STF encerra interrogatórios do Núcleo 1 da tentativa de Golpe de Estado e abre fase final de diligências processuais; Depoimentos de Jair Bolsonaro, Braga Netto, Augusto Heleno e outros réus marcam etapa decisiva

O Supremo Tribunal Federal (STF) concluiu na terça-feira (10/06/2025) a fase de interrogatórios dos oito réus do chamado núcleo 1 da ação penal que apura a tentativa de golpe de Estado ocorrida após as eleições presidenciais de 2022. Entre os investigados estão o ex-presidente Jair Bolsonaro, os ex-ministros Walter Braga Netto (Casa Civil e Defesa), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Paulo Sérgio Nogueira (Defesa), os ex-ministros Gustavo Henrique Rigodanzo Garnier (ex-comandante da Marinha) e Anderson Torres (ex-Ministério da Justiça e ex-Secretário de Segurança Pública do DF), além de militares da reserva e civis próximos ao núcleo do poder à época.

A oitiva dos acusados ocorreu sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, que coordena a instrução do processo na Suprema Corte. Encerrados os depoimentos, abre-se agora a fase de diligências complementares e manifestação das partes. A Procuradoria-Geral da República (PGR) e as defesas terão cinco dias para se pronunciar sobre o material colhido, podendo requerer novos documentos, oitivas ou perícias. Em seguida, serão apresentadas alegações finais. O julgamento poderá ocorrer ainda em 2025.

Bolsonaro nega plano golpista, mas admite discussões internas sobre medidas excepcionais

Em seu depoimento, Jair Bolsonaro negou ter participado de qualquer plano de golpe de Estado, embora tenha reconhecido que houve, no fim de 2022, reuniões com assessores e militares para discutir “alternativas dentro da legalidade” diante do resultado eleitoral. Segundo o ex-presidente, não houve apoio suficiente para viabilizar medidas como estado de sítio, nem consenso jurídico ou militar.

Bolsonaro afirmou que não redigiu, nem assinou, minutas de decretos ou ordens para subverter a ordem constitucional. No entanto, reconheceu que foram apresentados documentos com sugestões consideradas “radicais”, como prisão de ministros do STF e anulação do resultado das urnas, mas que tais textos nunca passaram à fase de execução. “Cogitação não é execução”, disse Bolsonaro, em defesa de sua conduta.

O ex-presidente aproveitou o momento para pedir desculpas ao Supremo Tribunal Federal, declarando que “errou ao alimentar desconfiança pública” sobre o processo eleitoral e que críticas ao sistema de urnas eletrônicas foram excessivas e politicamente motivadas. “Abomino qualquer ideia de golpe”, declarou.

Ex-ministros divergem sobre alertas e conhecimento de reuniões

O general Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa, relatou que chegou a alertar o então presidente da República sobre a gravidade das ideias ventiladas em reuniões no Palácio da Alvorada nos últimos dias de 2022. Segundo ele, houve sugestão para decretar estado de sítio e convocar as Forças Armadas para garantir a “ordem institucional”. Nogueira disse ter se posicionado contra tais medidas.

Já o general da reserva Augusto Heleno, ex-chefe do GSI, negou qualquer envolvimento com articulações ilegais. Declarou que jamais coordenou estratégias para colocar em dúvida a legitimidade das eleições e que sua atuação sempre foi no campo técnico, voltada à segurança presidencial. Heleno minimizou as minutas encontradas pela Polícia Federal como “documentos sem validade jurídica”, elaborados por terceiros.

Braga Netto pede revogação de prisão após negar envolvimento

O general Walter Braga Netto, que cumpre prisão preventiva, também depôs nesta fase. Em sua fala, reafirmou compromisso com a democracia, negou articulações antidemocráticas e contestou diretamente a delação de Mauro Cid, apontando que as acusações feitas pelo ex-ajudante de ordens são “invenções”. Braga Netto sustentou que não participou de reuniões para discutir golpe nem autorizou a circulação de minutas golpistas.

