A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) divulgou na Sexta-feira (27/06/2025) o relatório “Um mundo endividado. É hora de reformar”, revelando que a dívida pública global alcançou US$ 102 trilhões em 2024, sendo US$ 31 trilhões referentes a países em desenvolvimento. O documento enfatiza a necessidade de reformas urgentes na governança financeira internacional diante do agravamento das desigualdades e da crescente fragilidade fiscal das nações mais pobres.
De acordo com o relatório, os países em desenvolvimento enfrentaram pagamentos recordes de juros, somando US$ 921 bilhões em 2024, o que representa um aumento de 10% em relação ao ano anterior. Essa pressão orçamentária tem limitado a capacidade desses governos de manter serviços públicos essenciais, como saúde, educação e políticas de mitigação climática.
A Unctad alerta que o peso excessivo da dívida freia o crescimento econômico, em vez de promovê-lo, especialmente quando associado a juros elevados, estagnação global e incerteza geopolítica.
Distribuição desigual e juros mais altos para países pobres
O relatório revela que:
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Ásia e Oceania concentram 24% da dívida pública global;
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América Latina e Caribe, 5%;
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África, apenas 2%.
Contudo, os países em desenvolvimento pagam taxas de juros de duas a quatro vezes maiores que os Estados Unidos desde 2020. Em 2023, essas nações destinaram US$ 487 bilhões a credores estrangeiros, sendo que metade delas usou pelo menos 6,5% das receitas de exportação apenas para saldar dívida pública externa.
A Unctad identifica que 61 países em desenvolvimento gastaram mais de 10% de suas receitas governamentais apenas com juros, o que evidencia a disparidade no acesso ao crédito internacional e a urgência de reformas no sistema financeiro global.
Impactos sociais: dívida maior que investimentos em saúde e educação
O estudo estima que 3,4 bilhões de pessoas vivem em países onde os gastos com juros superam os investimentos em saúde ou educação. A Unctad classifica esse cenário como insustentável e afirma que as consequências são especialmente graves em momentos de crise, quando a liquidez internacional é restrita e os fluxos de ajuda externa diminuem.
Propostas da Unctad para enfrentar a crise da dívida
O relatório apresenta uma série de recomendações para reduzir os riscos sistêmicos associados à dívida pública dos países em desenvolvimento:
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Reforma da governança econômica internacional, com maior inclusão e representação de países em desenvolvimento nas instâncias decisórias;
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Melhoria do acesso à liquidez em tempos de crise, com mecanismos mais ágeis e equitativos;
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Correção das distorções do sistema de dívida internacional, com revisão das taxas, prazos e condicionalidades;
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Ampliação do acesso a fundos de apoio técnico e financeiro, com foco na sustentabilidade fiscal e no desenvolvimento de longo prazo.
Contexto internacional e desafios à frente
O relatório é publicado às vésperas da 4ª Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento, o que intensifica o apelo das Nações Unidas por uma reestruturação do sistema financeiro global. A Unctad defende que a dívida, quando bem estruturada, pode ser uma ferramenta para o progresso, mas alerta que a escalada descontrolada dos encargos financeiros transforma a dívida em um obstáculo ao desenvolvimento sustentável.
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