PF conclui que Jair Bolsonaro e Carlos Bolsonaro integravam Organização Criminosa na ABIN: Detalhes do Caso da Abin Paralela

O relatório final da Polícia Federal sobre o caso "Abin Paralela", divulgado nesta quarta-feira, 19/06/2025, concluiu que Jair Bolsonaro e Carlos Bolsonaro integravam uma organização criminosa que utilizou a Abin para espionagem clandestina de opositores. O inquérito resultou no indiciamento de cerca de 30 pessoas, incluindo Carlos Bolsonaro e Alexandre Ramagem. A PF indicou que o ex-presidente foi o principal beneficiário das ações e que a agência foi usada para descreditar o sistema eleitoral. O caso tem desdobramentos conectados a outras investigações sobre trama golpista e obstrução da justiça.

A Polícia Federal (PF) concluiu que o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu filho, Carlos Bolsonaro, integraram uma organização criminosa com o objetivo de coordenar ações de espionagem clandestina contra opositores, utilizando a Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Essa é a principal constatação do relatório final da investigação do caso conhecido como “Abin Paralela”, que detalha um esquema de uso político da agência de inteligência. As informações foram divulgadas na quarta-feira (19/06/2025), pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O documento, cujo sigilo foi retirado nesta quarta-feira pelo ministro Alexandre de Moraes, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), resultou no indiciamento de aproximadamente 30 investigados. Entre os nomes listados, destacam-se Carlos Bolsonaro e o ex-diretor da Abin, Alexandre Ramagem. O ex-presidente Jair Bolsonaro não foi indiciado neste inquérito específico, pois as acusações relativas ao uso da Abin já são parte de uma ação penal sobre a trama golpista, em trâmite no STF, onde ele já responde por organização criminosa.

O Esquema de Espionagem e Seus Alvos

As investigações da PF revelaram o uso ilegal e sistemático da estrutura da Abin para monitorar indivíduos que se opunham ao que foi denominado de “núcleo político”, formado por Jair e Carlos Bolsonaro. O relatório aponta a existência de um “núcleo de propagação de desinformação” dentro da agência, encarregado da produção e disseminação de informações direcionadas a desacreditar ou prejudicar desafetos políticos.

Entre os nomes de destaque que, conforme a investigação, foram monitorados ilegalmente, estão o ministro Alexandre de Moraes, os ex-deputados Jean Willys, Rodrigo Maia, Joyce Hasselmann, o ex-governador de São Paulo João Dória e os jornalistas Leandro Demori e Mônica Bergamo. A PF ressalta que essas ações tinham um objetivo claro: “As evidências colecionadas ao longo da presente investigação não deixam dúvidas sobre a existência de um núcleo de propagação de desinformação, responsável pela produção e desinformação direcionada contra aqueles que se opusessem de forma contrária ao intento do núcleo político”.

Para os investigadores, Jair Bolsonaro foi o principal beneficiário dessas ações clandestinas. O relatório afirma: “Jair Messias Bolsonaro figura como o principal destinatário do produto das ações clandestinas e da instrumentalização da Abin”. Além disso, a apuração indicou que a estrutura ilegal da Abin não se limitou à espionagem de opositores. Ela também foi utilizada para a propagação de desinformação com o objetivo de descreditar o sistema eleitoral, incluindo ações para influenciar o resultado das eleições presidenciais de 2022. “Esta estrutura utilizou-se dos recursos da agência para atender interesses particulares de ordem política, incluindo ações destinadas a influenciar o resultado das eleições presidenciais de 2022”, detalha a PF.

Envolvimento da Cúpula da Abin e Uso de Tecnologia

A implementação das ações clandestinas ocorreu durante a gestão do ex-diretor da Abin, Alexandre Ramagem. O relatório indica que a operação contou com a colaboração de policiais federais e outros servidores de confiança que estavam cedidos ao órgão. Um elemento central no esquema foi a utilização ilegal do programa de monitoramento Firstmile.