Logo após o interrogatório, a defesa do ex-ministro protocolou pedido de revogação da prisão preventiva, alegando que a fase de instrução foi concluída e que não há risco de obstrução de justiça. A Procuradoria-Geral da República ainda avaliará o pleito.

Garnier e Torres depõem à PF e negam envolvimento em trama golpista contra resultado eleitoral de 2022

Na segunda-feira (10/06/2025), a Polícia Federal ouviu os ex-ministros Gustavo Henrique Rigodanzo Garnier (ex-ministro da Marinha) e Anderson Torres (ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança Pública do DF) no inquérito que investiga uma tentativa de golpe de Estado após o resultado das eleições presidenciais de 2022. Ambos os depoimentos integram a apuração determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e coordenada pela PF.

Os dois ex-integrantes do governo Bolsonaro negaram qualquer envolvimento na elaboração ou execução de ações que buscassem impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, eleito democraticamente em outubro de 2022.

Declarações de Gustavo Garnier: “Me ative à minha função”

Durante o depoimento, Garnier afirmou que não teve qualquer relação com a minuta de decreto que previa a decretação de Estado de Defesa no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O documento foi encontrado em janeiro de 2023 na residência de Anderson Torres, e é considerado uma das principais peças da apuração que visa comprovar a existência de um plano golpista.

O ex-secretário de Justiça declarou que não participou de reuniões com teor antidemocrático e que, à época, limitou-se às funções técnicas do cargo.

“Me ative exclusivamente à minha função institucional”, relatou à Polícia Federal, segundo fontes próximas ao processo.

Anderson Torres: “Desconheço tecnicamente o sistema eleitoral”

O ex-ministro Anderson Torres, por sua vez, reafirmou à PF que não tem conhecimento técnico suficiente sobre o funcionamento do sistema eleitoral brasileiro e que, por essa razão, não teria condições de liderar ou participar de qualquer iniciativa que visasse a manipulação ou subversão do processo eleitoral.

Torres também declarou que não participou de reuniões com integrantes das Forças Armadas ou de assessores da Presidência que discutiram medidas contrárias ao resultado das eleições. Sobre a minuta golpista encontrada em sua casa, o ex-ministro disse que não sabe como o documento foi parar em sua residência, tese que vem sendo contestada por investigadores.

Investigação da PF e contexto do inquérito

As oitivas de Garnier e Torres fazem parte da investigação em curso no inquérito que apura a tentativa de golpe de Estado articulada por integrantes do alto escalão do governo anterior. A operação, autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, já levou à prisão de diversos ex-militares, assessores e civis próximos ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

O objetivo da apuração é confirmar a existência de uma cadeia de comando, com deliberação ativa de medidas destinadas a impedir a transição democrática de poder. A Polícia Federal apura, entre outros elementos, a atuação do chamado “gabinete paralelo”, que teria elaborado estratégias jurídicas e militares para questionar o resultado das urnas.

Próximos passos e implicações jurídicas

Com os depoimentos desta segunda-feira, a PF buscará cruzar as informações prestadas com provas documentais e mensagens interceptadas em aparelhos celulares de investigados. A investigação deve seguir com novas oitivas e análise de provas digitais apreendidas em operações anteriores.

A defesa dos ex-ministros tenta demonstrar que suas funções eram técnicas e desvinculadas de qualquer trama institucional antidemocrática, enquanto a PF busca comprovar se houve omissão, conivência ou participação direta nas ações investigadas.

STF revoga proibição de contato entre os réus

Com o fim da fase de interrogatórios, o ministro Alexandre de Moraes revogou a medida cautelar que proibia os réus de manterem contato entre si. Segundo o despacho, não há mais justificativa para tal restrição, pois os elementos centrais da instrução já foram colhidos. A decisão, contudo, mantém outras restrições processuais, como proibição de sair do país e uso de redes sociais.

