Crise global de deslocamento forçado atinge 122,1 milhões e desafia políticas humanitárias nas Américas

Na quinta-feira (12/06/2025), o Relatório Anual de Tendências Globais, publicado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), revelou que 122,1 milhões de pessoas estavam deslocadas à força no mundo até abril de 2025, o maior número já registrado. A cifra representa o décimo ano consecutivo de aumento, impulsionado por conflitos armados prolongados, como os do Sudão, Mianmar, Ucrânia e Síria.

O documento evidencia que 60% dos deslocamentos forçados ocorrem dentro do próprio país de origem. Em 2024, os deslocados internos chegaram a 73,5 milhões, enquanto os refugiados que cruzaram fronteiras somaram 42,7 milhões. O Sudão passou a liderar o ranking global de deslocamento, com 14,3 milhões de pessoas, ultrapassando a Síria, que contabiliza 13,5 milhões.

Realidade nas Américas: aumento de deslocamentos e impacto socioeconômico

No continente americano, o relatório aponta que 21,9 milhões de pessoas estavam deslocadas à força até o fim de 2024, representando 17,6% do total mundial. Os principais fatores incluem violência urbana, instabilidade política e violações de direitos humanos, especialmente em países como o Haiti, onde o número de deslocados internos triplicou em 2024, e Colômbia, que abriga cerca de 7 milhões de deslocados internos.

Segundo José Samaniego, diretor regional do ACNUR para as Américas, apesar da severidade do cenário, diversos países latino-americanos mantêm políticas de portas abertas, com destaque para ações de proteção, estabilização e integração.

Brasil é citado como exemplo de liderança regional

O representante do ACNUR no Brasil, Davide Torzilli, destacou a liderança brasileira em iniciativas humanitárias, citando a realização da Conferência Nacional de Migrações, Refúgio e Apátridas (Comigrar), a Estratégia de Interiorização da Operação Acolhida, que já beneficiou cerca de 150 mil venezuelanos, e o Programa Brasileiro de Reassentamento para afegãos como exemplos concretos.

Torzilli afirmou que essas políticas reforçam o compromisso brasileiro com o acolhimento digno, contribuindo diretamente para a integração econômica e social dos refugiados.

Contribuições de refugiados para economias locais

O ACNUR enfatizou que refugiados e migrantes contribuem para o crescimento econômico nos países de acolhida, especialmente na América Latina e no Caribe. Estudos citados no relatório mostram que esses grupos promovem:

  • Aumento do PIB nacional;

  • Criação de micro e pequenas empresas formais;

  • Contribuições para a arrecadação fiscal;

  • Reforço dos sistemas de seguridade social.

Segundo Samaniego, a inclusão efetiva dessas populações deve ser encarada como oportunidade econômica, e não apenas como dever humanitário.

Crise de financiamento ameaça continuidade da ajuda humanitária

Apesar da escalada no número de deslocados, os recursos destinados ao ACNUR permanecem no mesmo patamar de 2015, refletindo reduções drásticas no financiamento humanitário global. Esse descompasso compromete programas essenciais nas Américas, como assistência jurídica, documentação, apoio à saúde e integração local.

Nas palavras de Samaniego, “o apoio contínuo da comunidade internacional é essencial para garantir proteção e soluções duradouras às populações deslocadas, diante do esgotamento das estruturas de assistência”.

Principais dados

Dados globais

  • Total de pessoas deslocadas: 122,1 milhões (abril/2025)

  • Refugiados em outros países: 42,7 milhões

  • Deslocados internos: 73,5 milhões

  • Principais países afetados: Sudão (14,3 mi), Síria (13,5 mi), Afeganistão (10,3 mi), Ucrânia (8,8 mi)

Dados nas Américas

  • Total de deslocados: 21,9 milhões

  • Haiti: mais de 1 milhão de deslocados internos

  • Colômbia: cerca de 7 milhões de deslocados internos

  • Brasil: cerca de 150 mil venezuelanos interiorizados via Operação Acolhida

Dados sobre financiamento

  • Nível de financiamento do ACNUR: equivalente ao de 2015

  • Programas afetados: saúde, documentação, subsistência, integração


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