Trinta anos após o genocídio, Srebrenica continua sem reconhecimento pleno na cultura europeia da memória

Na quinta-feira, 11/07/2025, a Europa rememorou os 30 anos do genocídio de Srebrenica, considerado o maior massacre em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial. Apesar do reconhecimento jurídico internacional do crime como genocídio, a memória de Srebrenica permanece marginalizada na cultura oficial europeia, enfrentando negacionismo institucional na Sérvia e na República de Srpska, bem como omissão parcial por parte de instituições da União Europeia.

O genocídio de Srebrenica e seu contexto histórico

Entre 11 e 13 de julho de 1995, tropas sérvias comandadas por Ratko Mladić, general do Exército da República Srpska, invadiram a zona de segurança da ONU em Srebrenica e executaram mais de 8.000 homens e adolescentes bósnios muçulmanos. O episódio, reconhecido como genocídio pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII), simboliza o ápice da política de limpeza étnica promovida pela liderança sérvia durante a guerra da Bósnia (1992–1995).

As imagens da tragédia — refugiados cercados em Potocari, a separação forçada de mulheres, crianças e homens, e a complacência da missão holandesa da ONU — tornaram-se emblemáticas do fracasso da comunidade internacional em cumprir seu dever de proteção.

Reconhecimento e justiça internacional

O julgamento e condenação de Ratko Mladić em Haia por genocídio e crimes contra a humanidade, além da aprovação da resolução da Assembleia Geral da ONU em 2024, que instituiu 11 de julho como o Dia da Memória do Genocídio de Srebrenica, foram avanços simbólicos importantes. Cerca de 7 mil vítimas já foram identificadas e sepultadas no Memorial de Potocari, inaugurado em 2003.

No entanto, as medidas internacionais foram tardias e insuficientes. Apenas em 2022 o governo da Holanda emitiu um pedido formal de desculpas, reconhecendo sua falha em proteger os civis. Tal gesto permanece como exceção entre os Estados envolvidos.

Negacionismo persistente na Sérvia e na República de Srpska

Apesar das condenações jurídicas e das evidências históricas, a Sérvia e a República de Srpska mantêm uma política de negação ou relativização do genocídio. O Parlamento sérvio jamais reconheceu oficialmente o crime. O atual presidente sérvio, Aleksandar Vučić, que em 1995 atuava como ministro da Informação de Slobodan Milošević, nunca se retratou por declarações de incitação à violência.

Em 2021, um relatório encomendado por Milorad Dodik, presidente da República de Srpska, e elaborado por Gideon Greif, negou a existência do genocídio e contestou o número de mortos, contrariando frontalmente as conclusões do TPII e da ONU.

Cultura da memória europeia e a omissão institucional

O genocídio de Srebrenica é um marco central na memória coletiva da Bósnia e Herzegovina, mas permanece ausente da narrativa oficial da União Europeia. Um exemplo revelador é o Dia Europeu em Memória das Vítimas de Todos os Regimes Totalitários e Autoritários (23 de agosto), no qual nenhuma menção a Srebrenica foi feita pelas autoridades europeias.

Em 2024, a Hungria votou contra a resolução da ONU, alinhando-se à Sérvia e à Rússia — uma aliança explícita no campo do negacionismo histórico.

Legislação contra o negacionismo e lacunas na responsabilização

A legislação promulgada em 2021 pelo então Alto Representante Internacional para a Bósnia, Valentin Inzko, criminaliza a negação do genocídio. Contudo, a primeira condenação com base nessa norma ocorreu apenas em maio de 2025, revelando a lentidão no enfrentamento jurídico ao negacionismo.

Memória, abandono e revitimização

A maior parte dos sobreviventes vive à margem da sociedade, sem acesso pleno a reparação ou suporte institucional. Somente viúvas de guerra sem filhos homens sobreviventes recebem algum auxílio. Muitos relatam que o abandono pós-guerra representa uma segunda forma de trauma, agravada pela falta de políticas públicas consistentes de reparação e memória.

Todos os anos, grupos nacionalistas organizam atos provocativos em frente ao Memorial de Potocari, com desfiles, músicas e gestos de desrespeito — evidências da normalização do revisionismo histórico nos Bálcãs.

A guerra da Bósnia e a dissolução da Iugoslávia

A guerra da Bósnia foi resultado direto da fragmentação da Iugoslávia, acelerada no início dos anos 1990 após a morte do marechal Josip Broz Tito. Com a declaração de independência da Bósnia-Herzegovina em 1992, iniciou-se um conflito brutal entre bósnios muçulmanos, sérvios e croatas, impulsionado por projetos nacionalistas e apoio político-militar da Sérvia sob o comando de Milošević.

Srebrenica, zona de segurança da ONU desde 1993, foi cercada por tropas sérvias e posteriormente invadida. O genocídio consumado entre os dias 11 e 13 de julho de 1995 revelou o colapso da proteção internacional e a falência da diplomacia preventiva.

Acordo de Dayton e consequências estruturais

O Acordo de Paz de Dayton, assinado em dezembro de 1995, encerraria o conflito, mas ao custo de uma arquitetura institucional fragmentada: a criação de duas entidades — a Federação da Bósnia e Herzegovina e a República de Srpska — perpetuou tensões étnicas e impasses institucionais que persistem até hoje.

Significado político e moral

Srebrenica tornou-se símbolo da falência da comunidade internacional diante da barbárie contemporânea. A lembrança do massacre deve ser central em qualquer agenda séria sobre direitos humanos, prevenção de genocídios e responsabilidade internacional.

Contudo, três décadas depois, a memória de Srebrenica continua sendo alvo de disputa, negacionismo e omissão, revelando uma inércia política e moral das lideranças europeias. A ausência de mecanismos eficazes de reparação e políticas de memória integradas fragiliza o lema “nunca mais”.

Compromissos pendentes

Diante do quadro de negacionismo ativo e abandonos sucessivos, o caso Srebrenica impõe à União Europeia, à Organização das Nações Unidas e aos signatários da Convenção de 1948 para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio a responsabilidade moral e política de adotar medidas concretas: pressionar por reconhecimento oficial dos fatos históricos, aplicar sanções diplomáticas a negacionistas e estabelecer programas de apoio direto aos sobreviventes e à preservação da memória.


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