Com o encerramento das oitivas e a revogação de medidas restritivas entre os réus, o STF avança para a fase decisiva de um dos mais importantes julgamentos da história recente do país. A ação envolve uma tentativa de ruptura institucional articulada nos mais altos escalões do governo anterior, cujos desdobramentos jurídicos, políticos e eleitorais tendem a influenciar o debate nacional nos próximos meses.

Desvinculação institucional da minuta golpista

Os depoimentos revelam uma estratégia de defesa baseada na desvinculação institucional da minuta golpista, bem como na alegação de desconhecimento operacional sobre os mecanismos do sistema eleitoral. Essa linha de argumentação, embora juridicamente plausível, não afasta por si só a responsabilidade administrativa ou política, especialmente no caso de Anderson Torres, cuja proximidade com o núcleo duro do ex-presidente Bolsonaro é amplamente documentada.

Além disso, a alegação de que a minuta foi deixada em sua residência sem seu conhecimento colide com o princípio da responsabilidade objetiva do cargo ocupado à época, fragilizando sua posição diante da opinião pública e dos órgãos judiciais.

Contexto da ação penal e próximos passos do julgamento

A ação penal que envolve o “núcleo 1” tem como base a acusação da Procuradoria-Geral da República de que os réus teriam atuado para impedir a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, por meio da decretação de estado de sítio, mobilização indevida das Forças Armadas e suposta fraude institucional.

Entre os elementos que fundamentam a denúncia estão:

  • Minutas apreendidas com propostas de prisão de ministros do STF;

  • Mensagens interceptadas pela Polícia Federal;

  • Delação premiada de Mauro Cid, que detalha reuniões e a cadeia de comando;

  • Relatos de militares e ex-assessores que apontam participação ativa ou omissão deliberada dos investigados.

O julgamento será pautado após a fase de alegações finais, podendo ocorrer ainda em 2025. A expectativa é que o Supremo Tribunal Federal delibere sobre responsabilidade criminal, eventual condenação e inelegibilidade dos acusados, o que pode impactar diretamente o cenário eleitoral de 2026.

Especialistas afirmam que negação coletiva de tentativa de golpe fragiliza defesa de Bolsonaro e aliados

Analistas políticos avaliam que a negação coletiva da existência de um plano golpista, adotada por Bolsonaro e outros investigados, não contribui para afastar as suspeitas e pode comprometer suas defesas, sobretudo diante da fragilidade argumentativa evidenciada nos depoimentos.

O ex-presidente admitiu ter discutido com membros das Forças Armadas “a conjuntura” após a derrota eleitoral de 2022, mas negou que tenha articulado qualquer ação fora dos limites constitucionais. “Falar em golpe, sem qualquer participação minha, graças a Deus eu estava fora do país, sem qualquer liderança, sem Forças Armadas, isso não é golpe”, declarou.

Em tom descontraído, Bolsonaro chegou a convidar Alexandre de Moraes para ser seu vice em 2026. O ministro respondeu com um “declino”, arrancando risos dos presentes, mas mantendo o controle da sessão.

Análise jurídica e política

O advogado e analista Melillo Diniz afirmou que a estratégia de minimizar fatos como a minuta de golpe, os acampamentos e as reuniões com militares pode se voltar contra os investigados. Segundo ele, a ausência de elementos robustos de defesa e a fragilidade dos argumentos apresentados agravam a situação processual dos réus.

“Nesses casos complexos, não basta a ausência de provas contundentes da acusação. É necessário demonstrar a inocência de forma clara. E isso ainda não foi feito”, avaliou Diniz.

Para ele, o comportamento mais contido de Bolsonaro indica apreensão quanto aos desdobramentos judiciais. “A tentativa de leveza e as brincadeiras revelam a carência de argumentos sólidos por parte da defesa”, completou.

Silêncio de Augusto Heleno e falha estratégica

O general da reserva Augusto Heleno recusou-se a responder às perguntas do ministro Moraes, amparado no direito constitucional de não produzir prova contra si. No entanto, chegou a afirmar que “não havia clima” na Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para ações ilegais. Seu próprio advogado o interrompeu, advertindo: “Desculpa, a resposta é só sim ou não, general”.

