mulheres que enfrentaram perdas gestacionais, não puderam ter filhos ou passaram pela chamada síndrome do ninho vazio, o boneco pode servir como canal de expressão do maternar, preenchendo simbolicamente a ausência.

Outro uso frequente está vinculado à elaboração do luto. A semelhança com um bebê real pode facilitar a exteriorização do sofrimento emocional, funcionando como um objeto de transição. No entanto, Valéria adverte que, nesses casos, é essencial o acompanhamento profissional:

“A fantasia não deve substituir a realidade da perda. Caso contrário, o processo de luto pode ser bloqueado.”

Solidão, controle e vínculos digitais

A solidão contemporânea também surge como fator relevante. Em uma sociedade marcada por relações frágeis e digitalizadas, o bebê reborn pode representar companhia, rotina e controle. “Mesmo inanimado, ele gera interações, especialmente em comunidades online, e oferece previsibilidade emocional, ausente nas relações humanas”, afirma a especialista.

Em certos casos, o reborn supre a necessidade de vínculo com algo que não impõe riscos, evitando frustrações, rejeições e conflitos inerentes aos laços humanos.

Limites entre fantasia e sofrimento psíquico

Apesar das possíveis funções terapêuticas, o uso excessivo ou desregulado do bebê reborn pode indicar sofrimento psicológico.

Quando o vínculo com o boneco substitui relações humanas reais, é sinal de que há uma tentativa de fuga emocional”, alerta Valéria.

A presença de transtornos de apego, traumas não elaborados ou dificuldades de socialização pode ser camuflada por esse tipo de substituição simbólica.

A psicóloga destaca que o uso do bebê reborn não deve ser estigmatizado, mas compreendido com profundidade clínica.

Empatia e escuta qualificada são fundamentais para identificar quando há um recurso simbólico saudável e quando há necessidade de intervenção terapêutica.”

O que são Bebês Reborn

Bebês reborn são bonecos hiper-realistas que imitam com grande fidelidade bebês recém-nascidos, tanto em aparência quanto em peso, textura e proporções corporais. Produzidos artesanalmente a partir de moldes de vinil ou silicone, esses bonecos são pintados e montados manualmente, com aplicação individual de fios de cabelo, veias aparentes, unhas realistas e expressões faciais minuciosamente elaboradas.

O termo “reborn” vem do inglês e significa “renascido”, fazendo referência ao processo de transformação de um boneco comum em uma peça artística com características realistas, por meio da chamada técnica de reborning, desenvolvida nos Estados Unidos na década de 1990.

Finalidades e usos

Embora possam ser adquiridos como itens de coleção, os bebês reborn vêm ganhando espaço também como:

  • Objetos terapêuticos, especialmente em contextos de luto, infertilidade ou síndrome do ninho vazio;

  • Instrumentos pedagógicos, para simular o cuidado neonatal em cursos de enfermagem e obstetrícia;

  • Suportes afetivos, em especial para pessoas idosas com demência ou solidão crônica;

  • Itens de afeto simbólico, utilizados por pessoas que buscam conforto emocional em rotinas de cuidado.

O fenômeno tem gerado debates sobre os limites entre realidade e fantasia, sobretudo quando os bonecos são tratados como bebês vivos em interações públicas ou familiares.

Valor de mercado

Os bebês reborn podem custar de R$ 500 a mais de R$ 10 mil, dependendo do grau de realismo, da técnica empregada e do artista responsável. Há comunidades especializadas, feiras, ateliês e até “certidões de nascimento” emitidas para os bonecos.

Dependência emocional

Psicólogos e profissionais de saúde mental reconhecem que o uso de bebês reborn pode ser positivo em certos contextos terapêuticos, mas alertam para os riscos de dependência emocional ou substituição simbólica disfuncional, quando o boneco passa a ocupar o lugar de relações humanas essenciais.

Assim, compreender o fenômeno dos bebês reborn exige uma abordagem multidisciplinar, envolvendo arte, cultura, psicologia, saúde e ética.

O fenômeno dos bebês reborn reflete demandas emocionais contemporâneas, muitas vezes invisibilizadas. Ao reproduzirem com fidelidade um recém-nascido, esses bonecos ultrapassam a função estética ou lúdica, servindo como canal simbólico para lidar com afetos reprimidos, perdas e desejos não realizados. No entanto, quando substituem interações humanas reais, podem sinalizar processos de sofrimento psíquico que exigem atenção clínica.


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