Ramagem, que é réu na ação penal da trama golpista e foi indiciado neste novo inquérito, nega as acusações. Em depoimento anterior, ele afirmou que o sistema Firstmile deixou de ser utilizado pela Abin em 2021, um ano antes do período das principais acusações da PF, e que nunca utilizou o órgão para monitorar ilegalmente autoridades. Ele também negou ter enviado informações sobre urnas eletrônicas a Bolsonaro.

Além de Ramagem, a investigação da PF também indiciou a atual cúpula da Abin, incluindo o diretor-geral, Luiz Fernando Correa, e o corregedor José Fernando Moraes Chuy. A acusação contra eles é de tentativa de obstrução da investigação sobre a “Abin Paralela”. A PF descreve que “Este núcleo atuou para dificultar as investigações sobre a ORCRIM da gestão anterior, por meio de estratégias conjuntas com investigados, recalcitrância na entrega de provas (logs), ações para assediar e desacreditar a ex-corregedora, omissão sobre operações ilegais e potencial manipulação de informações e procedimentos internos”.

Próximos Passos Jurídicos e Reações Políticas

Com a conclusão do inquérito e a entrega do relatório final ao ministro Alexandre de Moraes, o próximo passo é o envio do documento à Procuradoria-Geral da República (PGR). Caberá à PGR decidir se uma nova denúncia será protocolada contra os acusados ou se o caso será apensado às ações penais sobre a trama golpista que já tramitam contra Jair Bolsonaro e seus aliados. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, já demonstrou proatividade em casos correlatos, como o pedido de investigação contra Eduardo Bolsonaro.

A reação de Carlos Bolsonaro ao indiciamento foi pública, através de suas redes sociais, onde ele alegou motivação política na ação da PF. “Alguém tinha alguma dúvida que a PF do Lula faria isso comigo? Justificativa? Creio que os senhores já sabem: eleições em 2026? Acho que não! É só coincidência!”, declarou. A Agência Brasileira de Inteligência, por sua vez, informou que não se manifestará sobre os indiciamentos, reafirmando que a agência está à disposição das autoridades competentes para prestar quaisquer esclarecimentos.

Conexões com Outras Investigações

Este desdobramento no caso “Abin Paralela” não ocorre isoladamente. Ele se insere em um contexto mais amplo de investigações que envolvem o ex-presidente e seus aliados. A Polícia Federal, em relatório recente, concluiu que o general Braga Netto, ex-ministro da Casa Civil e candidato a vice na chapa de Bolsonaro em 2022, atuou como “figura central” na implementação de estratégias para desacreditar o sistema eleitoral brasileiro. Mensagens encontradas no celular de um ex-assessor de Braga Netto confirmam sua participação em grupos para disseminar informações falsas sobre fraudes em urnas.

Adicionalmente, o ex-assessor de Jair Bolsonaro, Marcelo Câmara, coronel do Exército, teve sua prisão decretada pelo ministro Alexandre de Moraes nesta quarta-feira. A decisão se deu pelo descumprimento de uma medida cautelar que o proibia de usar redes sociais. A prisão de Câmara ocorreu após seu advogado interagir com Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro e delator, em conversas que o defensor usou para pedir a anulação da delação de Cid, alegando que houve pressão para que ele “falasse a palavra golpe”. Moraes considerou a conduta como uma “gravíssima” tentativa de obstrução da investigação da trama golpista.

Em outro front, a Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu a abertura de um inquérito contra o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). O pedido, que tem Alexandre de Moraes como relator, busca investigar a atuação do parlamentar nos Estados Unidos contra autoridades e instituições brasileiras, com o objetivo de intimidar autoridades e embaraçar investigações contra a organização criminosa, além de possível tentativa de abolir o Estado Democrático de Direito. A PGR citou declarações de um secretário de Estado dos EUA sobre possível imposição de sanções a autoridades brasileiras, o que reforça a gravidade das ações investigadas. Esses múltiplos inquéritos sublinham a complexidade e a interconexão das acusações que cercam o círculo do ex-presidente.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Facebook
Threads
WhatsApp
Twitter
LinkedIn

Deixe um comentário

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading

Privacidade e Cookies: O Jornal Grande Bahia usa cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com o uso deles. Para saber mais, inclusive sobre como controlar os cookies, consulte: Política de Cookies.