A postura foi vista por analistas como contraproducente, já que, mesmo em silêncio, a declaração involuntária reforça a narrativa de que havia discussões internas sobre a produção de relatórios falsos para atacar o sistema eleitoral.

Fala de Mauro Cid mantém linha anterior

O tenente-coronel Mauro Cid, delator no caso, reiterou o conteúdo de seus depoimentos anteriores à Polícia Federal. Relatou ter recebido valores em espécie entregues por Braga Netto, supostamente destinados a militares ligados a um grupo identificado como “Kids Pretos”. A quantia, segundo Cid, seria utilizada para ações que incluíam intimidação de autoridades.

Braga Netto, que prestou depoimento de forma virtual por estar preso preventivamente, negou a acusação e alegou que os empresários “estavam mais interessados em Bolsonaro do que nele”.

Especialistas projetam andamento célere do processo

Para o analista Valdir Pucci, a posição de Cid não altera substancialmente o panorama judicial de Bolsonaro, mas reforça elementos que corroboram a existência de uma tentativa coordenada de golpe.

“Há evidência de que houve sim uma tentativa de golpe por parte de Bolsonaro e de outros réus. A fala de Cid, embora repetitiva, reforça essa percepção junto aos ministros do STF”, disse Pucci.

O especialista avalia que uma eventual condenação de Bolsonaro deverá ocorrer apenas após esgotados os recursos legais, mas o processo avança com ritmo acelerado, podendo ter desfecho ainda em 2025.

Encerramento da instrução no STF

Ao final da audiência, o ministro Alexandre de Moraes fez um comentário informal, destacando o clima de tranquilidade durante os dois dias de depoimentos. “Quero agradecer a cada um dos advogados pela lhaneza. Cumpri a promessa: amanhã, brunch; quinta, jantar do Dia dos Namorados; sexta, festa junina”, afirmou, em alusão ao encerramento da fase de instrução processual.

STF julga tentativa de golpe de Estado: conheça os acusados por articular ruptura institucional após as eleições de 2022

O Supremo Tribunal Federal (STF) conduz uma das mais relevantes ações penais da história democrática brasileira, ao julgar a tentativa de golpe de Estado que teria sido articulada após o resultado das eleições presidenciais de 2022. A investigação envolve figuras centrais do alto comando militar, ex-integrantes do governo Bolsonaro e operadores políticos, acusados de planejar ações para anular o pleito e impedir a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo a Polícia Federal, o grupo teria elaborado minutas de decretos que previam Estado de Defesa ou de Sítio, além de manter reuniões para discutir a adoção de medidas inconstitucionais. As oitivas colhidas no STF demonstram uma narrativa de recuo: os investigados negam envolvimento direto, alegam desconhecimento dos planos golpistas e tentam transferir responsabilidades a outros agentes ou ao caos institucional.

A seguir, um panorama com os principais investigados no processo:

Jair Bolsonaro

Ex-presidente da República

Apontado como autor intelectual do suposto plano golpista, é acusado de revisar documentos com propostas de ruptura da ordem constitucional e de estimular ataques reiterados ao sistema eleitoral. Seu depoimento ao STF foi marcado por recuo discursivo: pediu desculpas ao ministro Alexandre de Moraes e negou ter articulado qualquer medida de subversão institucional.

Mauro Cid

Ex-ajudante de ordens da Presidência

Firmou acordo de colaboração premiada com a Polícia Federal. Em sua delação, declarou que Bolsonaro revisou minutas golpistas e que participou de reuniões nas quais tais estratégias foram discutidas. Entregou aos investigadores uma das versões do decreto que seria utilizado para sustar o resultado eleitoral.

Augusto Heleno

General da reserva e ex-chefe do GSI

Apontado pela PF como possível articulador de um “gabinete de crise” paralelo, que teria fornecido suporte técnico e estratégico a um plano de ruptura institucional. Negou no STF qualquer envolvimento ou conhecimento da suposta “operação Punhal Verde Amarelo”.

