Complexo de vira-lata | Por Luiz Holanda

Criado pelo jornalista e escritor, Nelson Rodrigues, o termo “complexo de vira-lata” define a falta de autoestima dos brasileiros com o próprio país e para com si próprios. Depois que essa expressão ficou conhecida, somos vistos como seres menores em qualquer lugar do planeta. Até mesmo nossas altas autoridades contribuem para esse fato, pois quando se referem ao Brasil usam expressões como “esse país” ou “neste país”, as quais criam uma ideia subjetiva de que o autor do comentário não pertence ao país, mas conhece e vive em outro, já que quando alguém diz que “este lugar não é bom”, é porque conhece, vive ou viveu em outros melhores.

Na Segunda Guerra mundial fomos para a Europa cheio de patriotada, imaginando que poderíamos mudar o destino da guerra, mas ao chegarmos no norte da Itália, completamente despreparados, tivemos que ser treinados pelos americanos para podermos entrar em ação. Naquela época não havia homens suficientes que preenchessem os requisitos de ter pelo menos 60 quilos, 1,60 metro de altura e 26 dentes. Além disso, o convocado precisava saber ler mapas e utilizar bússolas, coisa que a maioria dos nossos pracinhas ignorava. Mesmo assim, conseguimos reunir 25 mil homens.

A Alemanha nazista, em 1942, afundou 6 navios brasileiros e matou 607 pessoas. Até ao final do conflito os alemães afundaram 31 embarcações nacionais, muito embora Getúlio Vargas, que comandava o país na época, preferia apoiar o Eixo Roma-Berlim. A opinião pública o fez mudar de atitude. Os Estados Unidos prometeram ajudar o Brasil com uma importante posição no futuro conselho da ONU, coisa que jamais aconteceu, bem como a construção de uma siderurgia que realmente aconteceu: a atual CSN, de Volta Redonda. Partimos então para a guerra com o nome de Força Expedicionária Brasileira (FEB), direto para Nápoles, onde fomos incorporados ao 5º Exército americano. Nossos soldados não conheciam direito seus armamentos e os oficias precisaram aprender uma maneira de organizar seus batalhões em sintonia com as táticas de guerra modernas. Não foi sem razão que, por três vezes, tentamos tomar Monte Castelo, e que somente na quarta conseguimos ter nossa vitória mais famosa.

Na Itália tivemos 239 dias de combates contra 10 divisões alemãs e 3 divisões italianas. Capturamos 20,5 mil prisioneiros. Em compensação, tivemos quase 2 mil baixas, mais de 400 mortos e cerca de 1,5 mil feridos. O regresso foi amargo, pois embora os expedicionários tenham sido recebidos com chuvas de papel picado nas ruas do Rio e de São Paulo, a FEB foi considerada um estorvo para o governo, já que sua imagem se associava à luta pela democracia e o país vivia no regime da ditadura Vargas. A ordem era a desmobilização total. Até o fim da guerra, em setembro de 1945, nossos pracinhas foram proibidos de fazer declarações públicas e de andar nas ruas com seus uniformes, medalhas e condecorações. Mesmo assim, sua participação no conflito contribuiu para a queda de Vargas, apesar de poucos tirarem proveito disso, a não ser os generais Castelo Branco, primeiro presidente do regime militar, Cordeiro de Farias, seu ministro e o general Golbery do Couto e Silva, criador do Serviço Nacional de Informações (SNI).

O ranço contra a FEB durou até a redemocratização, quando ela passou a ser vista como uma expedição merecedora do respeito da nação, ao ponto da atual Constituição (1988) assegurar a cada pracinha uma pensão e assistência médica vitalícia. Nessa época, menos de 10 mil estavam vivos. Mas não foi o despreparo deles que nos legou o complexo de vira-latas. Essa ideia de que somos inferiores vem desde o século XIX, quando o conde francês, Arthur de Gobineau, desembarcou no Rio de Janeiro e chamou os cariocas de “verdadeiros macacos”, e que, além de mestiços, vivemos nos trópicos, onde o clima é quente e úmido, predispondo seus habitantes à preguiça e à luxúria. Quando Monteiro Lobato publicou Urupês, em 1918 (onde retrata o “Jeca Tatu”), nossa elite tentava achar uma causa para o nosso “atraso”. Tempos depois a imprensa divulgou os estudos de saúde pública encomendados por Oswaldo Cruz demonstrando que nossa “falta de vigor” vinha das más condições sanitárias vigentes no interior do país, além da “indolência” nata dos brasileiros. Como prova é que o Jeca Tatu de Lobato, depois de curado “pela ciência”, se tornou capaz de desbancar a produção do seu próspero vizinho, um imigrante italiano. No campo científico somos conhecidos como um país que, pelo menos, inventou o aeróstato e o avião, o que não é pouca coisa. Mesmo assim, somos contestados. Para os europeus (e na América do Sul para os argentinos que nos chamam de macacos), continuamos sendo um país de vira-latas. E o pior é que nada fazemos para mudar isso.

*Luiz Holanda, advogado e professor universitário.


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