A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros a partir de 1º de agosto de 2025, gerou repercussões políticas imediatas no Brasil. O episódio causou tensões no campo da direita e abriu espaço para o governo federal capitalizar politicamente a pauta da soberania nacional, segundo avaliação de analistas políticos entrevistados pela Sputnik Brasil.
O anúncio foi feito por Trump por meio de carta publicada nas redes sociais. O ex-presidente norte-americano justificou a medida alegando suposta perseguição política a Jair Bolsonaro, ex-presidente do Brasil, atualmente inelegível. A resposta inicial de figuras como Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Romeu Zema (Novo-MG) foi de responsabilização direta ao presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No entanto, diante da reação crítica da opinião pública, ambos recuaram e passaram a defender uma postura de negociação diplomática.
Eduardo Bolsonaro (PL-SP), deputado federal licenciado e filho do ex-presidente, apoiou abertamente as tarifas, exaltando Trump nas redes sociais. A postura gerou desconforto mesmo entre aliados do bolsonarismo e intensificou críticas entre setores econômicos impactados pela medida.
Segundo o cientista político Mateus Mendes, a declaração de apoio à taxação enfraquece o grupo liderado por Bolsonaro entre setores da classe média e empresarial. Para Mendes, mesmo que a participação da família Bolsonaro na decisão tenha sido mínima, a percepção de apoio a uma ação prejudicial ao Brasil pode torná-los politicamente tóxicos para parte do empresariado.
O professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e coordenador do LabGRIMA, Charles Pennaforte, observa que o episódio reforçou a fragmentação interna da direita. Ele diferencia o “bolsonarismo religioso”, que mantém apoio incondicional à família Bolsonaro, do “bolsonarismo laico”, mais ligado ao capital e aos setores empresariais, que repudiam a taxação e exigem posições pragmáticas.
Ana Garcia, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), também aponta que o episódio gerou um realinhamento momentâneo da sociedade em torno da defesa da soberania nacional e exibiu a falta de unidade na direita, o que pode comprometer sua competitividade em 2026. Ela avalia que o campo conservador ainda não definiu um novo nome que una as diversas correntes, em virtude da inelegibilidade de Bolsonaro.
O professor Luiz Felipe Osório, também da UFRRJ, destaca que os efeitos econômicos das tarifas recaem diretamente sobre setores ligados ao comércio exterior, tradicionalmente mais próximos da direita liberal. Para ele, o bolsonarismo representa frações da burguesia com inserção internacional, o que torna o impacto político ainda mais sensível.
Enquanto isso, o governo Lula, que vinha enfrentando críticas após o escândalo dos descontos indevidos no INSS e a disputa com o Congresso pelo aumento do IOF, viu o foco da opinião pública se deslocar. Pennaforte considera que Trump, ao adotar uma medida vista como ofensiva à soberania brasileira, ajudou a reposicionar o governo Lula como defensor da autonomia nacional — uma pauta com potencial de mobilização transversal na sociedade brasileira.
Apesar disso, Ana Garcia pondera que esse alinhamento é circunstancial. Já Osório reforça que a adesão da elite econômica ao governo dependerá da capacidade do Planalto de capitalizar politicamente o episódio, destacando que a burguesia age mais por interesse político conjuntural do que por perdas econômicas diretas.
Para Mendes, o governo deve permanecer atento para que o tema não comprometa sua agenda interna. Ele afirma que, mesmo com baixo risco de implementação prática das tarifas, o anúncio por si só já demanda reação política e estratégica, o que pode paralisar iniciativas e comprometer prioridades do Executivo.
*Com informações da Sputnik News.
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