Anderson Torres

Ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança Pública do DF

Foi preso após os atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023, acusado de omissão e possível conivência com o desmonte da segurança no Distrito Federal. Em sua residência, foi apreendida uma minuta de decreto golpista. Em depoimento, alegou que o documento era uma “minuta do Google” e reafirmou não possuir provas de fraudes nas urnas.

Almir Garnier

Ex-comandante da Marinha

É investigado por supostamente ter colocado a Marinha à disposição para apoiar um movimento de ruptura institucional. Em sua defesa, nega qualquer adesão a propostas golpistas e reafirma a postura legalista das Forças Armadas.

Alexandre Ramagem

Deputado federal (PL-RJ) e ex-diretor da Abin

Acusado de usar indevidamente a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para espionar autoridades e municiar narrativas contra o sistema eleitoral. Em seu depoimento, negou qualquer irregularidade e disse que os vídeos enviados ao então presidente eram públicos e técnicos.

Walter Braga Netto

General da reserva, ex-ministro da Defesa e candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro

É citado por delatores como membro ativo das discussões sobre estratégias para impedir a posse de Lula. Teria participado de reuniões em que se debatia a intervenção institucional. Ainda não prestou depoimento nesta etapa da investigação.

Paulo Sérgio Nogueira

Ex-comandante do Exército

Participou de encontros nos quais se questionava a confiabilidade das urnas eletrônicas e a atuação do TSE. Seu nome consta entre os potenciais apoiadores do plano de ruptura, embora sua defesa afirme que suas ações se pautaram pela institucionalidade das Forças Armadas.

Interrogatórios e próximos passos

  • Os depoimentos ocorreram entre segunda e terça-feira, sob comando do relator, ministro Alexandre de Moraes.

  • Com o término da instrução, foram abertas diligências complementares, seguindo-se cinco dias para manifestações – acusação e defesa podem solicitar recursos para esclarecer fatos.

Revogação de medidas cautelares

  • O ministro Moraes revogou a proibição de contato entre os réus, considerando a fase de interrogatórios já concluída.

  • A prisão preventiva de militares como o general Walter Braga Netto passou a ser questionada pela defesa, que argumenta que a fase de instrução já está encerrada.

Versões apresentadas pelos réus

Bolsonaro

  • Negou ter articulado golpe, afirmou que ideias de “alterativas dentro da Constituição” foram debatidas em reuniões, mas descartadas por falta de apoio militar ou operacional.

  • Classificou o golpe como “abominável” e pediu desculpas ao STF pelas acusações infundadas contra ministros, mencionando críticas ao sistema eleitoral eletrônico.

  • Reconheceu ter buscado “alternativas dentro da lei”, descartando decretos que incluíam prisão de ministros do STF .

Ex-ministro Paulo Sérgio Nogueira

  • Relatou ter alertado Bolsonaro sobre a “tempestade de ideias” em reuniões de dezembro de 2022, envolvendo medidas de estado de sítio e defesa, com os comandantes do Exército e da Marinha.

Ex-chefe do GSI, general Augusto Heleno

  • Negou envolvimento direto, afirmou que não coordenou ações para colocar em dúvida a legitimidade das urnas nem coordenou plano golpista.

Braga Netto

  • Defendeu sua conduta, afirmou ser democrata, negou participação em financiamento ou plano golpista e contestou relatos do delator Mauro Cid como “mentiras”.

  • Sua defesa protocolou pedido de revogação da prisão preventiva, alegando fim da instrução.

Contexto e implicações

  • Esse é o primeiro processo criminal no Brasil pós-ditadura (1985) a reunir ex-presidentes, ex-ministros e generais acusados de atuarem para manutenção no poder por vias antidemocráticas .

  • A investigação baseia-se em documentos, interceptações, mediações e delação premiada, especialmente de Mauro Cid, que trouxe provas sobre minuta com possibilidades de prisão de autoridades .

