A Polícia Federal concluiu que o ex-presidente Jair Bolsonaro e o vereador Carlos Bolsonaro participaram de uma organização criminosa voltada para realizar ações clandestinas de espionagem política dentro da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). A conclusão consta no relatório final da investigação conhecida como “Abin Paralela“, cujo sigilo foi retirado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
O inquérito resultou no indiciamento de 36 pessoas, incluindo Carlos Bolsonaro e Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin e atual deputado federal. A PF optou por não indiciar Jair Bolsonaro, uma vez que ele já responde à acusação de organização criminosa na ação penal que investiga a tentativa de golpe de Estado.
Segundo o relatório divulgado na quarta-feira (18/06/2025), a estrutura criminosa foi montada dentro da Abin com o uso do software de monitoramento FirstMile, empregado por agentes cedidos pela PF e por servidores de confiança indicados por Ramagem. Entre os alvos da espionagem estavam autoridades do Judiciário, ex-parlamentares e jornalistas, como Alexandre de Moraes, Jean Wyllys, Rodrigo Maia, Joice Hasselmann, João Dória, Leandro Demori e Mônica Bergamo.
As investigações revelaram que também houve monitoramento ilegal de autoridades paraguaias envolvidas na negociação do acordo de energia da usina de Itaipu.
Beneficiário direto e propagação de desinformação
De acordo com a investigação, Jair Bolsonaro foi o principal beneficiário das informações obtidas de forma ilegal e do uso do sistema para propagação de desinformação voltada a descredibilizar o sistema eleitoral e influenciar as eleições de 2022.
A PF ressaltou que a atuação desse grupo se baseava em “uma estrutura paralela de produção e disseminação de desinformação” voltada contra opositores políticos e autoridades públicas. Parte do conteúdo era repassada a influenciadores digitais, entre eles o argentino Fernando Cerimedo.
Cúpula atual da Abin também foi indiciada
A atual direção da Abin também foi indiciada. A PF afirma que Luiz Fernando Corrêa, atual diretor-geral, e José Fernando Moraes Chuy, corregedor, teriam tentado obstruir as investigações, inclusive dificultando o acesso a provas e assediando a ex-corregedora do órgão. O relatório aponta tentativa de desacreditar a investigação e ocultar logs de operações internas.
Ramagem nega acusações e Carlos Bolsonaro reage
Durante depoimento, Ramagem negou que tenha ordenado a espionagem ilegal ou enviado dados a Bolsonaro. Ele também afirmou que o sistema FirstMile não estava mais em uso pela Abin a partir de 2021. Nas redes sociais, Carlos Bolsonaro disse que o indiciamento tem motivação política, sugerindo que o objetivo seria interferir nas eleições de 2026.
Ligação com trama golpista
A investigação aponta conexão direta entre a “Abin Paralela” e os eventos que levaram à tentativa de golpe de Estado. Relatórios adicionais entregues ao STF indicam que o general Braga Netto, então candidato a vice na chapa de Bolsonaro, atuou como figura central na estratégia de descredibilização das eleições.
Mensagens interceptadas indicam que Braga Netto, Flávio Peregrino e outros aliados produziram documentos com dados falsos para justificar dúvidas sobre as urnas eletrônicas e mobilizaram militares em torno da possibilidade de ruptura institucional.
Próximos Passos e Reações
Após a entrega do relatório final, o ministro Alexandre de Moraes encaminhará o documento à Procuradoria-Geral da República (PGR). Caberá à PGR decidir sobre a protocolização de uma nova denúncia contra os acusados ou o apensamento do caso às ações penais sobre a trama golpista.
Envolvidos e indiciados:
- Carlos Bolsonaro (vereador, indiciado)
- Alexandre Ramagem (ex-diretor da Abin, indiciado)
- Luiz Fernando Corrêa (atual diretor da Abin, indiciado)
- José Fernando Chuy (atual corregedor da Abin, indiciado)
- Jair Bolsonaro (não indiciado neste inquérito, mas réu por organização criminosa)
- Ações investigadas:
- Espionagem ilegal via FirstMile
- Monitoramento de autoridades e jornalistas
- Produção e propagação de desinformação
- Obstrução à investigação pela atual cúpula da Abin
- Tentativas de influenciar resultado das eleições de 2022
Provas obtidas:
- Logs de espionagem
- Trocas de mensagens entre militares
- Relatórios falsos sobre fraudes
- Câmeras e sistemas de rastreamento
Medidas judiciais:
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Indiciamento de 36 pessoas








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