  • O fim dos depoimentos marca o início da fase decisiva: solicitações de provas, alegações finais em 15 dias, voto de relator e, por fim, julgamento — com expectativa de decisão ainda no fim de 2025, antes do calendário eleitoral de 2026.

Papel central da delação premiada

  • A revogação das restrições reflete confiança do STF na regularidade da fase de instrução.

  • As narrativas dos réus tentam dissociar discussões táticas da configuração de golpe, buscando reduzir seu grau de envolvimento.

  • O papel central da delação premiada e documentos apócrifos evidencia a importância das provas para definição da conveniência ou gravidade das acusações.

Especialistas apontam fragilidade da delação de Mauro Cid

Com o encerramento dos depoimentos, especialistas e analistas jurídicos voltaram a questionar a robustez da delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, considerada um dos pilares da acusação.

A investigação, conduzida sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, inclui entre os réus o ex-presidente Jair Bolsonaro e integrantes do alto escalão do governo anterior, como os generais Walter Braga Netto, Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira e Anderson Torres.

Contradições entre os réus colocam em xeque narrativa de delator

Durante os interrogatórios, os principais acusados adotaram uma linha de defesa convergente: negaram articulações golpistas e minimizaram os documentos, reuniões e mensagens interceptadas pela Polícia Federal. Em particular, os relatos dos generais Braga Netto, Heleno e Nogueira divergem substancialmente do conteúdo da delação de Mauro Cid, que os aponta como participantes de reuniões em que se discutiram medidas para impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva.

Braga Netto classificou as declarações de Cid como “invenções”, enquanto Heleno declarou não ter participado de qualquer articulação ilegal. Paulo Sérgio Nogueira confirmou que houve debates sobre alternativas institucionais no final de 2022, mas reiterou que se opôs às ideias de ruptura. As negativas enfraquecem a tese de que havia consenso no entorno de Bolsonaro para executar medidas excepcionais.

Admissões parciais e estratégia de desvinculação institucional

Em seu depoimento, Jair Bolsonaro negou ter liderado um plano golpista, embora tenha admitido que assessores e militares chegaram a propor decretos de exceção. O ex-presidente tentou se desvincular da elaboração dos documentos e reforçou a narrativa de que as discussões não ultrapassaram o campo da cogitação. Essa posição reflete uma tentativa de esvaziar a força probatória da delação de Cid, cujo conteúdo atribui a Bolsonaro papel ativo na análise de minutas de golpe.

A estratégia da defesa dos réus tem sido a de reduzir o vínculo direto com os elementos materiais apreendidos, como as minutas encontradas na residência de Anderson Torres e os registros de mensagens sobre convocação das Forças Armadas. Contudo, a ausência de reconhecimento formal de autoria desses documentos levanta questionamentos sobre sua eficácia como prova judicial.

Delação de Mauro Cid enfrenta questionamentos técnicos e políticos

O conteúdo da colaboração premiada de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens da Presidência da República, vem sendo progressivamente isolado pelas defesas e desacreditado por outros investigados. Cid declarou ter entregue dinheiro a interlocutores militares ligados a um suposto grupo “Kids Pretos” e mencionou o envolvimento direto de Braga Netto em reuniões decisivas. Nenhum dos réus, contudo, confirmou sua versão.

Além disso, a delação ainda carece de elementos externos robustos que a corroborem de forma incontestável, o que compromete sua força processual. Em casos penais dessa magnitude, o princípio da corroboração exige que declarações premiadas sejam sustentadas por provas materiais ou testemunhais consistentes — critério que, segundo especialistas, ainda não foi plenamente atendido.

Especialistas veem risco de nulidade parcial se acusação depender exclusivamente de Cid

Segundo o jurista Melillo Diniz, “a narrativa apresentada por Mauro Cid tem elementos relevantes, mas é insuficiente, isoladamente, para sustentar a condenação de autoridades que negam terminantemente os fatos relatados.” Ele destaca que o STF precisará avaliar se há substrato probatório autônomo que fundamente a denúncia independentemente da colaboração premiada.

Essa fragilidade compromete não apenas a sustentação da acusação contra Braga Netto e Augusto Heleno, mas também pode gerar embaraços à responsabilização penal de Bolsonaro. “A delação não pode se tornar o único eixo do processo, sob pena de nulidade parcial”, afirma Diniz.

Conclusão da fase de instrução processual e próximos passos

Com a conclusão dos interrogatórios, abre-se a fase de diligências complementares. A Procuradoria-Geral da República (PGR) e as defesas terão até cinco dias para se manifestar. Em seguida, o processo entrará na fase de alegações finais, com prazo estimado de 15 dias. A expectativa é que o julgamento do núcleo 1 ocorra ainda em 2025, antes do calendário eleitoral de 2026.

Enquanto isso, o STF revogou a proibição de contato entre os réus, considerando que os principais elementos da instrução já foram colhidos. A prisão preventiva de Braga Netto permanece em vigor, mas sua defesa pleiteia revogação imediata.

Linha do Tempo – Tentativa de Golpe de Estado e Interrogatórios no STF (2022–2025)

Evolução dos principais fatos envolvendo Jair Bolsonaro, militares e ex-ministros acusados de planejar a subversão da ordem institucional no Brasil

Outubro de 2022

  • 30/10/2022Luiz Inácio Lula da Silva é eleito presidente da República.

  • Após o resultado, apoiadores de Jair Bolsonaro iniciam protestos em frente a quartéis e bloqueios de rodovias.

Novembro a Dezembro de 2022

  • Reuniões no Palácio da Alvorada debatem decretos de estado de defesa, estado de sítio e uso das Forças Armadas.

  • Minutas de teor golpista começam a circular entre assessores e militares próximos ao presidente.

  • General Paulo Sérgio Nogueira alerta sobre os riscos de ruptura institucional.

  • Bolsonaro permanece recluso e evita reconhecer a derrota publicamente.

Janeiro de 2023

  • 08/01/2023 – Sede dos Três Poderes é atacada por golpistas em Brasília.

  • Início de investigações no STF sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes.

Maio a Dezembro de 2023

  • Delações premiadas de militares e civis indicam envolvimento de ex-ministros, assessores e do próprio Bolsonaro.

  • Apreensões de minutas golpistas, trocas de mensagens e registros de reuniões reforçam indícios de conspiração.

Março de 2024

  • A Procuradoria-Geral da República oferece denúncia contra o chamado “núcleo 1” da trama, incluindo Jair Bolsonaro, Braga Netto, Augusto Heleno, Paulo Sérgio e outros.

Abril a Maio de 2025

  • Audiências de instrução e coleta de provas avançam no STF.

  • Ministro Moraes mantém prisões preventivas e proibição de contato entre os réus.

  • Braga Netto, Mauro Cid e outros réus são ouvidos.

09/06/2025 (segunda-feira)

  • Começam os interrogatórios dos principais réus no STF.

  • Ex-ministros militares negam envolvimento direto, mas admitem que houve debate interno sobre medidas de exceção.

10/06/2025 (terça-feira)

  • Jair Bolsonaro depõe, nega plano de golpe, reconhece discussões internas e pede desculpas ao STF por falas contra o sistema eleitoral.

  • Ministro Moraes encerra a fase de interrogatórios e revoga a proibição de contato entre os réus.

  • Inicia-se o prazo para diligências complementares e posterior apresentação de alegações finais.

Próximos passos (previsão para 2º semestre de 2025)

  • PGR e defesas devem se manifestar em até cinco dias.

  • STF deve abrir prazo de 15 dias para alegações finais.

  • O julgamento do núcleo 1 pode ser pautado ainda no final de 2025, antes do início do calendário eleitoral de 2026.

Esta linha do tempo resume os principais eventos políticos, judiciais e investigativos relacionados à tentativa de golpe de Estado envolvendo figuras centrais do governo Bolsonaro, destacando os marcos processuais da ação penal em curso no Supremo Tribunal Federal.


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